Mais uma vez tivemos uma semana agitada pelas prisões de gente poderosa pela Polícia Federal _ e mais uma vez terminamos a semana com todos os bacanas colocados em liberdade por decisão da Justiça.

Sem entrar no mérito das prisões e das libertações, já que não sou juiz nem promotor, o certo é que este prende-e-solta, que já virou rotina, causa um grande mal estar na população.

As pessoas comuns, que não estudaram o Código Penal, simplesmente não conseguem entender como a mesma lei é usada para prender ou soltar.

Há hoje uma sensação generalizada, a julgar pelos comentários enviados para este Balaio, de que a Justiça não é igual para todos e basta ter um bom advogado para escapar da punição nas instâncias superiores.

Por variadas razões saí esta semana da minha rotina aqui no Balaio. Passei por Porangaba, Rio de Janeiro e Itu, onde tratei de outros assuntos mais próximos da vida real, falando com e escevendo sobre pessoas que não estão na mídia, deixando de lado os personagens de sempre do noticiário político e policial, cada vez mais próximo um do outro.

No sábado, na festa de aniversário do poceiro (homem que abre poços), compositor e cantador Ico do Violão, que fez 74 anos, neto bastardo do ex-presidente Wenceslau Brás, conforme ele me confidenciou, tive mais uma prova de que nós, jornalistas, e nossos leitores vivemos em mundos diferentes. As pautas não batem.  

Chega uma hora em que é bom virar o disco porque os temas se repetem em todos os espaços de todas as mídias naquilo que chamei num dos posts da semana de pauta única _ em geral, tratando de coisas negativas que não fazem bem à alma e não têm relação direta com o dia a dia dos leitores.

Sei que muitos comentaristas aqui do Balaio sentem falta de temas mais polêmicos, querem ver sangue, como um deles escreveu, para alimentar o que Clóvis Rossi chama hoje na Folha de "dueto monocórdico", a eterna disputa entre petistas e tucanos.

Qualquer que seja o tema tratado, estabelece-se um clima de Fla-Flu em que um não quer nem saber as razões do outro, mas apenas reafirmar suas próprias convicções.

Há uma certa hipocrisia de todos nós nesta história, como comentei numa palestra no final dos anos 1990 quando dirigi o departamento de jornalismo de duas redes de televisão.

Discutia-se num debate promovido pela Revista Imprensa, no Rio, o baixo nível da nossa televisão, que procuraria apenas atender ao apetite da audiência sem se preocupar em utilizar o meio como instrumento para divulgar mais programas culturais e educativos.

Em qualquer pesquisa que se fizer, de fato, a maioria das pessoas vai criticar a baixaria da programação da televisão e pedir mais qualidade. Vai elogiar a TV Cultura e meter o pau no programa do Ratinho, que na época ainda estava na CNT, onde eu trabalhava.

Como explicar então que a TV Cultura de São Paulo tivesse tão baixa audiência, enquanto o meu amigo Ratinho a cada dia aumentava seus índices, que o levaram logo da CNT à Record e depois ao SBT, ganhando  salários cada vez maiores?, perguntei à platéia.

A mais baixa audiência do CNT Jornal, que eu dirigia, foi registrada quando dediquei a maior parte do tempo a um especial que mostrava a vida e a obra de Darcy Ribeiro, o grande educador brasileiro falecido naquele dia.

Tempos depois, bati meu recorde de audiência pessoal já em outra emissora, o Canal 21, da Rede Bandeirantes, ao passar horas ao vivo transmitindo tudo sobre a morte do cantor Leandro, da dupla Leandro e Leonardo.

O Brasil ainda se comove mais com a morte de um cantor sertanejo do que com a de um educador _ esta é a nossa realidade e somos todos hipócritas ao querer negá-la em nome do politicamente correto.

Mas isso não quer dizer que devamos nos render a esta realidade, aderindo à pauta única e desistindo de querer modificá-la, abrindo o leque para outros assuntos e outros personagens que não estão nas manchetes.

Podemos perder em audiência, mas certamente ficaremos mais gratificados com o nosso trabalho, dando a ele um sentido não apenas imediatista e comercial.

Senti isso quando li os comentários enviados para o post que conta a história do lavrador Zé Telles, o homem honesto que ficou doente com a desonestidade alheia.

A reação da maioria dos leitores, solidarizando-se com ele e lembrando que o Brasil é feito de milhões de Zé Telles, que não se conformam com a realidade do leve-vantagem-em-tudo, me anima a continuar dedicando a maior parte do meu tempo a este Balaio e a procurar boas histórias para contar.

Os números da semana

Como faço todos os domingos, publico abaixo o levantamento sobre os três assuntos mais comentados na semana em que o Balaio procurou sair da pauta única.

Balaio

Um homem honesto: 147

Jornal das crianças: 70

Futebol: 54

Folha

Senado: 75

Lula: 64

Educação: 45

Veja

Pedofilia: 53

Lya Luft: 19

Clodovil Hernandes: 17     

Em tempo 1:

recomendo aos leitores o comentário enviado por Samuel Sajob, às 14h09, um belíssimo texto inspirado na morte de um canário em meio ao incêndio. 

Serve ao mesmo tempo de alerta e de estímulo para aprendermos a separar aquilo que é realmente valoroso nas nossas vidas, que nem sempre percebemos, daquilo que é descartável, mas damos uma importância imensa.

Bom final de domingo.

 

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