montagem11 Na tenda com Gaddafi, déspota de chanchada
Em tempo, às 11h55 de 20.10.2011:

Quase dois meses depois de ser encurralado por forças da oposição e da OTAN (Organização do Atlêntico Norte), quando escrevi o post abaixo, a morte do ditador sanguinário Muammar Gaddafi foi oficialmente anunciada pelo novo governo da Líbia, na manhã desta quinta-feira.

É mais uma vitória do mundo civilizado sobre as trevas do passado que ainda dominam algumas regiões do planeta.

Abaixo a matéria que escrevi no último dia 22 de agosto:

Mais de 1.300 mortos, tanques avançando, troca de tiros, o ditador desapareceu, inferno vira festa em Trípoli. O que dizer diante da tragédia anunciada, desde que este déspota de chanchada, com trejeitos de Oscarito, assumiu o poder há 42 anos e transformou a Líbia em seu feudo particular?

Diante do alucinante noticiário da BBC Brasil sobre as últimas horas do cerco ao ditador Muammar Gaddafi, isolado em seu QG de Bab al Azizia, enquanto o povo pulava e cantava nas ruas de Trípoli, vieram-me à lembrança cenas da primeira ( e espero) última viagem que fiz à Líbia, como Secretário de Imprensa do então presidente Lula em sua primeira visita oficial aos países árabes.

Dezembro de 2003. Um bando de fanáticos cercava o palácio, gritando e agitando bandeiras, impedindo os carros da comitiva brasileira de se aproximarem do portão indicado pela segurança. Já era noite, havia pouca iluminação.

Tivemos que descer no meio da multidão. A partir daí, foi um salve-se quem puder, ninguém era de mais ninguém. Guardas presidenciais líbios, seguranças brasileiros, ministros, assessores, diplomatas dos dois lados, jornalistas, virou tudo uma zona federal, com porrada para todo lado.

Um dos mais revoltados com a situação era o meu amigo Ciro Gomes, então ministro do Interior, que levou, mas também deu, umas pancadas sentidas em quem via pela frente. Não adiantava gritar que se tratava de um importante ministro brasileiro. Quem iria nos entender?

Quando, finalmente, conseguimos entrar, e os portões foram fechados, vi Gaddafi recepcionar Lula, todo paramentado com suas túnicas típicas, à entrada do antigo palácio bombardeado pela aviação americana em 1986 _ e que ainda permanecia detonado do mesmo jeito, para ninguém se esquecer do ataque que matou Hanna, sua filha adotiva de 15 meses.

Gaddafi fez questão de mostrar o leito de morte da menina, ainda com manchas de sangue na parede. A partir desta visita meio macabra pelos escombros do palácio, a gente já não sabia como ficaria o restante da programação. Do lado de fora das grades, o povo continuava gritando palavras de ordem.

Tudo era sigiloso, misterioso, soldados armados de metralhadoras cercando os visitantes, diplomatas agitados tentando organizar a confusão. Confesso que minha primeira impressão do país e do ditador não foi muito boa. Só podia dar no que deu.

Estava cansado e com fome. A Líbia era a última parada da primeira viagem de um chefe de Estado brasileiro a países árabes, desde os tempos de D. Pedro 2º. Passamos antes por Síria, Líbano, Emirados Árabes Unidos e Egito.

Além de incrementar o comércio com estes países, havia dois objetivos centrais: buscar o apoio árabe para o Brasil conseguir uma vaga no Conselho de Segurança da ONU e organizar o 1º Encontro de Cúpula Árabe-Latino-Americano marcado para o ano seguinte no Brasil.

Lula e Gaddafi tiveram uma primeira conversa numa tenda ainda naquela noite. Em seguida, fomos nos hospedar no hotel Corinthia, assim mesmo, no singular. Apesar do nome, era um dos mais chiques da cidade...  Havia muitos retratos de Gaddafi espalhados por Trípoli, e poucas bancas de jornal, lojas, bares e restaurantes, nada que atraísse muito a atenção dos forasteiros.

Nossa estada na Líbia duraria apenas 24 horas. No dia seguinte, acordamos cedo e ficamos no hotel aguardando instruções do governo líbio para saber quando e onde seria a reunião de Lula com Gaddafi. Já depois do meio dia, fomos levados a um descampado, cuja localização nunca vou saber, onde havia algumas tendas.

O então presidente Lula foi conduzido a uma delas. Por uma fresta, pude ver Gaddafi falando sem parar, com gestos largos, jogando a túnica de um lado para outro, diante de um mapa-múndi.

O chefe do cerimonial, diplomata Paulo de Oliveira Campos, atual embaixador na Espanha; o chefe da segurança, hoje general Gonçalves Dias, e o fotógrafo oficial, Ricardo Stuckert, e eu passamos umas duas horas numa tenda ao lado tentando adivinhar o que se passava entre os quatro panos. Sobre uma pequena mesa, apenas sucos e salgadinhos. O tempo não passava.

De volta ao hotel, o presidente Lula recebeu uma ligação do presidente americano George Bush interessado em saber como fora a conversa com Gaddafi. Enquanto a imprensa brasileira descia o cacete no nosso presidente, por ir à Líbia se encontrar com um ditador, Bush e outros líderes mundiais achavam boa a iniciativa de se abrir algum diálogo com Gaddafi, que vivia isolado na sua tenda, ameaçando o resto do mundo.

Recordo-me que, tempos depois, Tony Blair, primeiro-ministro inglês, também iria se encontrar com Gaddafi _ e ninguém achou ruim na imprensa brasileira.

O fato é que, já em 2008, o comércio do Brasil com os países árabes havia quadriplicado, passando dos US$ 20 bilhões por ano.

É sempre bom também lembrar que a diversificação do nosso comércio exterior, ampliando o leque de parceiros, foi um dos fatores que permitiram ao Brasil atravessar sem maiores traumas a crise econômica mundial que começou naquele ano e abalou os mercados dos países ricos _ uma crise que ainda não terminou, e é apontada como uma das causas das revoltas e rebeliões contra os governos que pipocam por toda parte, não apenas nas ditaduras árabes de chanchada.

Saudades do Oscarito...

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