cracolandia 1 g 20120102 e1326099357963 A chaga do crack e a lambança dos governos

De volta à lida, no segundo domingo do ano, gostaria de trazer uma boa notícia para vocês, mas não tem jeito. Após este breve "recesso bloguístico", não tem como começar o ano sem falar de uma grande tragédia humana.

E não estou me referindo às vítimas de mais uma tragédia das águas, má notícia que se repete todos os anos, como se já fizesse parte do calendário, mas à chaga do crack, agora exposta em suas vísceras pelas lambanças do poder público em todos os níveis, por ação destrambelhada ou por omissão.

Não me saem da cabeça as chocantes imagens que vimos nos últimos dias dos farrapos humanos consumidos pelo crack, espalhados e jogados pelas ruas da maior cidade do país após a desastrada Operação Cracolândia, que expulsou os viciados das tocas e becos do velho centro de São Paulo, onde havia muitos anos viviam confinados como refugiados de guerra.

De repente, sem avisar seus superiores e sem qualquer planejamento, dois coronéis  _ um, Pedro Borges, comandante da PM na região central de São Paulo e, outro, Nevoral Bucheroni, oficial reformado, que é subprefeito da Sé _ resolvem colocar suas tropas na rua para resolver o problema na marra.

A decisão ocorreu após uma reunião em que Luís Alberto Chaves de Oliveira, coordenador de Políticas sobre Drogas da Secretaria de Estado de Justiça, informou sobre o interesse do governador Geraldo Alckmin na tal operação.

Com 60 soldados recém-formados pela  Escola da Polícia Militar, eles deram ordem unida na última terça-feira para que a tropa avançasse sobre os drogados, cerca de 400 moradores de rua, aos quais se juntam diariamente outros 1.200 usuários que chegam em busca dos traficantes.

O objetivo declarado dos higienistas radicais era espantar os traficantes para provocar "dor e sofrimento" na legião de deserdados, imaginando que assim eles trocariam gentilmente o crack por ajuda social.

Resultado: 41 prisões em seis dias, nenhum drogado encaminhado para clínicas de tratamento, autoridades batendo cabeça e a chaga se espalhando por vários bairros vizinhos ao centro, assustando os moradores e obrigando o comércio a fechar as portas mais cedo.

Trata-se de um problema social tão grave, e bem no coração de São Paulo, que exigiria a ação combinada dos governos municipal, estadual e federal, com médicos, assistentes sociais e agentes do Judiciário, mas nenhuma autoridade do primeiro escalão sabia que a Operação Cracolândia seria desencadeada na semana passada.

Alckmin, governador do Estado pela terceira vez; Kassab, que está na Prefeitura desde 2004 (primeiro como vice), e o comandante geral da PM, Álvaro Camilo, não foram informados. Desde a campanha eleitoral, a presidente Dilma Rousseff vinha falando da necessidade de se unir esforços para enfrentar o problema do crack em São Paulo, mas o Ministério da Saúde ainda nem entrou na história.

Não havia nenhum esquema preparado para encaminhar os drogados. Desde o final de outubro, sob o comando do governador e do prefeito, representantes das áreas de Segurança Pública, Assistência Social e Saúde nas áreas municipal e estadual vinham planejando uma ação para a Cracolândia, que deveria ser desencadeada somente em fevereiro, após a inaguração de um centro de atendimento com 1.200 vagas no Bom Retiro.

Em maio, haverá troca no Comando-Geral da PM e, em outubro, teremos eleições municipais. Espera-se que estas duas disputas não estejam na origem da lambança da semana passada e que vidas humanas já destroçadas não sejam alvo da conquista de votos ou de poder.

Ainda é tempo para que representantes dos três níveis de governo se entendam e se unam para montar uma força-tarefa capaz de salvar estas vidas e o que ainda resta de dignidade na selva de crack, concreto e hipocrisia paulistana.

Se não formos capazes de tratar humanamente de 400 drogados, para que servem os governos que elegemos e os impostos que pagamos?

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