21 novembro 2009
Difícil Liberdade
Publicado por: Cris GomesA notícia de que Ingrid Betancourt, ex-candidata à presidência da Colômbia, havia sido libertada bateu como uma festa no meu coração. Há seis anos na selva, prisioneira das Farcs, um grupo paramilitar colombiano, eu acompanhava o drama de Ingrid e da família dela. Nunca achei que ela fosse escapar. Lia seus livros ("carta à mãe", o mais impressionante), via as tentativas desesperadas dos parentes em libertá-la, e as fotos de uma mulher que minguava no cativeiro.

Logo o Jornal da Record se movimentou para mandar um repórter à Bogotá. Eu queria muito ir. Me candidatei e fui. Julho do ano passado.
Em duas horas estava no aeroporto para embarcar. Junto com o cinegrafista Gilson Dias. Tínhamos que chegar a tempo para a coletiva que ela daria na embaixada da França em Bogotá na manhá seguinte à libertação. Só conseguimos participar da coletiva porque nossa produtota aqui no Brasil, Rosana Mamani, fez a ponte com a embaixada brasileira em Bogotá e conseguiu nos credenciar. Uma confusão na entrada, tivemos que forçar passagem. Muitos jornalistas ficaram de fora. Inclusive nossa principal concorrente brasileira.
Lá dentro, numa grande sala da embaixada francesa (Ingrid Betancourt também é cidadã francesa), muitos repórteres e fotógrafos sentados no chão, em cima de escadas, de cadeiras, amontoados e ansiosos. Poucos viram, apenas os que estavam perto de uma porta lateral. A escolta que trazia Ingrid entrou pelos fundos, onde há um pátio, numa cena cinematográfica. Um furgão na frente, com portas abertas e em alta velocidade, com dois homens de metralhadoras empunhadas. Atrás, dois carros pretos e motociclistas. Ingrid estava nesse segundo carro. Saltou, cercada de seguranças, já bem perto da porta que dava acesso à sala da coletiva. Ingrid estava livre das Farcs, mas liberdade não era bem o que ela havia acabado de ganhar. Talvez um estado intermediário.
Ingrid entrou na sala sob uma intensa salva de palmas. Mais palmas. Gritos. Choro. Alguns minutos para aquela catarse. Éramos nós, a imprensa, principalmente a colombiana, que desabava em emoção. Éramos nós, representantes de todos aqueles que repudiam a violência e a arbitrariedade.
Indrig sorriu, deu um aceno geral, e depois começou a procurar naquela platéia rostos familiares. Quando os encontrava, mandava beijos, recebia bilhetes de alguns jornalistas que, acredito, eram bem conhecidos dela, talvez até amigos da época de campanha eleitoral. Ela dizia "gracias", com mais beijos lançados ao ar. Mais sorrisos.
Há muita polêmica em torno da figura dela. Dizem que é oportunista, pouco fiel aos ex-companheiros. Não sei.
O que vivemos naquele dia foi um acontecimento que contrariava todas as previsões. Uma mulher que viveu acorrentada às árvores da floresta. Que ficou doente e não sucumbiu. Que foi calada à força. E que ali estava sentada diante de um microfone, com o rosto plácido, um olhar doce, para falar para o mundo. Recém chegada do inferno. Ingrid nem precisava ter dito nada.
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