O premiado ator e diretor Celso Frateschi, ex-secretário municipal da Cultura, que esta semana pediu seu boné de presidente da Funarte para voltar aos palcos da vida, é um apaixonado por seu trabalho, qualquer trabalho.

Para quem só entra de cabeça em tudo o que faz na vida, vez ou outra tomar uma trombada faz parte do jogo, como aconteceu na sua saída da Funarte esta semana, quando divergências internas acabaram saindo na imprensa e envenenando o ambiente.

O que aconteceu? Ninguém melhor do que ele mesmo pra responder a esta pergunta singela que muita gente do mundo da cultura está se fazendo neste momento.

"O dia ontem ainda fiquei muito ocupado em me defender dos golpes no ministério. Aí vai o que me passou pela cabeça quando a madrugada chegou", escreveu-me ele, na introdução da sua mensagem cheia de perguntas a si mesmo, em que explica as razões da sua saída da Funarte:

Caro Ricardo Kotscho

O mais triste de todo este processo é pensar na pergunta daquele cidadão que, como eu, mantém a esperança de um país mais justo e fraterno:

É nisso que vão se resumir os nossos sonhos?

Será que a história dará outra oportunidade como essa para mudarmos a história cultural de nosso país?

O presidente Lula nomeou Gilberto Gil, que trouxe a poesia para o ministério. Aqueles que não são poetas, não teriam que transformá-la em ações além da oratória?

Alguém tem o direito de desfocar nossas energias em assuntos tão mesquinhos como essas querelas de vaidade e poder?

Temos a possibilidade pelo Programa Mais Cultura de proporcionar a criação e fruição artísticas e culturais na quase totalidade do semi-árido brasileiro. São mais de mil municípios. Perderemos essa possibilidade porque a performance virou mais importante do que o ato?

O ministro Gil conseguiu emplacar a cultura no esfôrço nacional pelo crescimento e o presidente Lula sinaliza claramente com recursos para colocar o cidadão no centro desse programa. Um ano se passou, muito pouco foi feito. Perdemos um ano de recursos. Perderemos mais dois em reuniões exibicionistas?

Continuaremos presos aos mesmos mecanismos de financiamento e fomento à atividade cultural e enfrentaremos mais dois anos de debates e consultas públicas, desprezando os mecanismos de participação construídos pela gestão do ministro Gilberto Gil?

Será que a linguagem dos que administram a coisa pública não deveria ser a ação concreta?

O sonho acabou. Quem não dormiu no sleeping bag nem sequer sonhou?

Celso Frateschi

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