SÃO SEBASTIÃO _ Ao contrário do nosso sábio Ruy Castro, pouco entendo de cinema e tenho péssima memória para lembrar dos filmes e atores que vi nas telas, mas gosto muito de falar de histórias de vida.

Por isso me deu vontade de escrever hoje sobre o ator e diretor Clint Eastwood (não me lembro dos filmes dele a que já assisti). "Você precisa ler esta entrevista", foi logo me dizendo minha mulher assim que cheguei à casa do Toque Toque Pequeno para encontrar a família.

Sobre a mesa estava a edição da "Istoé" desta semana. O título da entrevista que ele deu a Elaine Guerini, em Los Angeles, já diz tudo: "O trabalho me mantém jovem".

A repórter conta que, na semana anterior, Clint aceitou ser capa da revista do jornal francês "Le Monde" com a condição de não ter suas rugas apagadas pelo photoshop. De fato, o grande ator está com cara de velho, mas a entrevista mostra um moço cheio de energia com vontade de fazer muito mais coisas na vida.

Uma declaração dele, em particular, me chamou a atenção: "Esperava ter me aposentado 30 anos atrás. Como não aconteceu, será preciso mais do que uma dor nas costas para me fazer parar".

Com a mesma idade, já aposentado depois de 35 anos de serviço, pensei a mesma coisa no verão da virada do milênio aqui neste mesmo lugar.

Já meio cansado de fazer as mesmas coisas a vida toda, viajando pelo país e pelo mundo como repórter, e após uma boa temporada trabalhando como diretor de jornalismo na televisão, pensei em largar tudo para escrever um livro.

A ideia, que cheguei a conversar com alguns amigos editores, era exatamente contar a história de uma guinada radical na vida, mostrando a nova rotina do sujeito que decide ir morar na praia, longe do mundo das notícias.

Já tinha até o título _ "Diário de um Vagabundo" _ e comecei a fazer algumas anotações durante as férias. Enchi um caderno com as lembranças de velhos pescadores, brigas de cachorros, baleias encalhadas, barcos virados, corridas de canoa. A familia e os amigos foram voltando para a cidade grande e eu fui ficando. Claro que não aguentei muito tempo.

Encontrar todos os dias as mesmas poucas pessoas, em meio ao tédio da antiga vila de pescadores fora da temporada, conversando sobre o tempo e as marés, certamente não me renderia um livro muito emocionante. Quem iria querer ler este diário?

Convencido de que cada nós tem um destino e não há como fugir muito dele, em dois meses estava de volta a uma redação trabalhando como repórter, ofício que exerço até hoje.

De vez em quando também me dá dor nas costas de tanto escrever, além de outros achaques da saúde comuns a quem nunca cuidou muito do próprio corpo.

Não é o caso de Clint Eastwood. A colega Guerini conta que ele "levanta pesos todos os dias de manhã, antes de encarar um dia de filmagem. Mas é o trabalho, mais do que tudo, que para ele o mantém com espírito jovial e ainda em atividade".

Agora mesmo ele está lançando um novo filme como diretor. Com lançamento programado no Brasil para o próximo dia 27,  "J. Edgar" é uma cinebiografia sobre a trajetória pessoal e profissional de J. Edgar Hoover, que foi por 48 anos chefe do FBI. Clint quer mostrar o que leva uma pessoa a não largar o osso do poder, qualquer que seja o preço.

Uma das passagens da entrevista mostra a bela lição de vida deste jovem de 81 anos, dono do seu tempo. "Tenho com o cinema a mesma relação que tenho com o golfe. Adoro jogar golfe, mas não quero ter a obrigação de praticá-lo todos os dias. Claro que aprecio o fato de ainda ter o que fazer, o trabalho me mantém jovem".

Um bom exemplo para ele é o cineasta português Manoel de Oliveira, que, aos 103 anos, continua no batente, como o nosso grande Oscar Niemeyer. Será que Clint também chega lá?

"É cedo para dizer. Conheci Manoel no Festival de Cannes, anos atrás, quase perguntei: qual o uísque que o senhor toma? Manoel ainda tem muita vitalidade, como quem está determinado a chegar aos 110. Às vezes, até fico desconfiado. Ou ele é mesmo incrível ou andou mentindo. Talvez Manoel esteja com 60 anos e diga ter passado dos 100 só para ouvir as pessoas dizerem que ele ainda está bem para a idade...".

Quando nos dizem que estamos bem para a idade, é porque estamos ficando velhos. Para mim, a idade varia conforme o dia. Tem dias que me sinto com 30; em outros, com mais de 100. Não importa. O que importa mesmo é que a gente tenha o que fazer, goste do que faz e procuro fazer bem feito.

Por isto estou aqui a escrever neste belo sábado de sol enquanto os netos brincam na piscina. Tem vida melhor?

Identifiquei-me de cara com ele.

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