essa ok Governo novo não entra e governo velho não sai

Tempos esquizofrênicos, estes que estamos vivendo, na transição entre o primeiro e o segundo mandatos de Dilma Rousseff. São duas realidades paralelas e opostas. Ao mesmo tempo em que Dilma anuncia, finalmente, nesta quinta-feira, sua nova equipe econômica, antecipada pelo Jornal da Record News na semana passada, com a missão prioritária de cortar gastos para acertar as contas públicas, do outro lado da praça dos Três Poderes arma-se um novo "trem da alegria" para aumentar os salários das excelências em geral, o que vai causar um aumento de pelo menos R$ 1 bilhão nas despesas, apenas com o Judiciário e o Ministério Público.

Enquanto o novo governo não entra e o governo velho não sai, nossos representantes no Congresso Nacional, com o apoio de todos os partidos, estão cuidando de garantir o deles, quaisquer que sejam as medidas amargas que venham a ser anunciadas no pacote do arrocho, que será inevitável.

O pretexto para a farra da festa do caqui que está sendo armada é o aumento dos salários dos ministros do Supremo Tribunal Federal e do procurador-geral da República, que passarão de R$ 29,4 mil para R$ 35,9 mil por mês, um módico reajuste de 22%, já aprovado ontem na Comissão de Finanças da Câmara.

Como este é o teto para o funcionalismo público em geral e serve de base para os demais poderes, as excelências já estão negociando também os aumentos do Executivo e do Legislativo, a começar pela presidente Dilma Rousseff, os ministros de Estado e os 594 deputados federais e senadores. A posse dos novos ministros e a definição da política econômica ainda vão ter que esperar um pouco, mas os parlamentares querem aprovar tudo o mais rápido possível para poderem entrar em 2015 já com seus contracheques mais gordos.

Entre as propostas em discussão, a mais provável de ser aprovada é a que equipara os salários da turma toda aos dos ministros do STF, o que representaria um aumento de 34% em relação ao último reajuste, concedido em 2012, que foi de 15%. Quem mais teve aumentos tão generosos nos últimos dois anos?

Com o popular efeito cascata que acompanha estes aumentos do andar de cima das excelências, pode-se imaginar quanto isto vai nos custar quando entrarem na conta os reajustes proporcionais que serão dados nas Câmaras Municipais e Assembleias Legislativas, tanto para os nobres parlamentares como para seus fiéis assessores.

De que adianta colocar um "Joaquim Mãos de Tesoura" no Ministério da Fazenda, se as torneiras do Tesouro Nacional continuarem jorrando para agradar aliados e garantir a dita governabilidade, que nos custa um preço cada vez maior a cada votação no Congresso Nacional, como estamos vendo ainda agora na discussão do projeto da manobra fiscal para o governo poder descumprir a meta do índice prometido para pagar os juros da dívida pública? Por mais ortodoxo e austero que possa ser, Joaquim Levy não é mágico.

Não resolve nada trocar os nomes dos ministros se as práticas continuarem as mesmas que nos levaram ao descontrole das contas públicas. Por mais ginástica que faça para agradar a gregos e troianos na montagem da nova equipe, acendendo uma vela a Deus e outra ao diabo, Dilma vai ter que definir desde já as regras do jogo, respondendo a uma questão bem simples: o que pode e o que não pode ser feito para que o governo não gaste mais do que arrecada? A base aliada e os apoiadores do governo na sociedade vão concordar?

Caso contrário, este novo ministério, tal como vem sendo anunciado, entregando-se o agronegócio para uma líder da UDR e a reforma agrária para um representante do MST, será foco de uma crise política permanente, alimentando assim a urubuzada da mídia, que ficou feliz da vida como pinto no lixo com a indicação de Joaquim Levy para a Fazenda, mas está só na espreita para voltar a atacar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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okok1 2014: o ano que não começou. E já está acabando

Vamos deixar para resolver tudo depois do Carnaval.

Só dá pra gente tratar desse assunto quando acabar a Copa do Mundo, se é que vai ter... Antes disso, é impossível decidir qualquer coisa.

Tem que esperar passar as eleições. Sei lá como as coisas vão ficar...

Só vou decidir o que fazer depois que a Dilma anunciar a nova equipe econômica.

Quem e quantas vezes não ouviu frases assim durante este 2014, o ano que está acabando antes mesmo de ter começado, ao tentar acertar um emprego, fechar um negócio, fazer uma viagem, terminar ou começar um namoro? Carnaval, Copa, Eleições, de evento em evento, o tempo foi passando, e nada acontecendo, o país parando, tudo sendo adiado (ver meu comentário no Jornal da Record News desta quarta-feira).

Resultado: chegamos ao final do ano com um crescimento próximo de 0% no PIB. Ou seja, é como se 2014, de tantas e tão fortes emoções, tivesse passado em branco, simplesmente não houvesse existido. Passaremos direto de 2013 para 2015, pulando um ano nas nossas vidas, que certamente não ficará nas nossas melhores lembranças.

O agora imortal Zuenir Ventura, meu bom e velho amigo de muitas jornadas, escreveu o já clássico 1968: o ano que não terminou. Poderia muito bem agora retomar o tema e escrever o contrário sobre "2014, o ano que não começou". Se ele não se interessar, podem ser também o Heródoto Barbeiro, o Lira Neto, o Laurentino Gomes ou qualquer outro destes jornalistas-escritores que se tornaram historiadores de sucesso. Fica a sugestão.

Falam muito da inanição do Congresso Nacional, mas na verdade o país inteiro, com exceção dos juízes, delegados e mídia aliada da Operação Lava Jato, está num recesso obsequioso desde agosto, quando foi dada a largada da campanha eleitoral.

Anunciado o resultado das eleições, esperava-se que a reeleita presidente Dilma Rousseff anunciasse logo, diante da delicada situação política e econômica vivida pelo país, as linhas centrais e os primeiros nomes do seu "novo governo, novas ideias" prometido durante toda a campanha. Afinal, ela sabia ao longo de todo este tempo que corria o risco de sair vencedora na disputa, apesar de todas as dificuldades enfrentadas.

As novidades e as definições que o país tanto esperava, no entanto, foram sendo adiadas. Primeiro, para após a folga presidencial pós-eleitoral, o que é muito justo, já que a presidente não é de ferro (até eu fiquei uns dias sem trabalhar...). Nada. Ficou para logo depois da viagem à Austrália em que a presidente participaria de importante reunião do G20. Até agora, nada.

Hoje, quarta-feira, 26 de novembro, completamos exatamente um mês do segundo turno da eleição que deu a vitória a Dilma, deixando um país dividido, em que só se fala em terceiro turno e juízo final, e alguns celerados já começaram a pregar o impeachment da presidente e um novo golpe militar. E o país continua parado, e Dilma em silêncio.

O novo prazo anunciado pelos jornais para acabar o mistério é amanhã ou, quem sabe, sexta-feira, ou sabe lá Deus quando. O fato é que nem o país nem a presidente podem esperar pela nova posse no dia 1º de janeiro. Dilma sabe disso, mas deve estar numa encruzilhada danada tentando conciliar no seu novo ministério a direita e a esquerda, os interesses do PT e os da base aliada, e ainda por cima acalmar o mercado e os movimentos sociais, cada vez mais indóceis, enquanto tenta fechar as contas da economia, que insistem em lhe trazer más notícias.

Não gostaria de estar na pele dela. Sei de todas as dificuldades enfrentadas pela presidente, mas o país tem pressa em encontrar um novo rumo, e ela sabia de todos estes desafios quando resolveu se candidatar à reeleição.

Agora, minha cara Dilma, não tem outro jeito: é pau na máquina e bola pra frente que atrás vem gente. E seja o que Deus quiser.

Vamos que vamos.

 

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tag reuters O dia em que fui a Roma e não falei com Francisco

ROMA _ Quarta-feira, 12 de novembro de 2014. Agora, no final da tarde, parou de chover e os turistas voltam a ocupar a Piazza Navona. É hora de tomar um cappuccino no Café Bernini e fazer minhas anotações de viagem.

Este é o dia da semana em que o papa Francisco, religiosamente às 10 da manhã, sempre aparece ao vivo na Praça São Pedro para a audiência pública. É a chance de poder ver de perto esta figura que, com sua simplicidade e simpatia, logo reconquistou os fiéis que andavam arredios com a igreja carrancuda de Bento 16.

Cheguei uma hora mais cedo para garantir um bom lugar. Será que ele vai me ver no meio desta gente toda? Já tem umas 10 mil pessoas amontoadas diante da Basílica de São Pedro, e não param de chegar mais peregrinos, vindos de todas as partes do mundo, circulando entre as mil colunas que circundam a praça.

O clima é de festa, apesar do céu plúmbeo e do chove-não-chove deste meio de outono em Roma. O vento frio bate cada vez mais forte e me faz buscar abrigo, enquanto o papa não vem. Sentado ao pé de uma coluna, vou me lembrando das várias semanas que passei aqui em 1978, quando era correspondente do Jornal do Brasil em Bonn, capital da então chamada Alemanha Ocidental (isto foi antes da queda do Muro, que reunificaria o país).

Naquele ano, acreditem, morreram dois papas. Primeiro, foi o Paulo 6º. Estava passando pela Itália, na volta para casa, depois de alguns dias de folga, em que aproveitei para levar a família a conhecer Portugal. Fomos de carro, mas folga é modo de dizer: assim que chegamos a Lisboa, estourou uma crise federal no governo português, que levaria à queda do gabinete do socialista Mario Soares poucos dias depois, e fui obrigado a voltar ao batente.

Com a ajuda do meu velho amigo Flávio Tavares, correspondente do concorrente Estadão, entrei de cabeça na cobertura e só reencontrava a mulher e as filhas tarde da noite no hotel. Finda a cobertura, pegamos a estrada e um dia resolvemos pernoitar em Turim. Ao acordar, encontrei a cidade deserta e silenciosa, e não era feriado nem fim de semana. Nas bancas de jornal, as manchetes davam o motivo: "O Papa morreu!".

Deixei a família em casa e voltei de avião a Roma para me encontrar com Araújo Neto, o eterno correspondente do Jornal do Brasil na Itália, um comunista que se especializou na política vaticana. Entre os funerais de Paulo 6º e o conclave que elegeu João Paulo 1º, foram semanas sem descanso, indo todos os dias à praça de São Pedro, onde agora já começa a movimentação para a entrada triunfal do papa Francisco.

Pouco mais de um mês depois da posse de João Paulo 1º, estava novamente em Bonn, com a família e as malas prontas para voltarmos ao Brasil, como acertei com o JB, por não suportar mais a saudade e o banzo longe do meu país e dos meus amigos da padaria da esquina.

De madrugada, toca o telefone: "Volta pra Roma que o papa morreu!". "De novo???", perguntei espantado, sem entender o que estava acontecendo. Sim, morreu outro papa, o pacato cardeal Luciani, nascido em Canale d´Agordo, vilarejo próximo a Veneza, que não tinha suportado o peso de ocupar o trono de São Pedro, como previra seu irmão Francesco numa longa entrevista que fiz com ele. Após uma dura discussão com os cardeais que mandavam lá, João Paulo 1º recolhera-se mais cedo aos seus aposentos, e não acordou no dia seguinte.

Com minha família abrigada no modesto Albergo Cèsare, perto da Fontana de Trevi, enquanto não saía da chaminé do Vaticano a fumaça branca anunciando a eleição de João Paulo 2º, o papa polonês, que ficaria por mais de duas décadas no trono, Araújo e eu tínhamos que mandar matérias todos os dias para o jornal, mas a vida não era tão dura assim. Na "Stampa Estera", a sala reservada aos jornalistas estrangeiros, tinha até garçon servindo vinho e cerveja. Quem nos abastecia de informações secretas e exclusivas era um cardeal brasileiro, meu velho amigo Paulo Evaristo Arns, que neste domingo agora comemora 69 anos de sacerdócio.

Quando finalmente vi Francisco nos quatro telões espalhados pela praça, na hora me lembrei de João Paulo 1º _ o mesmo jeitão de pároco do interior, acenando alegremente com ambas as mãos, bem ao contrário do seu antecessor, que mais parecia comandar um império, não uma igreja. Não fossem o manto e o solidéu brancos, o homem que ziguezagueava no papamóvel, desfilando entre o público, seria apenas mais um no meio daquela pequena multidão de fiéis, em boa parte crianças e idosos, agitando bandeirinhas das suas escolas e dos seus países. O cenário estava mais para uma alegre Disneylândia da fé do que para uma exibição de poder religioso.

Entre os peregrinos, destacavam-se três noivas vestidas a caráter, uma delas de botas e de xale, para enfrentar o frio. Músicas populares de vários países, com direito a Roberto Carlos e Cielito Lindo, animavam a plateia.

Como nos programas de auditório, auxiliares do papa vão anunciando em diferentes línguas a presença de comitivas de todos os continentes. Seis delas eram do Brasil. Tem de tudo: pessoas elegantes de chapéu e bem encasacadas, ao lado de jovens de bermuda e camiseta, todos caprichando nos selfies.

Lá vem ele, olha lá, cutucou-me a mulher, mas não teve jeito, a distância era grande. Assim passei o dia em que fui a Roma e não falei com Francisco, nem consegui tirar uma foto com ele. Fica para outra vez.

Vida que segue.

 

 

 

 

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okok Novo governo Dilma: afinal, quem ganhou e quem perdeu?

Na imagem, Joaquim Levy (ex-secretário do Tesouro Nacional) e a Senadora Kátia Abreu (Foto: Agência Brasil/Estadão Conteúdo)

Deve ter alguma coisa errada quando quem perdeu a eleição está feliz, aplaudindo, e quem ganhou ficou triste, vaiando. É o que está acontecendo agora com este anticlímax da montagem do novo governo Dilma, que para muitos apoiadores dela já nasceu velho.

Os de sempre já estão falando até em "estelionato eleitoral" porque a vencedora Dilma estaria montando o ministério no figurino do derrotado Aécio, e fazendo tudo ao contrário do que prometeu durante a campanha. Até a celestial Marina Silva reapareceu para descer a lenha em Dilma, enquanto o tucano sumia de cena.

A própria presidente reeleita ainda não confirmou nada. Faz mistério e só deve anunciar os nomes da equipe econômica na quinta-feira. Deve ter lá as suas explicações, claro, mas como até agora não as deu, no momento o ambiente político está mais para vaca estranhar bezerro e poste fazer xixi em cachorro. Quanto mais demorar, pior para ela.

A simples menção aos nomes do ortodoxo Joaquim Levy, do Bradesco, para a Fazenda, e da radical Kátia Abreu, da UDR e da CNA, para a Agricultura, já está provocando uma tremenda chiadeira na base aliada e, especialmente, nos movimentos sociais que foram mobilizados pelo PT na campanha eleitoral.

Só não entendo os motivos para tanta surpresa. A situação econômica do país exige mesmo mudanças estruturais, iniciativas ousadas, capazes de causar impacto. Se vão dar certo ou não, se vão ou não melhorar a governabilidade, é outro problema.

Em 2003, ao assumir pela primeira vez a presidência, Lula não nomeou Henrique Meirelles, do Banco de Boston, deputado federal então recém eleito pelo PSDB de Goiás, para o Banco Central? Não trouxe para o governo do PT os ministros Roberto Rodrigues e Luiz Furlan, que tinham acabado de fazer campanha para o tucano José Serra, e não colocou na Fazenda o médico sanitarista Antonio Palocci, ex-prefeito de Ribeirão Preto?

Vida que segue.

 

 

 

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oka Alô, CBF: é só entregar a seleção a Marcelo Oliveira

Está na cara de todo mundo, mas só a CBF não vê: depois do vexame da Copa do Mundo, o futebol brasileiro ganhou de presente uma base pronta para montar imediatamente uma nova seleção, com técnico e tudo.

Ou será que ninguém viu o que o Cruzeiro e seu treinador Marcelo Oliveira fizeram nestes últimos dois anos em que assumiram o domínio absoluto do nosso futebol, montando um time que hoje pode tranquilamente enfrentar o Bayern Munique, o Barcelona ou o Real Madri, jogando de igual para igual, sem medo de passar vergonha?

Será que ninguém ainda avisou aos dois presidentes da CBF, José Maria Marin e seu parceiro Marco Polo Del Nero, que Espanha e Alemanha, os dois últimos campeões mundiais, montaram suas seleções vitoriosas com base no Barcelona, em 2010, e no Bayern, em 2014?

okok1 Alô, CBF: é só entregar a seleção a Marcelo Oliveira

Não seria muito mais fácil, rápido e barato, do que mandar Dunga se humilhar em longa peregrinação pelos principais centros futebolísticos do mundo para aprender como se montam equipes vitoriosas, como se o Brasil fosse um mero aprendiz e não pentacampeão mundial do esporte mais popular da terra? Marcelo Oliveira já sabe como fazer, não precisa perguntar para ninguém.

Para quê? Para ficar promovendo testes intermináveis, com um catado de jogadores espalhados por aí, que mudam a cada jogo, a exemplo do que já fez Mano Menezes, que comandou a seleção brasileira antes de Felipão e chegou a convocar mais de 100 jogadores, sem conseguir montar um time?

A grande diferença é que Marcelo Oliveira Santos Uzai, 59 anos, mineiro de Pedro Leopoldo, é um técnico vencedor faz tempo, e o único time que Dunga, um treinador virgem de títulos, dirigiu na vida, depois da seleção brasileira, foi o Internacional de Porto Alegre, onde fracassou.

Em março de 2012, quando ainda era técnico do Coritiba, o sempre discreto Marcelo Oliveira já tinha sido considerado o melhor técnico do Brasil e o 14º do mundo pelo Institute of Football Coaching Statistics, que Marin e Del Nero nem devem conhecer. No ano seguinte, quando conquistou o primeiro título do Brasileirão pelo Cruzeiro, Marcelo foi eleito pela própria CBF o melhor técnico do campeonato.

A conquista do bicampeonato pelo Cruzeiro comandado por Marcelo Oliveira, neste último domingo, com duas rodadas de antecedência, ao derrotar o Goiás por 2 a 1, no mesmo Mineirão onde a seleção de Marin e Felipão sucumbiu, não aconteceu por acaso. O sucesso dele vem de longe, como dizia o velho Brizola, desde os tempos em que Marcelo Oliveira era atacante do Atlético Mineiro, jogando sob o comando do grande mestre Telê Santana, para mim o melhor técnico da história do futebol brasileiro. Teve com quem aprender.

Artilheiro, buscando sempre o gol, como os times dirigidos por ele, o jogador Marcelo Oliveira chegou à seleção e, depois de rodar por outros times, voltou a Minas para ser hexacampeão mineiro pelo Atlético, mesmo clube onde começou, nas equipes de base, sua carreira de treinador vitorioso.

De Minas, o técnico foi para o Paraná, onde levou o modesto time do Coritiba à final da Copa do Brasil e à disputa da Copa Sul-Americana, depois de se sagrar bicampeão estadual. Chegou a completar mais de 100 jogos pelo time, antes de despertar o interesse de Gilvan de Pinho Tavares, presidente do Cruzeiro, que ficou encantado com o futebol bonito e eficiente do Coritiba, e o levou de volta para Minas, no final de 2012.

Foi ali que o glorioso Cruzeiro de Tostão e Dirceu Lopes começou a se tornar novamente, de longe e de forma incontestável, o melhor time do futebol brasileiro. Ao contrário de Gilvan, porém, a CBF preferiu chamar, primeiro, Felipão, já com o prazo de validade vencido, para o lugar de Mano Menezes e, depois da Copa, reinventou o inacreditável Dunga como técnico da seleção brasileira, com a missão de viajar pelo mundo em busca de jogadores e de uma fórmula mágica para esquecermos os 7 a 1 que levamos da Alemanha.

Por que será? É simples explicar: em Dunga e no supervisor Gilmar Rinaldi, eles podem mandar, e colocar a seleção a serviço dos seus interesses e das suas vaidades, enquanto técnicos como Marcelo Oliveira e Muricy Ramalho, por exemplo, donos de caráter e personalidade fortes, jamais admitiriam interferência em seu trabalho. Exatamente por isso, Muricy já foi campeão brasileiro três vezes consecutivas pelo São Paulo, o segundo colocado na atual disputa, e Marcelo acaba de conquistar o bicampeonato com o Cruzeiro.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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ioopkosad 60 anos depois, cerco a Dilma lembra Getúlio

Se a presidente Dilma Rousseff já terminou de ler o último volume da trilogia de Lira Neto sobre Getúlio Vargas, editado pela Companhia das Letras, deve ter bons motivos para ficar preocupada nesta entressafra entre o seu primeiro e o segundo governo.

Talvez isso explique a indecisão dela para anunciar os integrantes da nova equipe econômica, como demonstrou a dança de nomes cogitados para o Ministério da Fazenda nesta semana que chega ao fim, mantendo o suspense no ar.

Era este o livro que a presidente carregava na mão ao descer do helicóptero no Alvorada, quando retornou a Brasília, depois de alguns dias de folga numa praia da Bahia, logo após sua vitória apertada na eleição de 26 outubro.

É neste terceiro volume que o brilhante jornalista cearense Lira Neto mostra o cerco formado por forças civis, militares e midiáticas contra Getúlio Vargas, que começou antes da sua posse, e botou fogo no país, na segunda metade do seu governo constitucional (1951-1954), levando-o a se matar com um tiro no peito.

Dilma não é Getúlio, eu sei, o Brasil e o mundo não são os mesmos de 60 anos atrás, mas há muitas circunstâncias e personagens bem semelhantes nestes distintos períodos da vida nacional.

Não por acaso, o nome de Carlos Lacerda, o comandante em chefe da guerra contra Getúlio, nunca foi tão lembrado numa campanha eleitoral como nesta última.

Pintado pelos adversários como "O Corvo", com muita propriedade, Lacerda ressuscitou nos discursos e nas manifestações contra a reeleição de Dilma Rousseff, durante e após a campanha de 2014, que mobilizou os setores mais conservadores do empresariado e da imprensa, a serviço de múltiplos interesses estrangeiros, exatamente como aconteceu na tragédia de 1954.

Não por acaso, também, um dos principais focos da campanha contra o então presidente da República era a Petrobras, por ele criada sob controle estatal, após longa batalha no Congresso Nacional.

O papel que era da UDN (União Democrática Nacional) de Carlos Lacerda foi agora alegremente assumido pela aliança da oposição liderada por PSDB-DEM-PPS, que trouxe de volta, com Aécio Neves, até o mote do "mar de lama", para atacar a presidente, o PT e a Petrobras, a bordo do discurso sobre o  "maior escândalo de corrupção da nossa história".

Extinta pela mesma ditadura militar-cívico-midiática de 1964, que ajudou a implantar, dez anos após a morte de Getúlio, a UDN voltou às ruas de São Paulo no último dia 15 de novembro, pedindo o impeachment de Dilma e a volta dos mesmos golpistas ao poder, empunhando as mesmas bandeiras de sempre, contra a corrupção e a inflação.

Foi neste dia comemorativo da Proclamação da República que, em Roma, no café Ponte e Parione, ao lado da Piazza Navona, terminei de ler o livro de Lira Neto e, embora tendo diante de mim algumas fas imagens mais bonitas do mundo, não conseguia deixar de pensar no que estava acontecendo no nosso Brasil naquele preciso momento. Passado e presente se confundiam na minha cabeça e confesso que fiquei deveras impressionado com tantas coincidências.

A grande diferença é que, agora, os militares estão recolhidos às suas tarefas constitucionais, e não dão o menor sinal de apoio aos Bolsonaros da vida, que reencarnaram Carlos Lacerda na avenida Paulista. Além disso, o país não está paralisado por greves orquestradas para encurralar Getúlio pela esquerda e pela direita. E, pelo menos até onde a minha vista alcança, não há tropas americanas se mobilizando para apoiar qualquer movimento contra a democracia que vigora forte em terras brasileiras.

A história costuma dar muitas voltas para voltar ao mesmo lugar, mas não precisa ter necessariamente os mesmos desfechos. Fiz algumas anotações sobre o que têm em comum estes momentos conturbados, separados por seis décadas:

* Os jornais O Globo e O Estado de S. Paulo, então alguns dos protagonistas da ofensiva da mídia armada contra Getúlio, continuam os mesmos, nas mãos das mesmas famílias, a desafiar o resultado das urnas e a vontade da maioria _ simplesmente, não aceitam mais um período do PT no Palácio do Planalto, completando, ao final do mandato de Dilma, 16 anos no poder.

* A TV Tupi, primeira e única emissora de televisão brasileira nos tempos de Getúlio, que abriu câmeras e microfones para Carlos Lacerda detonar o presidente e seu governo todas as noites, ao vivo, em horário nobre, teve o mesmo destino da UDN e fechou as portas faz tempo, mas os métodos dos Diários Associados de Assis Chateaubriand sobrevivem em outros veículos do grupo, como o jornal O Estado de Minas mostrou na campanha passada. Com maior ou menor sutileza, outras emissoras de TV, a começar pela toda poderosa Globo, que dominaram o mercado após o golpe de 1964, cumprem mais ou menos o mesmo papel nos governos petistas.

* A revista semanal Veja e seus escribas alucinados reproduzem os melhores momentos da Tribuna da Imprensa, criada e comandada por Lacerda, que foi o porta-voz oficial e amalgamou as forças reunidas para a derrubada de Vargas.

* A flácida base parlamentar montada por Getúlio em tudo lembra a de Dilma, embora ambos tivessem maioria no Congresso Nacional, balançando entre contemplar direita e esquerda em seus ministérios, para se equilibrar no centro, provocando assim sucessivas crises políticas e econômicas.

* O PT de Dilma e Lula, com todas as suas contradições e divisões internas, está cada vez mais parecido com o PTB de Getúlio, com o PMDB agora no lugar do velho PSD das oligarquias regionais.

A lista do que há em comum é grande, e eu poderia passar o resto do dia aqui escrevendo sobre isso. Antes de concluir este texto, porém, é necessário registrar outra grande diferença: ao contrário de Getúlio, que tinha a Última Hora, de Samuel Wainer, a seu lado, Dilma não conta com a boa vontade de nenhum veículo da grande imprensa para mostrar e defender as conquistas do seu governo, que também existem.

Dizem que a história só se repete como farsa, mas é bom Dilma tomar cuidado. Recomendo a leitura desta bela obra do Lira Neto, não para assustar ninguém, mas para vocês entenderem melhor o que está em jogo, agora como em 1954. Foi o que aconteceu comigo.

Que Dilma e nós tenhamos melhor sorte.

 

 

 

 

 

 

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"Kotscho, espero que tenha feito boa viagem. Quando voltar a postar, nos brinde com um relato de viagem, certo?".

O pedido acima é do leitor Cláudio Freire e me foi enviado nesta quinta-feira, às 13h14, mal havia entrado em casa após uma breve viagem à Itália. Bem que eu gostaria de atender à sugestão do leitor, mas, a esta altura, já tinham me pedido para escrever sobre a morte de Márcio Thomas Bastos (ver post anterior). Os fatos não marcam hora e costumam fugir do nosso controle, não deixam a gente mudar de assunto.

Minha pauta obrigatória hoje, dia 21 de novembro de 2014, seria escrever sobre a interminável novela da nomeação do novo ministro da Fazenda pela presidente reeleita Dilma Rousseff. Até já falei sobre isso na noite anterior no Jornal da Record News.

Logo ao abrir o jornal nesta manhã, porém, um assunto se impôs quando bati o olho no título "Nunca se roubou tão pouco", no alto da página A3 da Folha. De tudo o que se escreveu sobre o apocalítico cenário político-econômico vivido pelo país neste período pós-eleitoral, que em nada mudou nos meus dez dias de ausência, o artigo assinado pelo empresário Ricardo Semler faz a mais lúcida, honesta, precisa e equilibrada análise da situação que já li na nossa imprensa.

esse Nunca se roubou tão pouco, diz empresário tucano
Por isso, vou aqui abrir uma exceção. Não tenho por hábito reproduzir textos alheios, mas nada que eu escrevesse seria melhor e mais útil para os leitores para entenderem o que está acontecendo do que transcrever os dez primeiros parágrafos do artigo deste empreendedor brasileiro de 55 anos, sócio da Semco Partners, professor visitante da Harvard Law School e professor de MBA no MIT _ Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos. É autor do livro "Virando a própria mesa".

"Não sendo petista, e sim tucano, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país", diz a chamada em destaque no artigo.

Transcrevo:

"Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80, 90 e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito.

Não há no mundo dos negócios quem não saiba disso. Nem qualquer um dos 86 mil honrados funcionários que nada ganham com a bandalheira da cúpula.

Os porcentuais caíram, foi só isso que mudou. Até em Paris sabia-se dos "cochons des dix pour cent", os porquinhos que cobravam por fora sobre a totalidade da importação de barris de petróleo em décadas passadas.

Agora tem gente fazendo passeata pela volta dos militares ao poder e uma elite escandalizada com os desvios na Petrobras. Santa hipocrisia. Onde estavam os envergonhados do país nas décadas em que houve evasão de R$ 1 trilhão - cem vezes mais do que o caso Petrobras _ pelos empresários?

Virou moda fugir para Miami, mas é justamente a turma de Miami que compra lá com dinheiro sonegado daqui. Que fingimento é esse?

Vejo as pessoas vociferarem contra os nordestinos que garantiram a vitória da presidente Dilma Rousseff. Garantir renda para quem sempre foi preterido no desenvolvimento deveria ser motivo de princípio e de orgulho para um bom brasileiro. Tanto faz o partido.

Não sendo petista, e sim tucano, com ficha orgulhosamente assinada por Franco Montoro, Mário Covas, José Serra e FHC, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país.

É ingênuo quem acha que poderia ter acontecido com qualquer presidente. Com bandalheiras vastamente maiores, nunca a Polícia Federal teria tido autonomia para prender corruptos cujos tentáculos levam ao próprio governo.

Votei pelo fim de um longo ciclo do PT, porque Dilma e o partido dela enfiaram os pés pelas mãos em termos de postura, aceite do sistema corrupto e políticas econômicas.

Mas Dilma agora lidera a todos nós, e preside o país num momento de muito orgulho e esperança. Deixemos de ser hipócritas e reconheçamos que estamos a andar à frente, e velozmente, neste quesito".

Ricardo Semler dá números para comprovar a sua tese exposta no título do artigo: "A turma global que monitora a corrupção estima que 0,8% do PIB brasileiro é roubado. Esse número já foi de 3,1%, e estimam ter sido na casa dos 5% há poucas décadas. O roubo está caindo, mas como a represa da Cantareira, em São Paulo, está a desnudar o volume barrento".

Ligando um assunto a outro, pergunto: por que a presidente Dilma Rousseff não convida logo este empresário para o Ministério da Fazenda, em vez de alguém ligado aos rentistas, já que seu objetivo principal é acalmar e animar o "mercado"? Henrique Meirelles também não era tucano quando Lula o chamou para comandar o Banco Central?

Como acho isso meio difícil de acontecer, eu sei, recomendo vivamente a leitura deste artigo ao ministro Gilmar Mendes e a todos os colunistas da nova e da velha mídias que já decretaram ser este caso da Petrobras "o maior escândalo de corrupção da história do país", quiçá do mundo.

A leitura também faria bem aos empresários e herdeiros da elite paulista, que andam cochichando pelos cantos, chorando suas pitangas, em vez de irem à luta, como fazem, por exemplo, seus colegas nordestinos. O governo pode ser culpado por muita coisa, por quase tudo, menos pela incompetência alheia.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

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marcio21 Márcio 30 horas era o líder do até aprender

Marcio Thomas Bastos e Lula

Meu velho amigo e colega no governo Lula, Márcio Thomas Bastos era como esses bancos "30 horas" que nunca descansam. Dr. Márcio, como todos respeitosamente o chamavam, era incansável quando agarrava uma causa, e morreu como viveu: trabalhando, embora já estivesse há dias internado no Hospital Sírio-Libanês, tratando de um recorrente problema no pulmão. Em 2007,  ele fora obrigado a parar de fumar, mas nunca deixou de se atirar de cabeça e coração no trabalho.

Conheci-o assim, trabalhando muito, primeiro como advogado das campanhas presidenciais de Lula, desde 1989; depois, pude conviver diariamente com ele, já no governo do PT, em Brasília. Pensamos parecido sobre a vida e a política _ por isso, sempre nos demos muito bem.

Além da competência reconhecida, Márcio tinha bom humor, mesmo nas horas mais difíceis. Foi dele o batismo da nossa turma de assessores do então candidato Lula ao nos reencontrarmos na campanha de 2002, depois de três derrotas consecutivas nas campanhas presidenciais.

"Sabe como nós vamos ficar conhecidos, Kotscho? Como a turma do "até aprender", que não desiste nunca, até um dia ganhar..." Ganhamos naquele ano, e o Dr. Márcio teve um papel fundamental no governo, não só enfrentando e resolvendo crises, como evitando que elas acontecessem. Os problemas sempre saiam menores do que entravam no gabinete dele.

Por isso, fez tanta falta quando estourou o "Caso Larry Rohter", aquele correspondente do "News York Times" que escreveu um artigo leviano sobre o presidente da República (ver no texto do meu colega Nirlando Beirão). Enfurecidos com o teor do texto do jornalista americano, alguns colegas de governo quiseram vingar o presidente Lula, não renovando o passaporte de Rohter, para que ele fosse obrigado a deixar o país.

Fui voto vencido, e fiquei isolado nas discussões. Num primeiro momento, Lula ganhara a solidariedade de quase toda a mídia nacional e até de líderes da oposição. Com a reação, inverteram-se os papéis: Rohter virou vítima e, o governo, o vilão.

Sempre parceiro nestas horas duras, em que era preciso ter calma, o ministro estava numa viagem de trabalho na Suíça, e custou a voltar ao Brasil. No mesmo dia em que retornou a Brasília, uma sexta-feira, em poucas horas Márcio entrou em contato com o advogado de Larry Rohter e acertaram os termos de uma carta que daria o assunto por encerrado, evitando maiores prejuízos ao governo, aqui dentro e lá fora.

Como relato no meu livro de memórias "Do Golpe ao Planalto", da Companhia das Letras (entre as páginas 277 e 289), tive uma discussão com o presidente Lula sobre os rumos tomados pelo episódio:

_ Tudo bem, eu entendo que você queira sempre defender os jornalistas, é a tua profissão, mas a minha autoridade está sendo questionada.

_ Presidente, não estou defendendo a minha profissão. Minha única preocupação nesta história é defender o governo. Nós já estamos apanhando muito.

Dr. Márcio foi Dr. Márcio "30 horas" até o fim, e esta lição ele não aprendeu, como registra a nota "Na ativa" publicada por Mônica Bergamo, em sua coluna na Folha desta quinta-feira:

"O ex-ministro e advogado Márcio Thomas Bastos driblou os médicos e chamou advogados de sua equipe envolvidos na Operação Lava-Jato para despachar ontem no hospital Sírio-Libanês. Levou uma bronca da família".

Somos todos, meu caro amigo, infelizmente, mortais, embora teus colegas insistissem em te chamar de "God".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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ok1 Absurdo: Justiça condena agente só por cumprir a lei

A notícia: dada em primeira mão por Heródoto Barbeiro no Jornal da Record News, na terça-feira, relata o caso de Luciana Silva Tamburini, a bela agente de trânsito da Operação Lei Seca, no Rio, que estava trabalhando na blitz em que foi parado o carro do juiz João Carlos de Souza Corrêa, 18º JEC (Juizado Especial Criminal), em fevereiro de 2011. O ilustre magistrado estava sem documentos do carro, nem habilitação para dirigir, e deu voz de prisão à agente, que estava só cumprindo a lei.

O absurdo: esta semana, foi mantida pelo desembargador José Carlos Paes, da 14ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, a sentença de primeira instância, em que Luciana foi condenada a pagar multa de R$ 5 mil ao juiz Souza Corrêa, por "abuso de poder".

"Ao apregoar que o demandado era juiz, mas não Deus, a agente de trânsito zombou do cargo por ele ocupado, bem como do que a função representa na sociedade", justificou o doutor desembargador, ao manter em segunda instância a condenação da agente de trânsito. Que beleza, quanta meiguice!

Dois detalhes: Luciana ganha um salário mensal de R$ 3.600 e o carro do juiz circulava sem placas. Nada disso foi levado em conta pela nossa Justiça, sempre implacável ao julgar e condenar os mais fracos, em defesa dos mais fortes.

Quando viu que a agente não cedeu ao tradicional apelo do "sabe com quem esta falando?", o juiz Corrêa, do alto da sua autoridade, não teve dúvidas: mandou chamar a polícia para prender a agente, que recebeu voz de prisão por "desacato à autoridade". Ameaçada de ser algemada e levada no camburão ao 14º Distrito Policial, no Leblon, Luciana se recusou a cumprir a ordem dos policiais, mas foi à delegacia, e acabou condenada pela Justiça.

Nem tudo, porém, está perdido. Ao tomar conhecimento deste absurdo, na terça-feira a advogada paulista Flavia Penido criou uma vaquinha virtual na internet para ajudar Luciana Tamburini. Em menos de 24 horas, foram arrecadados R$ 11.600, afastando assim o risco dela ser presa por não ter condições de pagar a multa.

Em entrevista aos repórteres Mateus Campos e Julianna Granjeia, do jornal O Globo, a agente de trânsito disse que não se arrepende da sua atitude ao zelar pelo cumprimento da lei. E desabafou:

"No acordão, o desembargador reconhece que o magistrado estava sem habilitação e num carro sem placa. Mas afirma que, naquela situação, eu é que agi com abuso de autoridade. É revoltante. Eu não sou legisladora. Não estou ali para fazer a lei. Estou ali para cumpri-la, assim como todo mundo. Agora posso me prejudicar porque fiz o meu trabalho direito. Isto desmotiva (...) Aqueles que nos julgam têm muito mais poder do que as pessoas comuns. E parecem estar acima das leis que aplicam".

"O juiz queria que um tenente me desse voz de prisão, que me levasse para a delegacia. O tenente se recusou e o juiz ligou para uma viatura. Os PMs da viatura tentaram me algemar e disseram que ele queria que eu fosse para a delegacia. Respondi que ele queria, mas não era Deus. Eles saíram e informaram ao juiz o que eu havia dito. Ele começou a gritar e me deu voz de prisão, dizendo que eu era muito abusada. Fomos então para a delegacia".

"Alguém tem que fazer este trabalho. Se eu levo os carros dos mais humildes, por que não vou levar os dos mais abastados? (...) Eu trato todo mundo do mesmo jeito, independentemente de qualquer coisa. Eu trabalho do jeito certo e vou até o final".

É ou não é mesmo revoltante esta história? Se tem muitas autoridades no nosso país que nos envergonham, tem outras, como a agente de trânsito Luciana Silva Tamburini, que me dá orgulho de ser brasileiro.

Só não consigo entender uma coisa: vira e mexe, lemos nos jornais notícias sobre autoridades e celebridades em geral que são paradas e detidas pelos agentes da Operação Lei Seca no Rio de Janeiro. E é muito raro vermos isso acontecer em São Paulo. Por que será?

Quem souber a resposta, por favor, envie seu comentário aqui para o nosso Balaio.

Em tempo

É com muita alegria que comunico aos caros leitores: estou saindo neste final de semana para um curto período de férias na Europa, terra dos meus pais, aonde não vou há tempos. No dia 20, já estarei aqui de novo, de domingo a domingo.

Neste período, o blog ficará sem atualização nem moderação porque, afinal, ninguém é de ferro e também sou filho de Deus... Até a volta.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

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ok Eleição 2014 ainda não acabou e a de 2018 já começou

Dez dias após a reeleição de Dilma Rousseff, a campanha eleitoral de 2014 ainda não terminou, mas a de 2018 já começou. Com a renhida disputa do terceiro turno ainda ocupando as redes, as ruas e o Congresso Nacional, mal saímos de uma eleição e já temos três candidatos perfilados para a largada na próxima: Lula, Aécio e Marina.

No dia mesmo da vitória de Dilma, o presidente do PT, Rui Falcão, lançou a candidatura do ex-presidente Lula para a sucessão dela. Nos dias seguintes, Lula divulgou vídeos com análises sobre o Brasil e o cenário internacional, mostrando que está na área. E o partido colocou no seu Face um cartaz vermelho cheio de estrelas, resgatando a estética revolucionária dos anos 1960, com uma conclamação: "Militância, às armas!"

Aécio Neves voltou ao Senado nesta terça-feira, aclamado como grande líder da oposição, e disposto a garantir sua vaga na urna em 2018. Com discurso de campanha, como se tivesse vencido as eleições, convocou "um grande exército a favor do Brasil".

Marina Silva, por sua vez, avisou que está voltando a recolher assinaturas para criar o seu próprio partido, a Rede da Sustentabilidade, depois de ter se abrigado no PSB para disputar as últimas eleições. A líder ambientalista não quer ficar fora do noticiário, como aconteceu após a derrota em 2010. Em suas duas campanhas, Marina já detonou dois partidos, o PV e o PSB, e rachou a Rede, que ainda nem existe, ao apoiar Aécio no segundo turno, mas não vai desistir.

Se depender dos principais líderes do PSDB e do PT não teremos paz tão cedo. Os dois eternos adversários, agora inimigos juramentados, resolveram partir para uma guerra permanente. Os campos de batalha já foram definidos. O do PT, nas redes sociais: "Mantenha-se informado em nossos canais e arme-se com argumentos para rebater a ignorância nas redes e nas ruas" e, o do PSDB, no Congresso Nacional.

Claro que não é para levar ao pé da letra as proclamações de apelo militar feitas pelo PT e por Aécio. Certamente são apenas figuras de retórica empregadas neste momento para manter suas tropas unidas e fazer um chamamento à militância.

Os três pré-candidatos para 2018 têm cada qual motivos diferentes para se posicionar desde agora, antes mesmo da posse de Dilma no seu segundo mandato.

Mais do que ninguém, Lula sabe que o PT saiu bastante desgastado da eleição de 2014, apesar de Dilma ter sido reeleita. A onda de antipetismo alastrou-se pelo país, quase deu a vitória à oposição, e agora urge reformular o partido, uma operação que só ele mesmo pode comandar. Quanto antes começar, melhor para Lula e o PT, mas não para a presidente. Por isso, o ex-presidente já foi ontem mesmo acertar os ponteiros com Dilma na Granja do Torto.

Na primeira tentativa de voltar às ruas após a campanha, para defender a reforma política em contraponto à manifestação golpista da oposição do último sábado na avenida Paulista, as tropas da CUT e do MST, principais aliados do PT no movimento social, fracassaram. Sob forte chuva, apenas 200 militantes apareceram na mesma avenida Paulista, dez vezes menos do que as tropas comandadas por Lobão e o filho do Bolsonaro para pedir o impechment de Dilma e a volta dos militares.

Enquanto isso, o PSDB organizou no capricho a festa da volta de Aécio ao Senado, que teve direito até a fogos de artifício. Convocou funcionários e militantes, também cerca de 200 pessoas, que ocuparam um enorme espaço nos telejornais noturnos aos gritos de "Fora PT!" e "Aécio presidente!".

É verdade que terão de esperar pelo menos quatro anos para que isso aconteça, mas os tucanos deixaram claro que desta vez não estão para brincadeira. Empolgado com seu novo papel, Aécio prometeu fazer uma oposição sem tréguas ao segundo governo de Dilma Rousseff. Tem motivos para isso: embora saia da eleição com um arsenal de mais de 50 milhões de votos, o senador mineiro sabe que não pode se descuidar dos paulistas Geraldo Alckmin e José Serra, que ainda não desistiram de disputar a presidência da República, muito ao contrário.

Também já está em franca campanha, ainda não se sabe bem com qual finalidade, o líder da oposição no STF, Gilmar Mendes, que não perde uma oportunidade para atacar a presidente recém reeleita e seu partido. Na sessão desta terça-feira, em que o Tribunal Superior Eleitoral discutiu o pedido de auditoria nas urnas eletrônicas solicitado pelo PSDB, ao proferir seu voto, Mendes mandou bala, lembrando frases de Lula e Dilma durante a campanha. "Será que chegariam a fraudar as urnas?", deixou no ar a pergunta, sob aplausos de militantes tucanos que estavam no plenário com adesivos do PSDB.

Pelas últimas informações que chegam de Brasília, não corremos o menor risco das coisas melhorarem tão cedo: agora, a presidente reeleita só deve anunciar nomes e medidas do seu novo governo depois de voltar de viagem ao exterior para participar de uma reunião do G-20, na próxima semana. Até lá, o general Eduardo Cunha, do PMDB, comandante-em-chefe das fileiras anti-Dilma, com seu "blocão", agora conta com o apoio ostensivo de Aécio Neves e vai tomando conta da cena, para gáudio dos analistas políticos inconformados até agora com o resultado da eleição.

Calma, pessoal. É preciso ter muita paciência nesta hora para esperar a chegada de 2018 sem botar fogo no circo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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