Nem pensava em escrever neste final de semana em que se comemora o Dia dos Pais. Ao contrário da maioria das pessoas, fico triste neste dia porque meu velho foi-se embora muito jovem e não gosto de ficar lembrando. Em 1960, ele iria completar 38 anos, e eu tinha 12.

Por isso, quase nunca falo dele nos meus livros e textos jornalísticos. Deve até ter gente desconfiada de que não tenho pai porque não gosto de falar nele para não lembrar da sua precoce partida.

Meus amigos costumam se referir aos pais como "meu velho", mas para mim não deu tempo. Ainda bem que pudemos conviver intensamente o pouco tempo que tivemos, como se já soubéssemos que não não duraria muito a parceria de pai e filho.

Embora sempre viajasse muito _ era engenheiro civil, tocava obras no interior _ quando estava em São Paulo me levava para todos os lugares junto com ele, até naqueles, como os bares da vida, em que não costumavam entrar crianças. Mais do que pai, foi um amigo-pai. A vida toda senti muita falta do amigo.

Foi no futebol que a gente mais se identificou, vestindo juntos a camisa do São Paulo, ainda durante o tempo da construção do Estádio do Morumbi. Com as obras do estádio, o clube tinha pouco dinheiro para o time.

Depois dos treinos, os jogadores voltavam para a concentração no Hotel São Paulo, no Vale do Anhangabaú, levados de carona nos carros de conselheiros e torcedores como meu pai, que todos chamavam de "seu" Nick. Para mim, claro, era uma festa poder conversar no carro com meus ídolos. A gente não perdia um treino, um jogo, ia a todos.

Meu pai tinha vindo da Europa para o para o Brasil depois da Segunda Guerra Mundial, em 1948, ano em que  nasci. Sou o primeiro brasileiro da família. Gostava muito de futebol e da farra com os amigos, o amigo-pai fazia da vida uma festa permanente. Não era de guardar dinheiro na poupança. Quando morreu, só deixou boas lembranças e algumas dívidas.

Por que estou escrevendo tudo isso sobre meu pai? Nem eu sei. Apenas hoje me deu uma saudade danada dele e senti vontade de prestar esta pequena homenagem. Pena que o pai não tenha tido tempo para ver a nossa pequena família se multiplicar, com seus netos e bisnetos, e se espalhar pelo Brasil que ele tanto adorava.

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