BARRETOS _ Como é bom poder passar três dias longe do mundo, sem abrir computador, ver televisão, ler jornal _viver sem notícias, enfim.

Em Barretos, a 425 quilômetros de São Paulo, onde fui fazer uma reportagem sobre a tradicional Festa do Peão de Boiadeiro, que terminou neste domingo, também chamada de "o maior rodeio do mundo" (já que não conheço todos os outros, não posso confirmar se é mesmo...), os assuntos eram outros.

Centenas de milhares de brasileiros e muitos estrangeiros vindos de toda parte, só queriam saber de festa. Dia e noite rolava por lá muito som sertanejo, cerveja e mulher bonita, sob muita poeira e um calor perto dos 40 graus. Ninguém reclamou de nada, nem das filas e congestionamentos.

Queria fazer uma reportagem sobre este Brasil que dá certo e se diverte longe das crises do Brasil oficial, dos gabinetes e dos plenários, mas logo no primeiro dia minha matéria mudou radicalmente de direção.

Conheci um brasileiro fantástico, o Henrique Prata, um pecuarista que só estudou até os que 15 anos, e se tornou o maior médico do Brasil sem ser médico, sem ser doutor e sem saber inglês.

A história é longa e será publicada inteira na edição de outubro da revista Brasileiros. Antes de voltar para São Paulo, só queria contar a vocês que é possível dedicar a própria vida a salvar a vida dos outros, tornar possível o impossível.

Basta conhecer o Hospital do Câncer de Barretos, o complexo da Fundação Pio XII, que abriga o maior e melhor centro de pesquisas e atendimento oncológico, tanto ambulatorial como cirúrgico do país, segundo pesquisa feita pelo próprio Ministério da Saúde, entre os mais de 7 mil hospitais públicos e privados.

Depois de passar um dia inteiro com Prata ouvindo a história de vida dele e a da sua família, e percorrer com o médico que não é médico a outra cidade médica que criou dentro da cidade de Barretos, município de apenas 112 mil habitantes, saí de lá com mais esperanças de que existem soluções para a saúde pública brasileira _ e não se trata só de aumentar os recursos, mas de saber aplicar direito com cuidado e conhecimento o dinheiro que temos.

A experiência de Henrique Prata já foi exportada para outras cidades e Estados com o objetivo de desafogar Barretos, que já não comporta atender os pacientes trazidos diariamente em mais de 300 ônibus e ambulâncias vindos de todo o país.

Para formar a mão de obra especializada necessária à implantação de novos hospitais, Prata investiu R$ 18 milhões de reais nos últimos quatro anos (R$ 10 milhões em recursos próprios e R$ 8 milhões financiados pelo BNDES, cujas prestações já começou a pagar).

Construiu uma Faculdade de Medicina, que é considerada modelo, a mais moderna e bem equipada do país. A obra ficou pronta há dois anos. Já tem até refrigerantes na geladeira da lanchonete, laboratórios com todos os equipamentos e materiais necessários, biblioteca totalmente informatizada, todos os professores contratados, mas até hoje a escola não está funcionando porque depende de uma autorização do Ministério da Educação.

Nada mais normal, claro, num país em que sobram médicos e o atendimento público à saúde é de excelência para toda a população, especialmente os mais pobres...

A festa? A Festa do Peão, que acompanhei num rancho de amigos, estava ótima, com chope gelado  e porco no rolete e tudo, mas nunca dá para a gente esquecer o Brasil Real que bate à nossa porta e nos espanta, mesmo quando se descobre que o país é capaz de produzir homens da qualidade de Henrique Prata.

Vale a pena o governo federal, que entra com recursos e faz parcerias com a Fundação Pio XII desde o governo Lula, conhecer melhor os trabalhos que já são feitos e os que poderiam ser feitos em Barretos e outras regiões do país quando a Faculdade de Medicina começar a funcionar.

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