20 dezembro 2009
Diário da Enchente
Publicado por: Lucio SturmTem coisa pior… imagine o que é cobrir uma guerra!
Foi esta a frase usada pela minha mulher para tentar me tranquilizar quando contei a ela, meio aflito, que iria passar a semana no Jardim Pantanal - região de São Paulo onde dez mil pessoas vivem alagadas desde o dia 08 de dezembro.
Minha primeira preocupação foi com a segurança. Tinha fresco na memória a experiência da última visita ao bairro, dois anos atrás. Era uma reportagem sobre saneamento básico. Andávamos pelas ruas acompanhados de um líder comunitário. Por duas vezes, traficantes vieram de moto perguntar qual era o motivo da nossa presença.

Minha apreensão aumentou na noite de domingo, véspera da partida. Liguei para um amigo, delegado de polícia.
-Vou dormir no Jardim Pantanal, contei.
- Você tá louco… é super perigoso.
Era tudo o que eu não queria escutar.
-Qual é o endereço?
Respondi que não sabia ainda, já que estava de folga e tinha decidido não falar com o produtor que alugou a casa para não antecipar problemas. Fiquei de ligar na manhã seguinte, quando chegasse lá.
Saímos da TV Record às quatro da madrugada da segunda-feira, dia 14. No caminho, assim que entramos na região, a cena, numa pequena estrada esburacada, era difícil de entender. Vans e ônibus parados em enormes poças d’agua.
Detalhe: não havia chovido em São Paulo naquela noite.
Assim que desci do carro para gravar notei que uma fina lâmina de água corria pelo chão.
- De onde vem isso? Perguntei a um motorista.
- Do Tietê.
Só depois consegui entender. Naquele ponto o rio tem o traçado em forma de “S”. Com a cheia, a água se esparramava formando um longo retângulo molhado.
Depois de entrevistar motoristas e passageiros que tentavam ir para o trabalho, fui falar com uma senhora que estava parada na janela de uma casa, com olhar vazio.
Quando cheguei perto, não acreditei: a lamina d’agua atravessava toda a casa. Corria por baixo de camas, mesas e dos poucos móveis que ainda restavam inteiros.
Perguntei como ela vivia assim... com dois filhos… o que comia?
-Não tem mais o que comer… outro dia mataram uma cobra… tentei comer antes de dar para os meninos, mas joguei fora. Tinha gosto de esgoto.
O dia nem tinha começado e já estávamos com quase uma fita inteira gravada.
Chegamos à casa alugada com o dia clareando. Um autêntico “puxadinho” em cima do mercadinho do bairro. Guardamos as malas e saímos de novo para gravar. Antes, anotei o endereço: Rua Capachós.
Na primeira oportunidade, liguei para o amigo policial.
- Me dá cinco minutos que vou ver no Google Earth, ele disse.
O retorno veio logo depois. Era animador.
- Pode dormir abraçado com o ursinho de pelúcia. É a rua do CEU (Centro Educacional Unificado da Prefeitura). Jardim Romano. Aí é tranquilo.
Ele mesmo me explicou que a região chamada Pantanal é formada por vários bairros. Em alguns, a barra é pesadíssima. Em outros, não. A casa ficava no mais civilizado. Ótimo.
Gravamos a manhã inteira. Era o início de uma semana cheia de histórias e cenas impressionantes: casas cheias d’água, famílias ilhadas, pessoas há dias sem por os pés na rua.

Barcos feitos de garrafas pet para buscar comida, pontes improvisadas para atravessar ruas, escadas que levavam a rotas de fuga por cima dos telhados…
Quase tudo parecia surreal. Filme de apocalypse. Uma espécie de Mad Max molhado. Meninos brincando na água suja, cobras e eletrodomésticos boiando…
Se olharmos para a atuação do poder público o filme seria um pastelão. Uma comédia de erros. A região alaga desde quando os bandeirantes usavam o Tietê para chegar ao interior do estado. Não por acaso, ganhou o apelido de Pantanal.
Mesmo assim, as ruas estão asfaltadas, há escolas, trens, postos de saúde, conjuntos residenciais financiados por bancos, e o CEU – uma obra de 27 milhões de reais construída exatamente na área alagável – hoje isolado pela água.
A infraestrutura consolidou e incentivou a ocupação irregular. Agora, a Prefeitura promete tirar mais de 3 mil famílias da área alagada.
As histórias do Pantanal Paulistano são tristes. Cortam coração. Gente que comprou ou construiu casa sonhando com uma vida melhor e agora, vê a água batendo na porta, chova ou faça sol.
Eu não imaginava, mas na verdade, estava mesmo indo cobrir uma guerra quando embarquei no “Diário da Enchente”. Uma guerra do homem contra a natureza. Que, dessa vez, parece ter vencido o confronto.

Com imagens de Julia Chequer
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