Jaqueline Roriz TL Deputados estão brincando com a nossa paciência

Em sua defesa, Jaqueline Roriz conta com o espírito de corpo

Caros leitores,

viajo na tarde desta quarta-feira para Goiânia, onde vou fazer uma palestra à noite sobre "Mídia, Poder e Liberdade de Imprensa", no auditório da CUT. Volto amanhã.

Abraços,

Ricardo Kotscho

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Em tempo, às 20h23:

lamento informar, mas minha previsão estava certa: acabou agora a votação no plenário da Câmara dos Deputados, com a vitória a Jaqueline Roriz.

Foi um passeio, como se esperava ( o texto abaixo foi escrito ainda na manhã desta terça-feira).

A impunidade (não confundir com imunidade) parlamentar ganhou de goleada. Placar da vergonha: 265 votos contra e 166 a favor da cassação de Jaqueline Roriz que foi pega com a mão na botija no mensalão do DEM de Brasília.

Este é o melhor retrato do Congresso Nacional destes tristes tempos da política brasileira, que não se dá ao respeito.

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Parece brincadeira _ e é. Em Brasília, já está tudo preparado no plenário da Câmara dos Deputados para a absolvição da deputada federal Jaqueline Roriz (PMN-DF), flagrada num vídeo, em 2006, ao receber uma grana de Durval Barbosa, o delator do mensalão do DEM, que levou José Roberto Arruda, então governador de Brasília, para a cadeia.

Arruda já está solto e a filha de Joaquim Roriz, o lendário ex-governador de
Brasília que renunciou ao Senado, em 2007, para evitar a cassação,  não corre o risco nem de perder o mandato, segundo relato de Maria Clara Cabral, da sucursal da "Folha" em Brasília.

O motivo é simples: até por uma questão de preservação da espécie, as excelências jamais cassaram o mandato de um parlamentar acusado de qualquer crime praticado antes de assumir o mandato.

A Câmara criou sua própria jurisprudência de só julgar crimes futuros, não os passados. É uma beleza. O mandato vira uma garantia de impunidade.

Para o plenário cassar Jaqueline Roriz, como propõe o relator do Conselho de Ética, Carlos Sampaio (PSDB-SP), seriam necessários os votos de 257 dos 513 deputados federais.

Alguém acredita que isso possa acontecer, se uma boa parte deles também está com processos correndo na Justiça Eleitoral e/ou em outras instâncias do Judiciário, acusados de crimes diversos anteriores ao mandato?

A defesa de Jaqueline está baseada exatamente neste espírito de corpo: os advogados vão alegar que o precedente seria perigoso para todos os congressistas.

Pelo mesmo motivo, não acredito que um dia se fará uma reforma política de verdade, um tema que há décadas volta ao noticiário quando surge um escândalo novo.

Os nobres deputados nada farão que possa ser prejudicial às suas prerrogativas e privilégios. É mais fácil legislar em causa própria do que contra os próprios interesses.

A reforma política  depende dos políticos _ e, portanto, nunca virá, a não ser que os eleitores percam a paciência e resolvam pressionar os eleitos a criar vergonha na cara.

Como agora temos o instrumento democrático da internet, poderíamos começar a fazer isto hoje mesmo, mandando mensagens para os gabinetes das excelências, nem que seja só para dizer que estamos de olho.

A cada dia, o nosso Legislativo dá mais um passo para se desmoralizar perante a opinião pública, se é que isso ainda é possível, um perigo permanente para a nossa jovem democracia e a confiança nas instituições.

Está na hora de cada um de nós começar a fazer a sua parte _ e não só no dia das eleições.

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