24 setembro 2010
Hora da merenda
Publicado por: Vinicius CostaRoubar doce de uma criança pode ser uma das modalidades criminosas mais antigas e covardes de que se tem conhecimento. Com o tomepo, esse golpe mudou um pouquinho o formato. Nesse Brasil gigante, não é novidade pra ninguém notícias de crianças que comem apenas uma vez por dia. Mas não escrevo sobre doces. A hora da merenda nas escolas públicas é um momento único. É a chance de ter por perto um prato cheio. E só.
Esta matéria mostra a prisão de um grande empresário do setor de alimentação:
Uma história que começa lá atrás, em outubro de 2008, quando começamos a trabalhar no caso da “máfia das merendas”. Julgar a prisão desse empresário é trabalho da justiça. Mas no andamento do caso, foi assustador ver o tamanho da preocupação de políticos e empresários com o desenvolvimento do país. De crianças pobres que talvez nem reparem se estiverem comendo lixo. Deve ser assim que eles imaginam os alunos da rede pública.
O acusado de envolvimento no caso foi preso por – segundo o Ministério Público – oferecer propina a vereadores e prefeitos para evitar qualquer tipo de investigação envolvendo a empresa dele. Também é apontado como um homem que, nas horas vagas, abre a carteira de novo para combinar contratos de fornecimento de mais merenda. Com aquela qualidade.
Seis da manhã em São Paulo. Um empresário é preso. Pouco depois das sete aparece um advogado dele na delegacia. Talvez por receio ou medo ou vergonha ou por falta de profissionalismo ele nega ser advogado do empresário. Curioso um advogado que já mente no primeiro contato. Em questão de meia hora, surge um exército de defensores engravatados. Carrões importados estacionam próximo à delegacia e, em ternos alinhados, homens esbaforidos surgem apressados. Eram quatro advogados. Cheguei a ouvir um quinto sendo dispensado por telefone. Perguntei a um deles: quantos fazem parte da empresa ou da defensoria pessoal do empresário? Com um enorme prazer afirmou de bate e pronto: “O empresário tem uma equipe de 40 advogados”. Espero que não pareça uma crítica aos profissionais da área, afinal de contas vivo cercado por eles, em casa inclusive. Mas saí da delegacia me perguntando: será que se por um acaso eu for acusado de um crime precisaria de tanta gente assim?
O mesmo defensor que revelou o time de 40 advogados, ao final do expediente na delegacia, reforçou o motivo do colega dele ter mentido lá no começo da manhã. “Acredito que ele não goste de vocês, jornalistas. Sabe como é a imprensa, como vocês trabalham.” Talvez eu tenha conversado com um excelente profissional. Mas estou certo de que o advogado tenha se esquecido de dar uma olhadinha no principal motivo que o levou até lá. As denúncias, feitas inicialmente pelo Jornal da Record, contra o cliente dele. Mais uma vez lembro que a justiça é quem vai punir os responsáveis e comprovar se o homem preso tem ou não culpa no cartório. Porém, eu ouvi as merendeiras de escolas públicas. “As crianças ficam pedindo mais comida. Corta o coração da gente, mas não tenho comida pra servir. A empresa obriga a gente a dar pouco”, disse uma delas.
Que as imagens de frutas estragadas numa dispensa e um saboroso panelão de arroz sem tempero com quatro ou cinco ovos cozidos em cima sirvam para lembrar alguma coisa. Enquanto dalí, a equipe de defesa entrou nos carrões e foi direto para um restaurante para mais uma reunião, ainda existem merendeiras que escutam todos os dias algo como “tia, dá pra pôr mais um tantinho no meu prato?”
Veja mais:
+ Acompanhe o R7 no Twitter
+ Veja os destaques do dia
+ Todos os blogs do R7











