
"No ano passado, não teve eleição, não teve greve. Este ano tem eleição, tem greve. Será que é só mera coincidência?", indagou placidamente o governador Geraldo Alckmin, garantindo que estava tudo sob controle, em meio ao caos em que São Paulo vivia desde as primeiras horas da manhã desta quarta-feira, paralisada pela greve de trens e do Metrô que desaguou em conflitos e no recorde de congestionamento das manhãs paulistanas, com quase 250 quilômetros.
Respondendo ao governador, seria bom lembrar que a última greve dos metroviários aconteceu em 2007 , um ano não eleitoral. E tivemos, sim, eleições em 2008 (para prefeitos) e 2010 (presidente e governadores), anos em que não foram registradas greves da categoria.
Para os mais de três milhões de paulistanos que ficaram sem transporte e outro tanto que ficou parado nas ruas congestionadas, tanto faz. Pouco importa que o governador tenha colocado a culpa na ação de "um grupelho radical, com motivação político-eleitoral". O fato é que a cidade parou antes que o governo cedesse o aumento de 6,17% aos metroviários.
O que todo mundo quer saber é quem vai pagar pelos prejuízos que milhões de trabalhadores, estudantes, comerciantes e empresários, todos nós, enfim, tivemos durante as 12 horas de greve e caos na cidade.
Para evitar a paralisação, a Justiça do Trabalho impôs fortes restrições aos sindicatos. Ameaçou com multa diária de R$ 100 mil em caso de desobediência, e o governador achou que isto seria suficiente. Enganou-se, mais uma vez, já que o movimento teve a adesão de mais de 90% dos 8.600 pessoas que trabalham no Metrô.
Mesmo que o Ministério Público cobre esta multa dos sindicatos abrigados no conglomerado Conlutas, liderado por setores radicais do PSTU e do PSOL, como e quem vai dividir estes R$ 100 mil entre os milhões de prejudicados? Não dá nem para pagar uma folha de alface para cada um acalmar os nervos.
Desde a redemocratização do País, temos eleições de dois em dois anos. As eventuais greves no setor servem apenas para tornar ainda mais flagrante e dramática a falência do sistema público de transportes, com seus ônibus, trens e Metrô permanentemente superlotados, enfrentando problemas de manutenção e falta de investimentos.
Por isso é que o sonho de todo mundo é ter seu transporte particular. E o governo federal acaba de lançar novos incentivos para a compra de mais carros, que vão apenas aumentar os congestionamentos, multiplicando as horas perdidas por todos nós no trânsito, qualquer que seja o meio utilizado.
Não falo em causa própria. Ontem, passei a maior parte do dia trabalhando em casa e só acompanhando a confusão pela internet. Na contra-mão da maioria, em lugar de comprar carro novo, vendi o meu no ano passado. Pela primeira vez na vida, sou um sem-carro e não me queixo. Ando até menos nervoso.
É impossível, no entanto, ficar indiferente ao sofrimento de tantas pessoas que vi nos telejornais da noite, desesperadas por não conseguir chegar ao trabalho, com medo de perder não só o dia, mas o emprego. Até quando veremos estas cenas?
Belo primeiro ano do
Jornal da Record News
Com várias entradas ao vivo e depoimentos das vítimas da greve, mostrando como fica a cidade sem trens e Metrô, ouvindo todos os lados da história e procurando explicar o que aconteceu, o Jornal da Record News, onde eu também trabalho, como comentarista político, completou na noite de quarta-feira (23) um ano no ar, mais de 300 horas do melhor jornalismo produzido na televisão brasileira na minha modesta opinião.
Faço este registro não só pelo orgulho de trabalhar na equipe de Heródoto Barbeiro, o monge da notícia, mas por ter a oportunidade de participar de um projeto que realmente procura fugir dos padrões estabelecidos em nome da audiência para mostrar algo novo e útil aos telespectadores, na tentativa diária de ajudá-los a entender este louco mundo em que vivemos.
No JRN não tem assunto proibido nem obrigatório. Só vai ao ar aquilo que e equipe de jornalistas escolheu como o mais importante do dia, com absoluta independência editorial, compondo a bancada com comentaristas e entrevistados capazes de olhar além dos fatos do dia.
Ao lado do veterano Heródoto, que parece um garoto no novo programa, está a competente Andrea Beron, uma jovem que já parece veterana no domínio dos assuntos tratados.

O primeiro entrevistado da noite, depois da novela da CPI e suas cachoeiras, foi Audálio Dantas, um ícone do jornalismo brasileiro, falando sobre o momento delicado vivido pela imprensa brasileira, cujo trabalho nunca foi tão discutido e contestado. Acho que dificilmente Audálio encontraria outro espaço para falar ao vivo, em horário nobre, tudo o que pensa, com toda liberdade _ e este é o grande diferencial do JRN.
Da mesma forma, a colega Rosana Hermann, feliz da vida por fazer parte deste time, também pode falar tudo o que pensa sobre novas mídias e tecnologias, redes sociais e descobertas do mundo internético, assim como o professor Alexandre Uehara, especialista em relações internacionais, teve todo o tempo necessário para nos contar o que significam estas primeiras eleições livres no Egito.
Com 75 minutos de duração, o telejornal vai ao ar de segunda a sexta, às 9 da noite, mantendo a mesma característica: liberdade na escolha e no tratamento dos fatos a serem analisados, sem pressa, por quem entende do assunto, sem partidarismos nem preconceitos de qualqur espécie.
Para mim, a mais grata surpresa desta edição de primeiro aniversário foi a estupenda reportagem especial produzida por Adriana Bittar, nossa correspondente na África do Sul, que foi a Mali para mostrar a dura vida das famílias de garimpeiros nas minas de ouro.
Adriana começou a carreira comigo, quando eu dirigia o jornalismo do Canal 21 da TV Bandeirantes, no final do século passado. Tornou-se repórter e logo depois âncora (ao lado de Celso Zucatelli, hoje estrela da Record) do principal telejornal da emissora, e não parou mais de crescer na profissão.
Sua reportagem me fez lembrar das que fiz no lendário garimpo de Serra Pelada, ao longo dos anos 1980, com uma grande diferença: em Mali, vimos o trabalho degradante também de crianças e mulheres, cuja entrada era proibida no garimpo do sul do Pará, onde reinava um certo major Curió.
Em lugar de um destes ecochatos que infestam nossas emissoras de televisão, quem falou da Rio + 20 foi a atriz Beth Goulart, nossa comentarista de cultura. Para tratar de meio ambiente e sustentabilidade, tema da conferência que começa em poucos dias, nada melhor do que mostrar uma reportagem com cenas reais de projetos que já estão dando certo no Rio de Janeiro.
Para dar uma ideia da qualidade desta equipe, onde encontrei o melhor ambiente de trabalho em meus quase 50 anos de carreira, basta dizer que os comentaristas de medicina e saúde são os doutores Adib Jatene e David Uip. Aos 82 anos, firme na lida diária, Jatene ontem não fez seu comentário semanal: estava no hospital se recuperando de um pequeno infarto, e virou notícia.
Antes do número musical ao vivo que sempre encerra o telejornal, com novos e também consagrados nomes da música popular brasileira, o JRN ainda tratou de Olimpíadas, o grande acontecimento esportivo do ano, que será transmitido com exclusividade pela Record em televisão aberta, e dos cafezais urbanos de São Paulo.
Não dá para mudar de canal. Até me esqueci que já tinha começado o jogo do meu time...
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