A política não precisa necessariamente ser feita de mau humor, nem se deve confundir cara feia com seriedade. O amigo que entrevistei hoje é um desses casos raros: em qualquer situação, está sempre de alto astral, capaz de brincar com suas próprias mancadas quando as coisas não vão bem.

Quando Lula foi eleito pela primeira vez, em 2002, e começou a anunciar os nomes dos seus ministros, fiz uma brincadeira com ele, que acabou saindo no jornal. "Começamos mal... Nosso presidente nomeou para o Ministério do Trabalho justo um baiano..."

Indicado para o Ministério do Trabalho, o carioca Jaques Wagner, que fez carreira de sindicalista e político na Bahia, ficou sabendo quem foi o autor da brincadeira, mas nem por isso deixou de ser meu amigo. Ao contrário, fiquei sabendo hoje que ele é leitor aqui do "Balaio" e aproveitei para fazer uma breve entrevista com ele.

Quem me ligou para colocá-lo na linha foi outra boa e velha amiga dos tempos em que o Jornal do Brasil era o Jornal do Brasil, o melhor do país, a repórter Sonia Carneiro.

Os dois estavam em Brasília para uma maratona de reuniões. Antes de falar com o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, Wagner conversou rapidamente com o "Balaio".

Como de costume, estava bem humorado, e demos boas risadas. Ao cumprimentar Minc, Wagner explicou porque hoje não poderia falar mal de ninguém: "É que hoje, para os judeus, é o Dia do Perdão... E eu e o ministro somos judeus..."

Vamos então ao ping-pong com o governador petista da Bahia, que está neste momento enfrentando uma saia-justa em Salvador, com dois candidatos da base aliada disputando o segundo turno (o atual prefeito, João Henrique, do PMDB, e Walter Pinheiro, do PT), mas não se abala com isso.

RK: Cada um está fazendo uma análise diferente de quem ganhou e de quem perdeu as eleições no domingo no país. Qual é a tua?

Wagner:  Quem ganhou foi o projeto político conduzido pelo presidente Lula, sem dúvida. Ocorre que dentro da ampla base aliada do governo temos vários partidos e muitos candidatos se apresentaram como sendo Lula desde criancinha. Cresceu mais quem já partiu de um patamar maior, é claro. Por isso, em números absolutos, quem cresceu mais foi o PMDB.

RK: Qual foi a marca destas eleições que a diferencia das outras de que você já participou?

Wagner: A taxa de contraditório em relação ao governo federal desta vez foi quase a zero.

RK: Como assim?

Wagner: Você viu alguém falando contra o presidente Lula e o governo federal nestas eleições? Então, isto nunca aconteceu antes. Mas isso não quer dizer que onde ele vai elege o candidato. Foi a Natal e não elegeu a nossa candidata (Fátima Bezerra, do PT). Em São Paulo, a Marta não ficou em primeiro lugar. Lula não pôde ir a Fortaleza e a Luizianne Lins se elegeu no primeiro turno. O que quero dizer com isso? Que eleição depende do potencial de cada candidato e do debate de projetos para as cidades, muito mais do que da questão nacional.

RK: Isso também aconteceu na Bahia?

Wagner: Olha, teve candidato que me falou que se eu fosse na cidade dele ele ganharia a eleição. Se fosse com o Lula então... As coisas não funcionam assim. Se o candidato tiver um por cento na pesquisa e a minha simples visita aumentar o índice dele em 60%, coisa que não existe, ele iria para 1,6%, certo?... Agora, se ele estiver em situação de empate técnico e eu for lá e disser que ele é o candidato do presidente Lula, tudo bem, acho que isso pode fazer ele ganhar.

RK: Agora todo mundo está comentando que você e o presidente Lula vão enfrentar uma saia-justa no segundo turno em Salvador com dois candidatos da base aliada, o Walter Pinheiro, do PT, e o João Henrique, do PMDB, apoiado pelo ministro Geddel Vieira Lima ...

Wagner: Não tem problema porque na Bahia todo mundo era Lula desde criancinha. Até o ACM Neto teve que pedir desculpas por ter xingado o presidente num discurso na Câmara, admitindo que foi um erro... Os partidos de oposição ao governo federal (PSDB, DEM e PPS) fizeram 50 prefeitos nos 417 municípios da Bahia. Nós tínhamos 25, fizemos 115, o PMDB fez 110. É falso dizer que agora haverá uma guerra entre o ministro Geddel e o Wagner na Bahia. Meu vice é do PMDB, somos todos da base do presidente Lula. É bobagem esse negócio de falar em 2010 agora. Eu não tenho ilusões: se meu governo chegar em 2010 como um avião, vai querer subir nele até quem eu não queira; se for uma carroça, nem os amigos vão querer vir comigo... Temos agora o desafio de administrar bem a campanha de dois aliados. Com isso, ganha a cidade, e nós dois não nos escangalhamos...  

 

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