De onde menos se espera é que não costuma sair nada mesmo. Ou então, pior ainda, vem confusão.

Bastaram 72 horas esta semana para a ministra Ideli Salvatti, nova articuladora (ou desarticuladora?) política do governo, provar o que eu comentei no Jornal da Record News no dia da sua indicação: escolheram a pessoa errada para o lugar errado.

Assim como elogiei a presidente Dilma pela lucidez e coragem na escolha solitária da senadora Gleisi Hoffmann para assumir a Casa Civil em lugar de Antonio Palocci, não consegui entender o que a levou a contrariar o bom senso para promover o troca-troca entre os ministros da Pesca e das Relações Institucionais.

Se foi só para provar que quem manda no governo é ela, fez muito mal. Contrariando a vontade de todo mundo na base aliada, a indicação de Ideli para cuidar da articulação política tinha tudo para dar errado. E deu.

Como um elefante bravo solto numa loja de cristais, a ex-senadora catarinense entrou logo no clima de barata voa que toma conta de Brasília e justificou o apelido que lhe deram de "fio desencapado".

Para desfazer o clima ruim na Câmara, onde não tem trânsito, e sua indicação para o cargo foi mal recebida, Ideli confirmou sua presença num almoço com os líderes aliados na terça-feira.

Na mesma hora, porém, foi chamada pela presidente Dilma para participar de um almoço com a bancada se senadores do PR no Palácio da Alvorada. Para desfazer o mal estar, teve que receber os aliados, ou melhor, os pedidos dos aliados famintos, no fim do dia, no Palácio do Planalto.

Depois, teve que esperar dois dias no sereno para ser recebida pelo presidente da Câmara, o petista gaúcho Marco Maia, que alegou "agenda cheia". Não pode haver sinal maior de desprestígio em Brasília do que uma ministra esperar tanto tempo para falar com Maia, o que só conseguiu ontem.

Antes que a quarta-feira terminasse, Ideli bateu de frente com outro aliado, o sempre cordato governador pernambucano Eduardo Campos, que dispensou a ajuda da ministra para marcar um encontro com a presidente Dilma, segundo relato de Renata Lo Prete, no Painel da "Folha":

"Com todo o respeito, a senhora sentou nesta cadeira agora. Nós somos governadores eleitos. Não precisamos de ajuda para falar com a presidente. Nós somos aliados! Não estamos aqui para chantagear o governo!".

A coisa está ficando feia. Ainda na quarta, Ideli foi escalada por Dilma para unir a base aliada e garantir a aprovação do sigilo das contas da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, um contrabando que entrou à última hora na Medida Provisória sobre contratações de obras para estes eventos. Deveria fazer o contrário: garantir a máxima transparência na divulgação destas despesas com dinheiro público.

Em outra ponta, a ministra Ideli, certamente com a concordância de Dilma, também cedeu à pressão dos ex-presidentes e senadores José Sarney e Fernando Collor, que querem manter o sigilo eterno para documentos oficiais. O PT já avisou que não concorda e vai votar contra o governo.

A confusão sobre o assunto é tão grande que até Lula entrou na roda para defender o fim do sigilo eterno dos arquivos, medida que no ano passado era defendida por Dilma, e não constava do texto original do projeto enviado pelo ex-presidente ao Congresso em 2009.

Daqui para a frente, não se poderá culpar mais ninguém. A única responsável pelas mudanças no ministério e os problemas de articulação política enfrentados pelo governo é agora a presidente Dilma Rousseff.

Em tempo:

às 13h38, alertado pelos leitores, retirei do texto original um trecho que considerei impróprio.

Ricardo Kotscho

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