Escreve o leitor J. Andrade, em comentário enviado ao Balaio às 19h45 de quarta-feira:

"(...) os anunciados índices ibopeanos de Dilma estão absolutamente na faixa do esperado. Outra coisa é o que vejo como uma sistemática supervalorização (talvez cacoete profissional?) da "superestrutura" da política (as intrigas de Brasília, as miudezas da disputa entre figuras da política), tudo apresentado como evidência do abismo próximo, do caos logo adiante, da "crise" do governo.

Diabos, melhor do que ninguém, você sabe que a verdadeira política, aquela que decide eleições, é a que acontece aqui embaixo, no mundo real, resulta do atendimento ou não das esperanças e das necessidades das pessoas comuns, e não da tricotagem de intrigas típica da aliança de interesses entre jornalistas e políticos.

Não tenho nenhum temor quanto ao governo Dilma e, aqui da planície dos homens comuns, não consigo enxergar qualquer dano à imagem do governo, não percebo nas pessoas nenhuma empatia com o que é oferecido pela mídia de cada dia (...).

Foi assim no governo Lula, será assim no governo Dilma".

Tem toda razão o leitor. Faço minhas as suas palavras. Aliás, quem me conhece há mais tempo sabe que já escrevi comentários muito semelhantes a esse desde que o blog entrou no ar, faz mais de três anos.

Na minha carreira toda de quase meio século, sempre dediquei muito mais tempo e espaço à vida real, citada pelo J. Andrade, do que aos gabinetes do poder.

Faz semanas que venho mesmo tentando mudar de assunto, virar o disco, como se dizia antigamente, mas os fatos não me deixam. Repórter é escravo dos fatos.

Como todo jornalista e toda empresa jornalística, também tenho time. A diferença é que o meu todo mundo sabe qual é, faz muito tempo. Nunca escondi de ninguém.

Quando o time joga bem, ótimo, fico feliz. Quando joga mal, tenho que escrever que o time está jogando mal, não posso fazer nada. Simples assim.

Ao contrário de muitos leitores, que desde o início do blog fazem dos comentários um eterno Fla-Flu, em que tudo é ótimo ou nada presta no governo do PT, tenho que contar as coisas como as coisas são, boas ou ruins.

Desde o final de semana, estava querendo escrever aqui um comentário sobre a coluna "Trabalhar em casa", do Walcyr Carrasco, publicada na última "Vejinha". Gosto muito do tema e do Walcyr, um cara que escreve simples, sem fazer pose, sobre fatos do cotidiano, com os quais os leitores facilmente se identificam, como foi o meu caso.

Também passei a trabalhar só em casa, desde o final de 2004, quando deixei a Secretaria de Imprensa do governo Lula e voltei para São Paulo.

Ao contrário do Walcyr, porém, que quase não sai de casa, agora que voltei a trabalhar numa grande redação, há três meses, no "Jornal da Record News", depois de uma quarentena de quase seis anos, estou gostando de me arrumar, botar uma roupa bonita e sair da toca para "ir ao serviço", ver gente nova, discutir pautas, conhecer artistas, reparar na mudança da paisagem urbana, descobrir outros cenários e personagens.

Para quem não leu a crônica do meu colega jornalista, um pouco mais novo, que ficou famoso como autor de novelas, reproduzo o primeiro parágrafo:

"Sempre me considerei privilegiado. Há anos trabalho em casa. Escrevo minhas crônicas, novelas e meus livros de pijama. Muitas vezes sem fazer a barba e de cabelos espetados, porque sou do tipo que odeia um pente. Levanto para tomar cafezinho, fofoco no telefone e depois varo a madrugada para recuperar o tempo perdido. Adoro. É muito mais confortável do que quando tinha emprego formal, onde era obrigado a comparecer todos os dias, cumprir horários e aguentar chefes mal-humorados. Sinto falta, sim, de fazer amigos no dia a dia. É mais solitário, mas sou louco pelo meu cantinho. Sou capaz de ficar dois, três dias sem pôr o pé na rua. Agora, com os filmes saindo em DVD tão depressa e com tantas lojas virtuais, saio casa vez menos".

Nos últimos anos, foi mais ou menos esta a minha rotina, com algumas diferenças: não gosto de falar no telefone, detesto fofocas, não preciso mais usar pente, por falta de matéria-prima, prefiro ver futebol a assistir a filmes na TV e quase todo final de tarde saía de casa para encontrar os amigos (este ano também comecei a fazer caminhadas e a frequentar a academia de ginástica pela manhã).

Como tudo na vida, trabalhar em casa tem vantagens e desvantagens.

home office ok Mudando de assunto: é bom só trabalhar em casa?

Vantagens: ser dono do seu tempo, não alugar tanto a orelha para chatos, não pegar trânsito e não correr o risco de ser atropelado, não ter crachá, preparar a própria comida, poder namorar a qualquer hora (minha mulher também trabalha em casa), etc.

Desvantagens: passar muito tempo no computador, engordar, sentir dor nas costas, ficar sem assunto novo, brigar mais com a mulher, enjoar das mesmas comidas, perder a beleza das novidades que só se vê nas ruas, etc.

É preciso pesar na balança os prós e os contras ao pensar nesta opção de vida, que cada vez mais gente está fazendo no mundo todo, por livre iniciativa ou necessidade. Mudaram radicalmente as relações de trabalho em todas as áreas nos últimos anos e precisamos nos adaptar a isso.

Acho que agora consegui o equilíbrio: juntar as vantagens de quem trabalha em casa, onde ainda cumpro boa parte dos meus compromissos profissionais, com as vantagens de quem convive com outros jornalistas.

Não existe uma receita que seja boa para todo mundo. Por isso, convido os leitores do Balaio a participar desta conversa, contando o que pensam do tema e quais são as suas expêriências de trabalhar em casa, as vantagens e desvantagens para cada um. Vamos nessa?

Ufa! Que bom poder passar um dia sem falar de crises, atropelamentos, demissões, sequestros, denúncias, prisões, pesquisas...

Tudo na vida é política, não tem como escapar, mas a política não pode ser tudo na vida, nem a mais importante.

A mais importante, como sempre ensina o sábio Oscar Niemeyer, é a própria vida.

Agradeço ao Walcyr Carrasco e ao leitor J. Andrade esta chance que me deram de mudar de assunto.

http://r7.com/V5U4