_ Bom dia, coronel.

_ Pois não, Muammar Gaddafi ao seu dispor.

_ Nós somos das fôrças rebeldes e viemos aqui prendê-lo em nome da lei e do Conselho Nacional de Transição.

_ Que lei? Já disse que só deixarei o poder morto. Nada feito.

_ O senhor quer se comunicar com seu advogado? Temos aqui um celular...

_ Eu não preciso de advogado. Tenho minhas tropas que continuam leais para me defender até a última gota de sangue.

_ Por favor, coronel, queira nos acompanhar. O senhor está preso e será submetido a julgamento no Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade, onde terá amplo direito de defesa.

_ Vocês estão brincando...

_ Permita-me que eu lhe coloque as algemas. Queira nos seguir.

***

Alguém pode imaginar o diálogo acima em meio ao cáos que se estabeleceu na Líbia desde que Gaddafi desapareceu em agosto e começou uma caçada implacável ao mais antigo ditador do mundo, reunindo dezenas de milhares de combatentes rebelados em todo o país, apoiados pelas fôrças da OTAN?

Diante das primeiras informações confirmando a morte do tirano, escrevi uma atualização às 11h55 de quinta-feira e reproduzi um texto publicado no dia em que Gaddafi fugiu, há dois meses ("Na tenda com Gaddafi, um déspota de chanchada"), lembrando uma viagem que fiz à Líbia, no final de 2003.

Ainda sem conhecer as circunstâncias da morte, comentei que se tratava de "uma vitória do mundo civilizado sobre as trevas do passado que sobrevivem em algumas regiões do planeta".

É o que penso: toda vez que o mundo se livra de um ditador, e muitos ultimamente estão vendo chegar o seu fim, é uma vitória da civilização sobre a barbárie.

Alguns leitores não gostaram do que escrevi. "Quer dizer então que a morte de Gaddafi aconteceu de forma civilizada?", pergunta o leitor Roberto Vianna em comentário enviado às 7h20 desta sexta-feira.

Não, caro Vianna, não foi isso que escrevi. Por favor, leia de novo meu texto. Ao longo do dia, a imprensa do mundo inteiro divulgou mil versões diferentes sobre o que aconteceu entre a captura e a morte de Gaddafi, que certamente não ocorreu depois de um diálogo imaginário como o descrito na abertura deste post.

A Líbia estava em guerra desde fevereiro e não seria de se esperar que os rebeldes recebessem Gaddafi com algemas, flores e salamaleques ao encontrá-lo escondido numa tubulação de esgoto depois que seu comboio foi bombardeado pelos aviões da OTAN.

Após 42 anos de despotismo, assassinatos de adversários políticos, terrorismo, corrupção, com o país saqueado pela família Gaddafi e destruído pela guerra civil, o povo nas ruas queria se vingar de quem o oprimiu e uma grande festa explodiu em todo o país.

O enterro foi adiado para que se apure como ele foi morto, por determinação feita esta manhã pelo Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos.

Talvez nunca se fique sabendo quem foi o autor do último tiro. Só de uma coisa temos certeza: Muammar Gaddafi morreu como sempre viveu para se manter no poder, com muito sangue correndo.

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