17 dezembro 2009
Os profetas da academia
Publicado por: Vinícius DônolaNo post anterior, transcrevi partes iniciais de uma tese que, vinte anos atrás ou quase isso, versava sobre um tema que parece vivinho da Silva: a mudança no perfil do telespectador, menos passivo, mais ávido por produzir conteúdo. Nas entrelinhas da linguagem acadêmica, os conceitos de desmassificação e interatividade servem de coluna dorsal para o estudo.
Reiterando que o estilo da escrita que se segue foge à linguagem dos blogs, espero criar com vocês uma ponte para análise teórica dos fenômenos que nos transformam, ainda que, despercebidos, não nos demos conta do tsunami que varre a Comunicação Social global.
Boa leitura.
Vinícius Dônola
A Comunicação Social e a Terceira Onda de Alvin Tofler
“The Third Wave” varreu conceitos e fez ruir o castelo de areia da velha comunicação de massa. A torre das estruturas verticais de produção midiática caiu com a força das ondas e só ficaram lembranças da praia da Segunda Onda. Os velhos heróis do reino tinham músculos e coragem, mas se renderam aos braços da informação.
“O negócio fundamental do espião é a informação – e a informação talvez se tenha tornado o negócio mais importante e de mais rápido crescimento no mundo. O espião é um símbolo vivo da revolução que, neste momento, varre a ionosfera.”
(TOFLER, Alvin, in “The Third Wave”)
Nas espumas desta onda, eis que aparece um novo telespectador, um homem saturado de ver e ouvir, sedento por expressar seu universo, suas idéias, quando não sua discórdia ao mundo que o abraçava. Cansou de esquentar a poltrona da sala numa comunicação quase unilateral.
Alvin Tofler não foi o único a desenhar este novo Homem. Por um lado, há Jean Cazeneuve. Por outro, Jean Cloutier, os pais de um projeto que versa sobre “desmassificação” e “interatividade”.
Mas idéias sem freio são fadadas a cair no abismo da utopia. A casa do “novo telespectador” tem paredes que, na verdade, foram edificadas pelo mercado, pelo fluxo inenarrável da oferta e da procura. A informação, mais do que nunca encaixotada e rotulada, está à venda como mercadoria, à disposição da vontade do comprador, do seu desejo de consumir.
Nesta nova realidade, alguns meios de comunicação não ficaram estáticos e aprenderam a saciar a sede do “novo telespectador”.
(...)
Por fim, nosso “novo telespectador” ganhou o direito de participar. Não devemos nos levar numa onda de extrema utopia, de quebra radical da estrutura da sociedade, mas o certo é que seu “feed-back” é mais expressivo, e já possui maioria para ir às compras. Não entendemos como viável uma malha comunicativa repleta de pequenos emissores caseiros, saturados de receber e de não emitir. O que há é um desejo natural de expressão, de criação, que será reconhecido com o teletexto (vixe, isso é velho!), com o vídeo texto, com a televisão a cabo e, agora, com os CDI´s.
Tudo depende da procura e, como tal, da oferta patrocinada pelas Novas Tecnologias. (velho, porém profético) O “novo telespectador”, em síntese, é qualquer coisa de inédito, mais novo do que propriamente experimental. Talvez, seja um ser massificado fazendo panfletagem da Terceira Onda; ou simplesmente um receptor passivo iludido com o discurso da comunicação interativa. À frente do rosto deste novo personagem, ainda há uma nuvem de dúvidas, que fazem do pequeno Emerec (conceito de Cazeneuve) um adolescente cheio de crises existenciais, mas naturais da idade. A relação “caixa-preta” e “novo telespectador” sempre será assim, com altos e baixos, casamentos e separações. Mas, pelo menos, uma coisa é certa: o fascínio entre ambos nunca vai apagar.
Vinícius Dônola
Trecho de tese defendida na Escola Superior de Jornalismo do Porto, Portugal
1992











