"Kotscho, espero que tenha feito boa viagem. Quando voltar a postar, nos brinde com um relato de viagem, certo?".

O pedido acima é do leitor Cláudio Freire e me foi enviado nesta quinta-feira, às 13h14, mal havia entrado em casa após uma breve viagem à Itália. Bem que eu gostaria de atender à sugestão do leitor, mas, a esta altura, já tinham me pedido para escrever sobre a morte de Márcio Thomas Bastos (ver post anterior). Os fatos não marcam hora e costumam fugir do nosso controle, não deixam a gente mudar de assunto.

Minha pauta obrigatória hoje, dia 21 de novembro de 2014, seria escrever sobre a interminável novela da nomeação do novo ministro da Fazenda pela presidente reeleita Dilma Rousseff. Até já falei sobre isso na noite anterior no Jornal da Record News.

Logo ao abrir o jornal nesta manhã, porém, um assunto se impôs quando bati o olho no título "Nunca se roubou tão pouco", no alto da página A3 da Folha. De tudo o que se escreveu sobre o apocalítico cenário político-econômico vivido pelo país neste período pós-eleitoral, que em nada mudou nos meus dez dias de ausência, o artigo assinado pelo empresário Ricardo Semler faz a mais lúcida, honesta, precisa e equilibrada análise da situação que já li na nossa imprensa.

esse Nunca se roubou tão pouco, diz empresário tucano
Por isso, vou aqui abrir uma exceção. Não tenho por hábito reproduzir textos alheios, mas nada que eu escrevesse seria melhor e mais útil para os leitores para entenderem o que está acontecendo do que transcrever os dez primeiros parágrafos do artigo deste empreendedor brasileiro de 55 anos, sócio da Semco Partners, professor visitante da Harvard Law School e professor de MBA no MIT _ Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos. É autor do livro "Virando a própria mesa".

"Não sendo petista, e sim tucano, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país", diz a chamada em destaque no artigo.

Transcrevo:

"Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80, 90 e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito.

Não há no mundo dos negócios quem não saiba disso. Nem qualquer um dos 86 mil honrados funcionários que nada ganham com a bandalheira da cúpula.

Os porcentuais caíram, foi só isso que mudou. Até em Paris sabia-se dos "cochons des dix pour cent", os porquinhos que cobravam por fora sobre a totalidade da importação de barris de petróleo em décadas passadas.

Agora tem gente fazendo passeata pela volta dos militares ao poder e uma elite escandalizada com os desvios na Petrobras. Santa hipocrisia. Onde estavam os envergonhados do país nas décadas em que houve evasão de R$ 1 trilhão - cem vezes mais do que o caso Petrobras _ pelos empresários?

Virou moda fugir para Miami, mas é justamente a turma de Miami que compra lá com dinheiro sonegado daqui. Que fingimento é esse?

Vejo as pessoas vociferarem contra os nordestinos que garantiram a vitória da presidente Dilma Rousseff. Garantir renda para quem sempre foi preterido no desenvolvimento deveria ser motivo de princípio e de orgulho para um bom brasileiro. Tanto faz o partido.

Não sendo petista, e sim tucano, com ficha orgulhosamente assinada por Franco Montoro, Mário Covas, José Serra e FHC, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país.

É ingênuo quem acha que poderia ter acontecido com qualquer presidente. Com bandalheiras vastamente maiores, nunca a Polícia Federal teria tido autonomia para prender corruptos cujos tentáculos levam ao próprio governo.

Votei pelo fim de um longo ciclo do PT, porque Dilma e o partido dela enfiaram os pés pelas mãos em termos de postura, aceite do sistema corrupto e políticas econômicas.

Mas Dilma agora lidera a todos nós, e preside o país num momento de muito orgulho e esperança. Deixemos de ser hipócritas e reconheçamos que estamos a andar à frente, e velozmente, neste quesito".

Ricardo Semler dá números para comprovar a sua tese exposta no título do artigo: "A turma global que monitora a corrupção estima que 0,8% do PIB brasileiro é roubado. Esse número já foi de 3,1%, e estimam ter sido na casa dos 5% há poucas décadas. O roubo está caindo, mas como a represa da Cantareira, em São Paulo, está a desnudar o volume barrento".

Ligando um assunto a outro, pergunto: por que a presidente Dilma Rousseff não convida logo este empresário para o Ministério da Fazenda, em vez de alguém ligado aos rentistas, já que seu objetivo principal é acalmar e animar o "mercado"? Henrique Meirelles também não era tucano quando Lula o chamou para comandar o Banco Central?

Como acho isso meio difícil de acontecer, eu sei, recomendo vivamente a leitura deste artigo ao ministro Gilmar Mendes e a todos os colunistas da nova e da velha mídias que já decretaram ser este caso da Petrobras "o maior escândalo de corrupção da história do país", quiçá do mundo.

A leitura também faria bem aos empresários e herdeiros da elite paulista, que andam cochichando pelos cantos, chorando suas pitangas, em vez de irem à luta, como fazem, por exemplo, seus colegas nordestinos. O governo pode ser culpado por muita coisa, por quase tudo, menos pela incompetência alheia.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

marcio21 Márcio 30 horas era o líder do até aprender

Marcio Thomas Bastos e Lula

Meu velho amigo e colega no governo Lula, Márcio Thomas Bastos era como esses bancos "30 horas" que nunca descansam. Dr. Márcio, como todos respeitosamente o chamavam, era incansável quando agarrava uma causa, e morreu como viveu: trabalhando, embora já estivesse há dias internado no Hospital Sírio-Libanês, tratando de um recorrente problema no pulmão. Em 2007,  ele fora obrigado a parar de fumar, mas nunca deixou de se atirar de cabeça e coração no trabalho.

Conheci-o assim, trabalhando muito, primeiro como advogado das campanhas presidenciais de Lula, desde 1989; depois, pude conviver diariamente com ele, já no governo do PT, em Brasília. Pensamos parecido sobre a vida e a política _ por isso, sempre nos demos muito bem.

Além da competência reconhecida, Márcio tinha bom humor, mesmo nas horas mais difíceis. Foi dele o batismo da nossa turma de assessores do então candidato Lula ao nos reencontrarmos na campanha de 2002, depois de três derrotas consecutivas nas campanhas presidenciais.

"Sabe como nós vamos ficar conhecidos, Kotscho? Como a turma do "até aprender", que não desiste nunca, até um dia ganhar..." Ganhamos naquele ano, e o Dr. Márcio teve um papel fundamental no governo, não só enfrentando e resolvendo crises, como evitando que elas acontecessem. Os problemas sempre saiam menores do que entravam no gabinete dele.

Por isso, fez tanta falta quando estourou o "Caso Larry Rohter", aquele correspondente do "News York Times" que escreveu um artigo leviano sobre o presidente da República (ver no texto do meu colega Nirlando Beirão). Enfurecidos com o teor do texto do jornalista americano, alguns colegas de governo quiseram vingar o presidente Lula, não renovando o passaporte de Rohter, para que ele fosse obrigado a deixar o país.

Fui voto vencido, e fiquei isolado nas discussões. Num primeiro momento, Lula ganhara a solidariedade de quase toda a mídia nacional e até de líderes da oposição. Com a reação, inverteram-se os papéis: Rohter virou vítima e, o governo, o vilão.

Sempre parceiro nestas horas duras, em que era preciso ter calma, o ministro estava numa viagem de trabalho na Suíça, e custou a voltar ao Brasil. No mesmo dia em que retornou a Brasília, uma sexta-feira, em poucas horas Márcio entrou em contato com o advogado de Larry Rohter e acertaram os termos de uma carta que daria o assunto por encerrado, evitando maiores prejuízos ao governo, aqui dentro e lá fora.

Como relato no meu livro de memórias "Do Golpe ao Planalto", da Companhia das Letras (entre as páginas 277 e 289), tive uma discussão com o presidente Lula sobre os rumos tomados pelo episódio:

_ Tudo bem, eu entendo que você queira sempre defender os jornalistas, é a tua profissão, mas a minha autoridade está sendo questionada.

_ Presidente, não estou defendendo a minha profissão. Minha única preocupação nesta história é defender o governo. Nós já estamos apanhando muito.

Dr. Márcio foi Dr. Márcio "30 horas" até o fim, e esta lição ele não aprendeu, como registra a nota "Na ativa" publicada por Mônica Bergamo, em sua coluna na Folha desta quinta-feira:

"O ex-ministro e advogado Márcio Thomas Bastos driblou os médicos e chamou advogados de sua equipe envolvidos na Operação Lava-Jato para despachar ontem no hospital Sírio-Libanês. Levou uma bronca da família".

Somos todos, meu caro amigo, infelizmente, mortais, embora teus colegas insistissem em te chamar de "God".

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

ok1 Absurdo: Justiça condena agente só por cumprir a lei

A notícia: dada em primeira mão por Heródoto Barbeiro no Jornal da Record News, na terça-feira, relata o caso de Luciana Silva Tamburini, a bela agente de trânsito da Operação Lei Seca, no Rio, que estava trabalhando na blitz em que foi parado o carro do juiz João Carlos de Souza Corrêa, 18º JEC (Juizado Especial Criminal), em fevereiro de 2011. O ilustre magistrado estava sem documentos do carro, nem habilitação para dirigir, e deu voz de prisão à agente, que estava só cumprindo a lei.

O absurdo: esta semana, foi mantida pelo desembargador José Carlos Paes, da 14ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, a sentença de primeira instância, em que Luciana foi condenada a pagar multa de R$ 5 mil ao juiz Souza Corrêa, por "abuso de poder".

"Ao apregoar que o demandado era juiz, mas não Deus, a agente de trânsito zombou do cargo por ele ocupado, bem como do que a função representa na sociedade", justificou o doutor desembargador, ao manter em segunda instância a condenação da agente de trânsito. Que beleza, quanta meiguice!

Dois detalhes: Luciana ganha um salário mensal de R$ 3.600 e o carro do juiz circulava sem placas. Nada disso foi levado em conta pela nossa Justiça, sempre implacável ao julgar e condenar os mais fracos, em defesa dos mais fortes.

Quando viu que a agente não cedeu ao tradicional apelo do "sabe com quem esta falando?", o juiz Corrêa, do alto da sua autoridade, não teve dúvidas: mandou chamar a polícia para prender a agente, que recebeu voz de prisão por "desacato à autoridade". Ameaçada de ser algemada e levada no camburão ao 14º Distrito Policial, no Leblon, Luciana se recusou a cumprir a ordem dos policiais, mas foi à delegacia, e acabou condenada pela Justiça.

Nem tudo, porém, está perdido. Ao tomar conhecimento deste absurdo, na terça-feira a advogada paulista Flavia Penido criou uma vaquinha virtual na internet para ajudar Luciana Tamburini. Em menos de 24 horas, foram arrecadados R$ 11.600, afastando assim o risco dela ser presa por não ter condições de pagar a multa.

Em entrevista aos repórteres Mateus Campos e Julianna Granjeia, do jornal O Globo, a agente de trânsito disse que não se arrepende da sua atitude ao zelar pelo cumprimento da lei. E desabafou:

"No acordão, o desembargador reconhece que o magistrado estava sem habilitação e num carro sem placa. Mas afirma que, naquela situação, eu é que agi com abuso de autoridade. É revoltante. Eu não sou legisladora. Não estou ali para fazer a lei. Estou ali para cumpri-la, assim como todo mundo. Agora posso me prejudicar porque fiz o meu trabalho direito. Isto desmotiva (...) Aqueles que nos julgam têm muito mais poder do que as pessoas comuns. E parecem estar acima das leis que aplicam".

"O juiz queria que um tenente me desse voz de prisão, que me levasse para a delegacia. O tenente se recusou e o juiz ligou para uma viatura. Os PMs da viatura tentaram me algemar e disseram que ele queria que eu fosse para a delegacia. Respondi que ele queria, mas não era Deus. Eles saíram e informaram ao juiz o que eu havia dito. Ele começou a gritar e me deu voz de prisão, dizendo que eu era muito abusada. Fomos então para a delegacia".

"Alguém tem que fazer este trabalho. Se eu levo os carros dos mais humildes, por que não vou levar os dos mais abastados? (...) Eu trato todo mundo do mesmo jeito, independentemente de qualquer coisa. Eu trabalho do jeito certo e vou até o final".

É ou não é mesmo revoltante esta história? Se tem muitas autoridades no nosso país que nos envergonham, tem outras, como a agente de trânsito Luciana Silva Tamburini, que me dá orgulho de ser brasileiro.

Só não consigo entender uma coisa: vira e mexe, lemos nos jornais notícias sobre autoridades e celebridades em geral que são paradas e detidas pelos agentes da Operação Lei Seca no Rio de Janeiro. E é muito raro vermos isso acontecer em São Paulo. Por que será?

Quem souber a resposta, por favor, envie seu comentário aqui para o nosso Balaio.

Em tempo

É com muita alegria que comunico aos caros leitores: estou saindo neste final de semana para um curto período de férias na Europa, terra dos meus pais, aonde não vou há tempos. No dia 20, já estarei aqui de novo, de domingo a domingo.

Neste período, o blog ficará sem atualização nem moderação porque, afinal, ninguém é de ferro e também sou filho de Deus... Até a volta.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

ok Eleição 2014 ainda não acabou e a de 2018 já começou

Dez dias após a reeleição de Dilma Rousseff, a campanha eleitoral de 2014 ainda não terminou, mas a de 2018 já começou. Com a renhida disputa do terceiro turno ainda ocupando as redes, as ruas e o Congresso Nacional, mal saímos de uma eleição e já temos três candidatos perfilados para a largada na próxima: Lula, Aécio e Marina.

No dia mesmo da vitória de Dilma, o presidente do PT, Rui Falcão, lançou a candidatura do ex-presidente Lula para a sucessão dela. Nos dias seguintes, Lula divulgou vídeos com análises sobre o Brasil e o cenário internacional, mostrando que está na área. E o partido colocou no seu Face um cartaz vermelho cheio de estrelas, resgatando a estética revolucionária dos anos 1960, com uma conclamação: "Militância, às armas!"

Aécio Neves voltou ao Senado nesta terça-feira, aclamado como grande líder da oposição, e disposto a garantir sua vaga na urna em 2018. Com discurso de campanha, como se tivesse vencido as eleições, convocou "um grande exército a favor do Brasil".

Marina Silva, por sua vez, avisou que está voltando a recolher assinaturas para criar o seu próprio partido, a Rede da Sustentabilidade, depois de ter se abrigado no PSB para disputar as últimas eleições. A líder ambientalista não quer ficar fora do noticiário, como aconteceu após a derrota em 2010. Em suas duas campanhas, Marina já detonou dois partidos, o PV e o PSB, e rachou a Rede, que ainda nem existe, ao apoiar Aécio no segundo turno, mas não vai desistir.

Se depender dos principais líderes do PSDB e do PT não teremos paz tão cedo. Os dois eternos adversários, agora inimigos juramentados, resolveram partir para uma guerra permanente. Os campos de batalha já foram definidos. O do PT, nas redes sociais: "Mantenha-se informado em nossos canais e arme-se com argumentos para rebater a ignorância nas redes e nas ruas" e, o do PSDB, no Congresso Nacional.

Claro que não é para levar ao pé da letra as proclamações de apelo militar feitas pelo PT e por Aécio. Certamente são apenas figuras de retórica empregadas neste momento para manter suas tropas unidas e fazer um chamamento à militância.

Os três pré-candidatos para 2018 têm cada qual motivos diferentes para se posicionar desde agora, antes mesmo da posse de Dilma no seu segundo mandato.

Mais do que ninguém, Lula sabe que o PT saiu bastante desgastado da eleição de 2014, apesar de Dilma ter sido reeleita. A onda de antipetismo alastrou-se pelo país, quase deu a vitória à oposição, e agora urge reformular o partido, uma operação que só ele mesmo pode comandar. Quanto antes começar, melhor para Lula e o PT, mas não para a presidente. Por isso, o ex-presidente já foi ontem mesmo acertar os ponteiros com Dilma na Granja do Torto.

Na primeira tentativa de voltar às ruas após a campanha, para defender a reforma política em contraponto à manifestação golpista da oposição do último sábado na avenida Paulista, as tropas da CUT e do MST, principais aliados do PT no movimento social, fracassaram. Sob forte chuva, apenas 200 militantes apareceram na mesma avenida Paulista, dez vezes menos do que as tropas comandadas por Lobão e o filho do Bolsonaro para pedir o impechment de Dilma e a volta dos militares.

Enquanto isso, o PSDB organizou no capricho a festa da volta de Aécio ao Senado, que teve direito até a fogos de artifício. Convocou funcionários e militantes, também cerca de 200 pessoas, que ocuparam um enorme espaço nos telejornais noturnos aos gritos de "Fora PT!" e "Aécio presidente!".

É verdade que terão de esperar pelo menos quatro anos para que isso aconteça, mas os tucanos deixaram claro que desta vez não estão para brincadeira. Empolgado com seu novo papel, Aécio prometeu fazer uma oposição sem tréguas ao segundo governo de Dilma Rousseff. Tem motivos para isso: embora saia da eleição com um arsenal de mais de 50 milhões de votos, o senador mineiro sabe que não pode se descuidar dos paulistas Geraldo Alckmin e José Serra, que ainda não desistiram de disputar a presidência da República, muito ao contrário.

Também já está em franca campanha, ainda não se sabe bem com qual finalidade, o líder da oposição no STF, Gilmar Mendes, que não perde uma oportunidade para atacar a presidente recém reeleita e seu partido. Na sessão desta terça-feira, em que o Tribunal Superior Eleitoral discutiu o pedido de auditoria nas urnas eletrônicas solicitado pelo PSDB, ao proferir seu voto, Mendes mandou bala, lembrando frases de Lula e Dilma durante a campanha. "Será que chegariam a fraudar as urnas?", deixou no ar a pergunta, sob aplausos de militantes tucanos que estavam no plenário com adesivos do PSDB.

Pelas últimas informações que chegam de Brasília, não corremos o menor risco das coisas melhorarem tão cedo: agora, a presidente reeleita só deve anunciar nomes e medidas do seu novo governo depois de voltar de viagem ao exterior para participar de uma reunião do G-20, na próxima semana. Até lá, o general Eduardo Cunha, do PMDB, comandante-em-chefe das fileiras anti-Dilma, com seu "blocão", agora conta com o apoio ostensivo de Aécio Neves e vai tomando conta da cena, para gáudio dos analistas políticos inconformados até agora com o resultado da eleição.

Calma, pessoal. É preciso ter muita paciência nesta hora para esperar a chegada de 2018 sem botar fogo no circo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

0d667dea95ce24c00f158076790dd11c Contra golpistas, ato defende a reforma política

Na direção oposta aos golpistas do terceiro turno que desfilaram sábado seu rancor pela avenida Paulista, pregando o impeachment de Dilma e a volta dos militares, movimentos populares liderados pela CUT e pelo MST convocaram para esta terça-feira, às 18 horas, no mesmo local, um ato em defesa do Plebiscito Oficial pela Reforma Política.

A concentração foi marcada para o vão central do Masp, em frente ao Parque Trianon. No mesmo horário, outras manifestações estão marcadas em Pernambuco, Distrito Federal, Ceará, Minas Gerais e Paraíba.

Uma consulta popular promovida por mais de 400 organizações sociais entre os dias 1º e 7 setembro recolheu mais de 7,7 milhões de votos a favor de uma constituinte exclusiva para reformar o sistema político.

Os organizadores do movimento protocolaram na quinta-feira passada (30), na Câmara Federal, um decreto legislativo para convocar uma assembleia constituinte exclusiva para a reforma política. Nada disso você viu ou verá noticiado na grande imprensa familiar.

"Você é a favor de uma Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político?": esta é a questão central para que os eleitores respondam sim ou não no plebiscito popular.

Como já vimos nos primeiros movimentos pós-eleição na semana passada, se depender do Congresso Nacional, a reforma política não sairá nunca _ e, se vier apenas dos parlamentares, será ainda pior do que o sistema atualmente em vigor.

O PMDB, comandado na prática pelo atual presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves, e por Eduardo Cunha, líder do partido, que está em campanha para substituí-lo, já encaminhou à Comissão de Constituição e Justiça a Proposta de Emenda Constitucional 352/2013, que trata da reforma política.

A PEC 352 tem como principal objetivo despolitizar o país, manter o poder nas mãos do mesmo esquema de poder e transformar os partidos em meras quitandas eleitorais, mais do que já são.

Um exemplo disso é que se alinhou ao ministro Gilmar Mendes, do STF, sempre ele, a favor do financiamento de campanhas eleitorais por empresas privadas. Proposta da OAB, que defende o financiamento público e proíbe o financiamento privado, que está na raiz de todos os casos de corrupção que assolam o país há anos, já foi aprovada pela maioria dos ministros do STF, mas ainda não entrou em vigor porque Mendes pediu vistas, há mais de seis meses, e até hoje não devolveu o processo.

É isto que está em jogo neste momento: a pressão popular para produzir uma legítima reforma do sistema político-partidário-eleitoral, que seja do interesse de toda a sociedade, contra a judicialização da política e a politização do Judiciário, promovida pela bancada de Mendes no STF, em aliança com os setores mais retrógados do Congresso Nacional.

Eles não querem mudar coisa nenhuma porque, do jeito que está, é bom demais para eles, instrumento de controle fundamental para manterem o poder de fato, independentemente de quem seja o presidente da República eleito.

E o caro leitor do Balaio, o que pensa de tudo isso? É melhor deixarmos a reforma política nas mãos dos políticos, ou chegou a hora de sairmos novamente às ruas em defesa da democracia participativa que devolva o poder aos seus legítimos donos, ou seja, nós?

 

 

 

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

Está feia a coisa. Para onde olharmos, só vemos problemas, tanto na política como na economia. Podemos resumir a origem destes nossos desafios do momento a apenas dois: o governo, que acaba de ser reeleito, e a oposição, que não se conforma com a derrota. Após passar três belos dias no Fórum das Letras de Ouro Preto, em Minas Gerais, volto à vida real mais preocupado do que quando saí de São Paulo.

O que aconteceu, apenas uma semana após a reeleição da presidente Dilma Rousseff?

Há um clima pesado de conspiração, tanto no Congresso Nacional como nas ruas. Sabemos que muitos eleitores votaram em Dilma, menos pelas qualidades da presidente e de seu governo, e mais contra Aécio, para evitar a volta dos tucanos de FHC ao poder. Outros tantos votaram em Aécio contra Dilma, para tirar o PT de Lula do poder. Me arrisco até a dizer que estes eleitores foram a maioria. Talvez esteja aí a raiz das más notícias que assolam o país, mesmo depois de encerrada a guerra eleitoral.

Nas ruas, já se pede abertamente o impeachment da presidente e a volta dos militares _ ou seja, prega-se o golpe. No Congresso, com a faca nos dentes, parlamentares derrotados nas urnas formam frente suprapartidária para impor derrotas ao governo, comandada estranhamente por um deputado do principal partido da base aliada,  Eduardo Cunha (PMDB-RJ), já em campanha para ser presidente da Câmara.

okok Para voltarmos ao pré 64 só faltam os militares

"Impeachment Já!".

"SOS Forças Armadas".

"Impugnação ou intervenção militar".

"Fora ladrão do PT. Fora Dilma e Lula".

"Vai para Cuba!".

Em faixas, camisetas e gritos, estas foram as palavras de ordem que mobilizaram cerca de duas mil pessoas no "desfile cívico" do último sábado, na avenida Paulista, apenas seis dias depois do segundo turno e na véspera do dia de Finados.

Não é assustador? Marchas contra a corrupção e o comunismo (outras menores foram promovidas em mais 20 cidades brasileiras no mesmo dia) para pedir o impeachment da presidente recém reeleita: o que falta ainda neste roteiro macabro para voltarmos ao clima de pré-64, o golpe cívico-midiático-militar que derrubou João Goulart e afundou o país na sua mais longa e tenebrosa ditadura?

A grande diferença entre o que muitos de nós vivemos há 50 anos, quando a maioria dos manifestantes não havia nascido, e o que está acontecendo agora, é que os militares continuam recolhidos aos seus quarteis, em obsequioso silêncio, dedicados às suas tarefas constitucionais, sem dar ouvidos às vivandeiras udenistas redivivas.

Em compensação, temos agora o inacreditável ministro Gilmar Mendes, indicado por Fernando Henrique Cardoso, uma espécie de líder da oposição no Supremo Tribunal Federal, acenando com os perigos de uma "Corte Bolivariana", expressão que cunhou (sem trocadilho) para atacar o governo do PT, que poderá ter nomeado 10 dos 11 componentes do tribunal até o final do novo mandato, em 2016.

É tudo tão esquisito que, na ausência de Marina Silva, que sumiu, sua fiel escudeira Neca Setubal, pedagoga e uma das donas do Itaú, assumiu o papel de líder da oposição da terceira via: "E ainda falam no Luiz Carlos Trabuco para ministro da Fazenda!", queixou-se ela, ao falar do seu principal concorrente, o presidente do Bradesco.

Como já disse no Jornal da Record News, na quarta-feira passada, a derrota imposta ao governo pela Câmara, ao derrubar a proposta de criação dos conselhos populares, pode ter sido apenas a primeira de um movimento muito maior, que vem ganhando corpo no Congresso Nacional, para isolar o PT, e impedir a presidente de governar.

Este mesmo Eduardo Cunha citado acima, um remanescente da tropa de choque de Fernando Collor e principal desafeto de Dilma no primeiro mandato, já convocou para esta terça-feira uma reunião do seu  "blocão", formado, além do PMDB, por parlamentares do PTB, PR, PSC, Solidariedade e de partidos nanicos, que ele ajudou a eleger, para consolidar sua candidatura e acertar os próximos passos com o único objetivo de infernizar a vida do governo neste pouco tempo que resta da atual legislatura.

"Espera só para ver o próximo...", costumava brincar meu amigo Ulysses Guimarães, o "Sr. Diretas", principal líder da oposição à ditadura, quando lhe perguntavam se ele não achava o Congresso daquela época o pior que já tivemos. A profecia pode se repetir agora, ao analisarmos o novo Congresso que assume em fevereiro de 2015, com 28 partidos representados na Câmara, o que torna o país simplesmente ingovernável.

Enquanto isso, Dilma se retirava de cena para tirar alguns dias de folga numa praia da Bahia, o que é muito justo, mas deixa o país em suspense e só serve para alimentar o chamado "terceiro turno", com boatos e ameaças catastrofistas, para alegria das patéticas contrafações de Carlos Lacerda assumidas pelos veteranos da tropa de Blogs & Colunas, e dos jovens aloprados das redes sociais, que não aprenderam nada, na escola nem na vida, sobre o que foi 1964.

"Os brasileiros que viveram o período de 1964 têm o dever de alertar a sociedade para o lugar aonde querem nos levar, e que a triste experiência da ditadura militar não se repita nunca mais", escreve Celso Gualtieri, de Belo Horizonte, Minas Gerais, em carta publicada nesta segunda-feira no "Painel do Leitor" da Folha. Tem toda razão o leitor. É o que penso também.

Dilma Rousseff não pode alegar que foi reeleita há apenas uma semana para retardar indefinidamente o anúncio de nomes e medidas do novo governo, já que está no poder há quase 12 anos (oito como ministra e quatro como presidente da República). Não tem nada que esperar até a nova posse, em 1º de janeiro, para tranquilizar e devolver confiança e esperança ao país que lhe deu a vitória nas urnas.

Será que Dilma não pensou nisso antes, ou seja, no que deveria fazer imediatamente após a apuração dos votos, já que corria o sério risco de ser reeleita?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

Conto ao senhor é o que sei

e o que o senhor não sabe;

mas principal quero contar

é o que eu não sei se sei,

e que pode ser

que o senhor saiba

(Guimarães Rosa, em "Grande Sertão Veredas")

ouropreto Em Ouro Preto, tocam os sinos e o cão fica uivando

OURO PRETO (MG) _ Final da tarde de sexta-feira, hora da Ave Maria.

Da sacada do hotel, bem em frente à Igreja de Nossa Senhora do Rosário, vejo chegando a procissão para a missa das seis. Atrás dela, imponente, vem a banda, chamando o povo. Os sinos tocam freneticamente, para desespero de um vira-lata, perfilado do outro lado da rua, guardando seu dono, que a tudo assiste e ouve, impassível.

O cão fica uivando como um danado, acompanhando o bimbalhar dos sinos.  É uma relação sonora de causa e efeito tão direta e sincronizada como nunca havia visto antes. Algo que só Guimarães Rosa poderia nos explicar, se ainda estivesse entre nós.

Sem ele, fica muito mais difícil entender Minas Gerais.

Por acidente de percurso, viajei pouco este ano. Por razões do destino que desconheço, todas as cinco vezes em que saí de São Paulo vim para Minas. O que isso significa? Também não sei.

Estou nesta terra ao mesmo tempo misteriosa e bela, subindo e descendo escadas e ladeiras sem fim, para participar da 10ª edição do Fórum das Letras, como é chamada a feira do livro de Ouro Preto, que reúne jornalistas-escritores com estudantes e leitores.

É a terceira que vez que sou convidado e cada vez me encanto mais com o que ouço e vejo. Sob o comando de duas mulheres incríveis, Guiomar de Grammont e Marta Maia, o Fórum consegue reunir no mesmo lugar, todos juntos,  autores que dificilmente você consegue encontrar dando sopa por aí.

Este ano, já encontrei Lira Neto, o grande jornalista-historiador, best-seller da trilogia de Getúlio, Mario Prata, Audálio Dantas, Paulo Markun e Geneton Moraes Neto, entre muitos outros amigos famosos. Todos participamos de diversas mesas sobre jornalismo e literatura, tendo como tema central os 50 anos do golpe militar de 1964.

Nem sei se foi por culpa do tema, mas o fato é que  o Estado de Minas,  principal jornal do Estado e, de longe,  certamente, a  pior publicação editada nas capitais brasileiras, resolveu ignorar um dos mais respeitados eventos literários do país. Nos três dias em que estou aqui, só neste sábado o jornalão mineiro se dignou a dar a primeira matéria sobre o Fórum das Letras _ assim mesmo, para tratar apenas de dois autores estrangeiros.

Talvez isso ajude a entender porque o tucano Aécio Neves, por duas vezes governador do Estado, tenha perdido as eleições para presidente exatamente em Minas Gerais, ao contrário de Juscelino Kubitschek, o último mineiro eleito para o cargo (Itamar Franco só assumiu como vice do cassado Fernando Collor).

Correção: em comentário enviado às 4h36 de domingo, a leitora Katia Gerab Baggio, de Belo Horizonte, me corrige: "Lembro que Dilma nasceu em Belo Horizonte e só saiu de Minas quando já era uma jovem estudante de Economia da UFMG, sob perseguição das forças repressivas da ditadura militar. Apesar de ter se radicado no Rio Grande do Sul, não deixou de ser mineira".

Ainda bem que tenho bons e atentos leitores... Este erro, porém, não muda o que escrevi na sequência, mostrando as diferenças entre as campanhas de Aécio e Juscelino.

Em 1955, na direção oposta, JK teve votação insignificante em São Paulo e ganhou de lavada em Minas, o que lhe assegurou a vitória. Com todo o apoio da imprensa e dos institutos de pesquisa mineiros, que em safras eleitorais proliferam mais do que duplas sertanejas em Goiás, Aécio conquistou um latifúndio de votos em São Paulo, e pensou que nem precisava fazer campanha por estas bandas. Sairia daqui aclamado presidente com monumental vantagem de milhões de votos. Pois acabou perdendo em Minas e, por consequência, a presidência do Brasil. Aécio acreditou demais na sua própria propaganda, na imprensa servil e nas fantasiosas pesquisas mineiras.

Só o cão uivante não explica tudo, claro, mas serve para a gente refletir sobre estes segredos roseanos das terras e das gentes de Minas Gerais, e as relações de causa e efeito entre a imprensa, a mesma que apoiou alegremente o golpe cívico-militar de 1964, e a política dos dias atuais. Uma coisa pode ajudar a outra, mas também pode iludir, não dura para sempre.

Bom final de semana a todos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

lolo Exclusivo: Quem elegeu a Dilma foi o Lobão?

Juro que este é meu último comentário sobre as razões que levaram à reeleição de Dilma Rousseff. É minha contribuição para os analistas que ainda estão quebrando a cabeça para entender o que aconteceu no último domingo.

Como ninguém ainda pensou nisso, sugiro que se leve em conta também o "fator Lobão" _ o cantor, vejam bem, não o ministro.

Entusiasmado cabo eleitoral de Aécio Neves no meio artístico, algumas semanas antes da eleição, como vocês se recordam, Lobão anunciou que deixaria o país se Dilma fosse eleita. Teve gente nas redes sociais que até convocou uma festa de despedida para o cantor, no agora famoso aeroporto de Cláudio.

Ainda não se tem um levantamento científico sobre os votos dados a Dilma pelo eleitorado que queria aproveitar a chance para se livrar desta figura patética, meio quarta-feira, com aparência de doentinho fora da casinha, mas como a decisão aconteceu por estreitíssima margem de votos, sempre é bom levar em consideração todos os fatores possíveis de terem interferido no resultado, além da capa-panfleto daquela revista.

Pois não é que apenas algumas horas após a vitória de Dilma, feito um D. Pedro redivivo, Lobão voltou atrás e anunciou que, para o bem do povo, não irá mais embora do Brasil? Que poderemos fazer agora para que ele cumpra sua promessa, ou vamos ter que esperar quatro anos pela próxima eleição? Vamos ter que continuar vendo e ouvindo Lobão?

Sem paciência para tanto, já tem colunistas inconformados com o resultado discutindo os rumos do "terceiro turno", e alguns mais aloprados propondo abertamente o impeachment de Dilma, alegando que o país foi vítima da propaganda enganosa de Lobão.

Como os amigos podem reparar, estou urgentemente precisando de uma folguinha, depois deste verdadeiro massacre que foi acompanhar a campanha eleitoral. A partir de amanhã, vou dar também um descanso aos caros comentaristas do Balaio: estarei em Ouro Preto, Minas, para participar do tradicional Fórum das Letras, onde poderei tratar de outros assuntos mais amenos, além de reencontrar velhos amigos "feirantes", habitués destes eventos livrescos, que reúnem escritores e leitores e estão se espalhando como febre por todo o país, o que é muito bom.

A vida não pode ser feita só de política. É fundamental que a gente não perca o bom humor para não perder a fé.

Até a volta.

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

"A eleição presidencial mais parelha dos 125 anos de República deixa o país dividido entre os que produzem e pagam impostos e os beneficiários de programas sociais. O desenho esboçado no primeiro turno, com a divisão do país em dois grandes blocos, recebeu traços mais fortes: grosso modo, o Norte-Nordeste perfilado ao PT, o Sudeste-Sul-Centro/Oeste com a oposição. Fica evidente que o país que produz e paga impostos _ pesados, ressalte-se _ deseja o PT longe do Planalto, enquanto aquele Brasil cuja população se beneficia dos lautos programas sociais _ não só o Bolsa Família _ financiados pelos impostos, não quer mudanças em Brasília, por razões óbvias".

Engana-se quem atribuir a análise acima ao sociólogo Fernando Henrique Cardoso, na mesma linha da que o ex-presidente já havia feito ao final do primeiro turno das eleições presidenciais.

Desta vez, o pensamento único dos que dividem o Brasil entre quem produz e os vagabundos que vivem de bolsas está no editorial do jornal carioca O Globo, sob o título "A Mensagem das Urnas", publicado em sua edição desta terça-feira _ de resto, é o que está na raiz das manifestações racistas e preconceituosas contra os nordestinos que invadiram as redes sociais desde que foi anunciada a vitória de Dilma Rousseff na noite de domingo.

Grosso modo, como diria o jornal, os números finais divulgados pelo TSE desmentem esta teoria. Vamos a eles.

Quem assegurou a vitória do PT foram exatamente os eleitores do Sul e Sudeste, que deram 26,6 milhões dos votos totais obtidos por Dilma, ou seja, mais de 2 milhões de votos a mais do que os obtidos por ela no Norte e Nordeste, com 24,5 milhões de votos.

Ao contrário do que afirmam o editorial de "O Globo" e dez entre dez analistas da grande mídia, isto significa que Dilma recolheu 48,8% dos seus 54,5 milhões de votos na chamada região "rica e produtiva" do Sul e Sudeste, e 45% vieram do "pobre e dependente" eleitorado do Norte e Nordeste.

Quem diz e escreve o contrário, como se fosse a verdade absoluta das coisas, é porque não conhece o Brasil e se baseia nos mapas eleitorais produzidos nas eleições americanas, em que o candidato leva todos os votos dos delegados de Estados onde venceu as eleições.

Aqui não é assim. Nos mapas publicados pela imprensa brasileira, o Rio Grande do Sul, por exemplo, onde Aécio Neves venceu, aparece em azul, mas lá Dilma conseguiu 46,47% dos votos, quer dizer, quase a metade. No Rio de Janeiro, que aparece em vermelho no mapa, aconteceu o contrário: Dilma venceu, mas Aécio teve 45,06% dos votos.

Se prestassem mais atenção nos números do TSE, editorialistas, sociólogos e analistas perceberiam que não é o país que está dividido ao meio, geográfica e socialmente, mas apenas os votos dos partidos, que se espalharam por todos os Estados, com predominância de um ou outro candidato, dando na soma final a vitória a Dilma por uma diferença de apenas 3 milhões de votos.

Assim, não se pode afirmar que quem derrotou o candidato tucano foi o Nordeste, onde o PSDB sempre foi muito fraco e o PT é hegemônico. Mais justo seria buscar as razões da derrota de Aécio em Minas Gerais, Estado por ele governado durante oito anos, que agora aparece em vermelho no mapa. Era de lá que o PSDB planejava sair com uma vantagem de três milhões de votos, exatamente o que lhe faltou para vencer as eleições. E lá Aécio acabou ficando com 548 mil votos a menos do que Dilma. "Nem na pior projeção pensamos nesse resultado, após o Aécio sair do governo com 92% de aprovação", lamentou-se Marcus Pestana, presidente do PSDB mineiro.

Não é justo, portanto, colocar a culpa nos nordestinos.

Vida que segue.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes

dilma ok Mídia vai ao fundo do poço e sofre a 4ª derrota

2002, 2006, 2010, 2014.

Nas últimas quatro eleições presidenciais, a velha mídia familiar brasileira fez o diabo, vendeu a alma e foi ao fundo do poço para derrotar o PT de Lula e Dilma.

Perdeu todas.

Desta vez, perdeu também a compostura, a vergonha na cara e até o senso do ridículo.

Teve até herdeiro de jornalão paulista que deu uma de black bloc e foi sem máscara à passeata pró-Aécio em São Paulo, chamada de "Revolução da Cashmere" pela revista britânica "The Economist", carregando um cartaz com ofensas à Venezuela.

Antigamente, eles eram mais discretos, mas agora perderam a modéstia, assumiram o protagonismo.

Agora, não adianta rasgar as pregas das calças nem sapatear na avenida Faria Lima. "The game is over", como eles gostam de dizer em bom inglês.

Se bem que alguns já pregam o terceiro turno e pedem abertamente o impeachment da presidente reeleita Dilma Rousseff, que derrotou o candidato deles, o tucano Aécio Neves, por 51,6% a 48,4%. Endoidaram de vez. E não é para menos: ao final do segundo mandato de Dilma, o PT terá completado 16 anos no poder central, um recorde na nossa história republicana.

aecio Mídia vai ao fundo do poço e sofre a 4ª derrota

Só teremos nova eleição presidencial daqui a quatro anos. Até lá, terão que esperar no banco de reservas do poder os herdeiros dos barões de imprensa e seus sabujos amestrados, inconformados com o resultado das urnas, se é que vão sobreviver aos novos tempos da mídia democratizada. Cegados pela intolerância, ainda não se deram conta de que já nem elegem nem derrubam mais presidentes. Alguns ficaram parados em 1932 ou 1964, por aí. Vivem ainda em tempos passados, dos quais o Brasil contemporâneo não tem saudades. Devo-lhes informar que o país mudou, e não é mais o mesmo dos currais midiáticos de meia dúzia de famílias, hoje abrigadas no Instituto Millenium.

Diante da gravidade dos acontecimentos nas últimas 48 horas que antecederam a votação, a partir da publicação da capa-panfleto da revista "Veja", a última "bala de prata" do arsenal de infâmias midiáticas para mudar o rumo das eleições, não dá agora para simplesmente fingir que nada houve, virar a página e tocar a bola pra frente, como se isso fosse algo natural na disputa política. Não é.

Caso convoque uma rede nacional de rádio e televisão para anunciar os rumos, as mudanças e as primeiras medidas do seu novo governo _ o que se tornou um imperativo, e deve ocorrer o mais rápido possível, para restaurar a normalidade democrática no país ameaçada pelos pittbulls da imprensa _ a presidente Dilma terá que tocar neste assunto, que ficou de fora do seu pronunciamento após a vitória de domingo: a criação de um marco regulatório das comunicações.

No seu brilhante artigo "Dilma 7 X 1 Mentira", publicado pela Folha nesta segunda-feira, o xará Ricardo Melo foi ao ponto:

"Além do combate implacável à corrupção e de uma reforma política, a tarefa de democratizar os meios de informação, sem dúvida, está na ordem do dia. Sem intenção de censurar ou calar a liberdade de opinião de quem quer que seja. Mas para dar a todos oportunidades iguais de falar o que se pensa. Resta saber qual caminho Dilma Rousseff vai trilhar".

A presidente reeleita, com a força do voto, não precisa esperar a nova posse no dia 1º de janeiro de 2015. Pode, desde já, demitir e nomear quem ela quiser, propor as reformas que o país reclama, desarmando os profetas do caos e acabando com este clima pesado que se abateu sobre o país nas últimas semanas de campanha.

Pode também, por exemplo, anunciar logo quem será seu novo ministro da Fazenda e, imediatamente, reabrir o diálogo com os empresários e investidores nacionais e estrangeiros, que jogaram tudo na vitória do candidato de oposição, especulando na Bolsa e no dólar, e precisam agora voltar à vida real, já que eles não têm o hábito de rasgar dinheiro. Queiram ou não, o Brasil continua sendo um imenso mercado potencial para quem bota fé no seu taco e acredita na vitória do trabalho contra a usura.

O povo, mais uma vez, provou que não é bobo.

Valeu a luta, Dilma. Valeu a força, Lula.

Vida que segue.

Espalhe por aí:
  • RSS
  • Live
  • Twitter
  • Google Bookmarks
  • Digg
  • Facebook
  • Netvibes
Ir para a home do site
Todos os direitos reservados - 2009- Rádio e Televisão Record S/A
exceda.com