Sai governo, entra governo, e é sempre a mesma história. Faltam recursos para a Saúde Pública. Na semana passada, na mesma votação em que vetou a volta da CPMF (0,1% de imposto sobre operações financeiras), a Câmara dos Deputados aprovou a destinação de 10% do orçamento federal para a área.

Os governos estaduais, com o apoio envergonhado do governo federal, defendem como única solução a criação de um novo imposto com outro nome, já que a CPMF virou uma sigla maldita desde que os recursos gerados tiveram sua destinação desvirtuada ainda no governo de Fernando Henrique Cardoso, que o criou.

A bola agora está com o Senado que, pelo jeito, também não vai querer queimar mais ainda seu filme criando um novo imposto. Enquanto isso, a população mais carente, que não tem plano de saúde privado _ ou seja, a maioria do povo brasileiro _ continua enfrentando filas para marcar consultas, exames, cirurgias, mal atendido e humilhado neste que é um direito básico da cidadania.

A conta nunca fecha. Médicos, enfermeiros e hospitais conveniados alegam que o SUS paga muito pouco. Os governos nos três níveis, por sua vez, alegam que gastam muito e não têm mais de onde tirar o dinheiro. A presidente Dilma Rousseff desafiou os deputados a indicar a fonte da receita para destinar mais recursos para a Saúde Pública. O impasse parece não ter fim.

Mas será mesmo que não tem jeito de melhorar o atendimento à população sem cobrar mais impostos desta mesma população?

Proponho aos nossos governantes e parlamentares que, antes de continuar nesta discussão bizantina, conheçam a experiência do complexo hospitalar de Barretos mantido pela Fundação Pio XII, uma parceria público-privada que deu certo, a 425 quilômetros de São Paulo. Não se preocupem: a cidade tem uma boa pista de pouso, onde descem até jatos da FAB.

Ao chegar a esta cidade, podem perguntar a qualquer um dos seus 112 mil habitantes onde fica o Hospital do Câncer de Barretos, que já ocupa boa parte da área urbana. No hospital, procurem por Henrique Duarte Prata, que não é médico, só estudou até os 15 anos, mas é quem toca este projeto vitorioso capaz de oferecer um tratamento médico de rico aos mais pobres, gastando menos e atendendo a mais pacientes do que os hospitais públicos.

Vou dar apenas um exemplo, com números que vocês poderão conferir.

No ano passado, o Hospital do Câncer de Barretos fez 1.270.000 procedimentos, recebendo R$9,5 milhões dos cofres públicos por meio do SUS. O hospital público Octavio Frias de Oliveira, do Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) gastou no mesmo período R$ 27 milhões por mês para fazer perto de 1 milhão de procedimentos.

Ou seja, para fazer 27% a menos, o governo de São Paulo gastou quase três vezes mais em dinheiro público. Os números foram informados por Henrique Prata ao ex-governador José Serra, que construiu o hospital do ICESP, durante jantar do qual participei, no final de agosto, na Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos. No Ministério da Saúde e depois no governo de São Paulo, Serra havia fornecido equipamentos para o complexo hospitalar comandado por Prata e os dois ficaram amigos.

Qual o milagre? Para começar, a participação da sociedade na construção e manuteção do Hospital do Câncer de Barretos. A despesa mensal total está em R$ 15 milhões. A diferença é coberta com o trabalho de Prata para buscar ajuda junto a empresas privadas e instituições como o SESI, além de promover shows beneficentes com os artistas mais populares do país, rifas, etc. No ICESP, é o Estado quem arca com todas as despesas.

A produtividade maior se deve à gestão adotada pelo pecuarista Henrique Prata, que aliou os ensinamentos de medicina humanizada do pai, o oncologista Paulo Prata, fundador do hospital, aos do avô Antenor Durte, pioneiro empreendedor do agronegócio na região, para comandar pessoalmente um batalhão de 500 médicos, que atendem a 20 mil novos pacientes por ano, vindos de todas as partes do país, em 300 ônibus, vans ou ambulâncias que chegam diariamente a Barretos.

Quando a hiperinflação do governo José Sarney, em 1988, quase levou o hospital à falência, os Prata venderam bens de família e Henrique foi buscar entre famílias abastadas da região os recursos necessários não só para pagar as dívidas, mas para colocar em pé o projeto de um fantástico complexo médico que só tem similar em grandes hospitais privados como Albert Einstein e Sírio-Libanês, em São Paulo.

No último dia 9 de julho, Prata inaugurou em Barretos o maior Centro de Pesquisa, Desenvolvimento e Treinamento da América Latina especializado em oncologia, outra parceria público-privada que contou com a presença de ministros da França e da Alemanha, mas nenhum representante do governo brasileiro.

Com recursos próprios (R$10 milhões) e financiamento do BNDES (R$ 8 milhões), que já começou a pagar, Prata construiu uma Faculdade de Medicina, que está pronta, com professores contratados, e permanece fechada há dois anos aguardando autorização para funcionamento.

Dá para perceber que o problema da Saúde Pública no Brasil não é só uma questão de grana, mas de competência na gestão e, principalmente, de credibilidade junto à sociedade para lhe pedir mais recursos?

Se não tiverem tempo para ir a Barretos e ver com seus próprios olhos, recomendo às autoridades públicas que convidem Henrique Prata para fazer uma visita aos palácios de Brasília para contar qual é o seu segredo.

Em último caso, podem ler a longa reportagem sobre a experiência de Barretos, com uma entrevista de Henrique Prata, que acabei de escrever hoje e será publicada na íntegra na  edição de outubro da revista "Brasileiros".

Solução tem! É só buscar em Barretos.

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