Tem certos lugares aonde vamos uma vez na vida e não esquecemos. Ou porque gostamos da cidade ou porque vivemos lá uma experiência marcante. No meu caso com Guadalajara, aconteceram as duas coisas.

A primeira e última vez que estive lá foi na cobertura da Copa do Mundo de 1986, integrando a equipe da  "Folha", aquela em que o Brasil foi eliminado nos pênaltis pela França.

Se do futebol da seleção não guardei boas lembranças, da cidade só posso falar bem. Ao contrário da Cidade do México, mais poluída e congestionada do que São Paulo, Guadalajara é toda arborizada, moderna, espalhada ao longo de avenidas largas, com um povo hospitaleiro.

Como minhas recordações são de 25 anos atrás, não sei se continua assim. Pelos relatos dos colegas da Record que lá estão, minha Guadalajara continua sendo um bom lugar do mundo.

Pode-se passar lá uma temporada bem agradável, desde que se tome o cuidado de ficar longe das pimentas e não tomar água de torneira. O "mal de Montezuma" que ataca os intestinos pode até matar, como provei na própria pele ao passar uma noite inteira no banheiro.

Daqui a pouco, ou "a la horita", como costumam dizer os mexicanos, teremos nesta cidade a festa de abertura dos Jogos Pan-Americanos.

Algumas coisas com certeza não mudaram, a exemplo dos sustos que a natureza procura aplicar no México. Em 1986, poucas semanas antes do início da Copa do Mundo, o país foi chacoalhado por um terremoto. Agora, o que ameaça a cerimônia de abertura é o ciclone Jova, com ventos fortes, chuva e temperatura caindo.

Entre a Copa e o Pan que começa nesta sexta-feira, a vida dos jornalistas melhorou muito. Em nenhuma outra área houve neste período uma evolução tão grande como nas telecomunicações.

Para se ter uma ideia, nos conectávamos com a redação apenas por telex e telefone fixo, até para transmitir fotos. Notebook e celular eram sonhos (não sei dizer se para todo mundo, mas para nós, brasileiros, eram) distantes.

Recorro mais uma vez ao meu livro de memórias _ Do Golpe ao Planalto _ uma vida de repórter, Companhia das Letras _ para lembrar destes tempos heróicos da nossa imprensa.

"Um dia, a operadora do telex público, em vez de discar o código de São Paulo, discou o do Rio, e todas as nossas matérias foram parar na empresa T. Janer, que certamente estranhou a cortesia de receber as informações sobre o Brasil na Copa antes dos leitores do jornal", que ficaram a ver navios.

O trabalho de um dia inteiro foi perdido. Como saímos despreocupados para jantar _ e não havia celular _ só no dia seguinte ficamos sabendo do que acontecera.

Os melhores momentos para nossa brava equipe que acompanhava o Brasil em Guadalajara  _ só o repórter Carlos Brickmann e o fotógrafo Jorge Araújo, além de mim _ estavam reservados para depois dos jogos e não quando a seleção estava em campo, como conto na página 142:

"Nessa Copa, ao contrário do que ocorrera na Espanha em 1982, quando tinha jogado um futebol brilhante, o Brasil suava para se manter vivo. O técnico era o mesmo (Telê Santana), muitos dos craques também (Sócrates, Falcão, Zico), mas o futebol deles (quatro anos mais velhos) já não empolgava a torcida.

O bom era descobrir onde, depois do jogo, Sócrates e o técnico Rubens Minelli, um especialista no assunto, comandariam o churrasco. Sem a forma física da turma de Sócrates para tomar cerveja, eu era sempre o primeiro a ir embora, o que me valeu algumas vaias".

_ Preciso ir, tem treino amanhã cedo _ eu procurava justificar.

_ Mas quem vai treinar somos nós, não você... _ resmungava Sócrates.

Após a nossa eliminação nos penâltis, cruzei com Telê Santana já deixando o estádio Jalisco. Ele tinha acabado de dar uma entrevista coletiva e fez um gesto brusco para me dispensar.

_ Calma, Telê, só queria te dar um abraço. Vou te perguntar o quê, a esta altura?

O técnico abriu um sorriso, me agradeceu e subiu para o ônibus. Sete anos depois, nas voltas que o mundo dá, Telê conquistaria o bicampeonato mundial de clubes pelo meu São Paulo.

Depois de quase um mês em Guadalajara, era hora de voltar para casa, já que o Brasil ficou de fora da grande final na Cidade do México. Espero que nossos atletas inscritos nestes Jogos Pan-Americanos tenham agora mais sucesso na bela Guadalajara.

Boa sorte, moçada!

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"Controle familiar da mídia"

A leitora Ana Paula Longo me escreve estranhando o estrondoso silêncio da Globo, da Bandeirantes ( "o canal do esporte") e das outras emissoras sobre o Pan que começa amanhã.

É como se o Brasil tivesse ficado fora da competição e não esteja representado por mais de 500 atletas no México.

Nestas horas me pergunto: liberdade de imprensa para quê, para quem?

Só porque a Rede Record conseguiu a exclusividade das transmissões destes Jogos, isso não impede que os concorrentes façam a cobertura do evento, assim como acontece com as Copas do Mundo e os campeonatos com direitos vendidos para uma única emissora.

Por coincidência, meu bom e velho amigo Carlos Brickmann, já citado acima na cobertura da Copa do México de 1986, escreve hoje em sua coluna sobre os perigos do "controle social da mídia".

Brickmann cita os recentes ataques de protagonismo anacrônico da ministra Iriny Lopes, da Secretaria da Mulher, querendo dar pitacos em anúncios de calcinhas na televisão, programas humorísticos e até em enredos de novela, como exemplos do que seria o tal "controle social" na prática.

Não vamos exagerar. A ministra, de fato, foi além das chinelas, como se dizia nos tempos em que o prezado colega começou a trabalhar em jornal, mas esta é apenas mais uma bobagem do esquerdismo tardio, que não ameaça ninguém. Daqui a pouco, ninguém mais fala nisso.

"Controle social da mídia" é uma besteira da qual se fala há anos, algo que não existe nem existirá pela simples e boa razão de que é inexequível, como já explicou o ex-ministro Franklin Martins, sempre apontado como o pai da ideia, o que não é verdade.

Vamos deixar bem claro de uma vez por todas: não há nem houve em tempos recentes qualquer ameaça governamental à liberdade de imprensa no Brasil. Ficar acenando com a ameaça da volta da censura prévia é má-fé ou desinformação ou as duas coisas juntas.

O que temos desde sempre _ e o episódio da cobertura de Guadalajara é um caso emblemático _ é o "controle empresarial da mídia" exercido por meia dúzia de famílias que decidem o que devemos ou não saber, pensar, fazer.

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