A coisa está feia, pessoal. Abri agora o computador e levei um susto com as manchetes sobre a crise mundial _ mundial mesmo, totalmente globalizada. Vocês são testemunhas de que evitei falar da crise da grana, até porque não entendo muito disso, mas agora não dá mais para tratar de outros assuntos.

Como sou meio lento de cabeça, nas últimas horas até eu percebi que esta deixou de ser uma preocupação só de quem tem dinheiro investido nas bolsas, dos grandes empresários de exportação, dos meus amigos do governo, dos analistas econômicos e especuladores em geral.

A crise está nas conversas dos motoristas de táxi, dos meus vizinhos no elevador, dos porteiros do prédio, na banca de jornal, no café da esquina. Não se fala mais de outra coisa. O que vai ser de nós?, querem todos saber.

Bem que o "Dr. Apocalipse", como é mais conhecido o economista americano Nouriel Roubini, vem cantando essa bola faz tempo, mas a realidade está provando que ele tinha razão: a grana vem derretendo no mundo todo, a cada dia a situação se agrava e, em consequência, ele agora já prevê uma depressão global.

O próprio Roubini, professor de Economia da Universidade de Nova York e ex-funcionário do Tesouro no governo Clinton, é um bom exemplo destes tempos de globalização, como nos mostra o colega Sérgio DÁvila, o homem da "Folha" em Washington, na entrevista que publicou hoje com "Dr. Apocalipse". Agora, todo mundo quer falar com ele para saber o que vai acontecer.

"Sotaque de mafioso de filme B de Hollywood _ filho de judeus iranianos, nasceu na Turquia, morou na Itália e vive em Nova York _ disse que toureava 300 pedidos de entrevistas que chegaram apenas naquele dia (anteontem, quando a entevista foi feita)", conta DÁvila.

O que "Dr. Apocalipse disse na parte que nos diz respeito, quer dizer, sobre o Brasil diante da crise mundial:

"Não existe descolamento completo (...) O país fortaleceu seus fundamentos financeiros nos últimos anos, mas também foi ajudado pelo ambiente global de grande crescimento, alta nos preços das commodities e baixa aversão a risco. Agora, terá que enfrentar o cenário oposto. Assim, o país não está sob risco de crise financeira como as de 1999 e 2002, mas as coisas podem ficar piores".

Sobre o presidente Lula e as medidas adotadas pelo governo brasileiro:

"Devemos dar crédito a ele. Quando chegou ao poder, temiam que fosse ceder às tentações populistas. Em vez disso, em questões de macroeconomia, austeridade fiscal e estabilidade financeira, fez o certo".

Para entender um pouco como chegamos a este ponto em que a inadimplência de compradores de imóveis nos Estados Unidos quebra bancos e seguradoras, dando início a um tsunami que hoje derrete as bolsas no mundo todo _ enquanto escrevo, aqui em São Paulo a Bolsa despenca e o dólar dispara de novo _ vale a pena dar uma olhada na coluna do Clóvis Rossi no mesmo jornal.

Ficamos sabendo ali que, apenas seis dias depois do governo americano socorrer a seguradora AIG com US$ 85 bilhões para evitar sua quebra, a empresa torrou US$ 443 mil numa esbórnia para sete executivos da empresa num resort da Califórnia.

"Estavam fazendo as unhas das mãos e dos pés, tratamentos faciais e massagens, enquanto o contribuinte paga a fatura", denunciou discursando no Congresso em Washington a deputada democrata Elijah Cummings.

O que uma coisa tem a ver com outra?, poderá me perguntar o leitor. Tem tudo a ver, como o veterano escriba Rossi, que também tem um pouco de "Dr. Apocalipse" já faz tempo, meu primeiro chefe e padrinho de casamento, escreve em sua coluna diretamente de Madri:

"O que essa prática revela é uma cultura torta, feita de hedonismo ao ponto extremo e de uma sensação já não de impunidade, mas de inimputabilidade.

Não há respeito não só pelo dinheiro público, mas pela própria empresa que lhes paga os salários (...), bônus, luxos. Claro que ganhar dinheiro não é feio, desde que honestamente".

O estrago está feito, mas enquanto eles continuam se divertindo, "Dr. Apocalipse só vê duas opções para o mundo onde habitam os simples mortais:

"Ou promovemos uma mudança radical no sistema financeiro para evitar o derretimento completo, que é a coisa certa a fazer, ou esse sistema sofrerá colapso nos Estados Unidos, na Europa e em outros países. E poderemos ter uma depressão global".

Na segunda hipótese, só nos resta apelar para o velho "salve-se quem puder!"

 

 

 

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