serra kassab ae 20100127 A grande novidade: Serra é candidato

Em tempo, às 17h39:

estava fazendo a revisão do texto abaixo, por volta das 15 horas, quando começou a chover e trovejar forte, ouvi uma explosão de transformador na rua, acabou a luz, o computador pifou, apagaram-se os semáforos e o trânsito virou uma sinfonia de buzinas.

Estava de volta a São Paulo, sem dúvida. Mesmo com três computadores em casa, dois deles movidos a bateria, não consegui conexão de internet em nenhum. Por este motivo, o blog foi publicado só agora, fora do horário habitual.

Para quem passou quase 24 horas em viagem, entre sair do hotel na Alemanha e entrar na minha casa, não foi uma recepção das mais camaradas...

Enfim, vida que segue.

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Ora, ora, ora pois, quem diria... Mal acabei de chegar de volta à terrinha, o motorista do táxi que peguei em Cumbica me oferece o jornal, e qual é a única grande "novidade"?

José Serra é o candidato tucano à Prefeitura de São Paulo. Ou melhor, agora é candidato a candidato do PSDB, já que aceitou disputar as prévias do partido marcadas para o próximo domingo.

Dois pré-candidatos já desistiram _ Bruno Covas e Andrea Matarazzo, que estavam só guardando lugar para Serra _ e dois insistem na disputa _ José Anibal e Ricardo Trípoli.

O Brasil está ficando um país cada vez mais previsível _ o que não é necessariamente bom ou ruim. Para nós, jornalistas, que vivemos de contar novidades, trata-se de um problema, é verdade, mas a população parece estar gostando de acordar todos os dias do mesmo jeito que foi dormir ontem.

É bom, de um lado, porque vivemos num clima de estabilidade econômica, instituições democráticas em pleno funcionamento, liberdades públicas respeitadas e um mínimo de planejamento administrativo.

O lado negativo fica por conta do ainda e sempre pesado jogo político, com os mesmos personagens de sempre, os partidos preocupados unicamente em manter ou conquistar o poder, a qualquer preço.

"José Serra vem aí? É avolta da velha novela", foi o título do último post que escrevi antes de viajar para a Alemanha na semana do Carnaval.

Naquele momento, já parecia claro que tinha dado certo a jogada do PSD do prefeito Gilberto Kadssab de se oferecer ao PT de Lula para obrigar Serra a ser candidato.

O texto premonitório terminava assim:

"Em conversa com tucanos, segundo o noticiário da Folha, Serra avaliou que seria um desastre para qualqur projeto do PSDB uma aliança entre o PT e o PSDB.

Ou seja, para evitar o desastre tucano, só tem um jeito de segurar Kassab: se Serra for o candidato a prefeito.

Ainda outro dia escrevi aqui que esta campanha eleitoral em São Paulo promete fortes emoções. Não percam os próximos capítulos. Estamos só no começo".

Nesta manhã de segunda-feira, o primeiro dia verdadeiramente útil do ano, depois das férias e do Carnaval, com o trânsito todo parado, só deu Serra no noticiário das rádios.

Logo cedo, às nove da manhã, ele anunciou solenemente pelo Twitter, para mostrar que agora é um político moderno, em texto reproduzido pelos locutores:

"Sempre fui favorável às prévias para a escolha do candidato a prefeito do PSDB. E delas pretendo agora participar. Hoje comunicarei por escrito à direção do PSDB de São Paulo minha disposição de disputar a prefeitura de SP".

Poucas semanas atrás, Serra também comunicou oficialmente ao PSDB, por intermédio de estafeta de confianças, que não aceitaria em hipótese alguma disputar mais uma vez as eleições paulistanas.

Por isso, foram programados debates entre os pré-candidatos e confirmadas as prévias. Sem aparecer em público nem dar declarações à imprensa, o ex-goverrnador só se manifestava pelo Twitter ou por seus seguidores mais fiéis.

Como tudo não passa de um grande teatro, que não chega mais a surpreender a platéria, é possível mesmo que o PSDB confirme as prévias para domingo e Serra saia de lá aclamado como candidato pelas "bases do partido".

A política provinciana aqui em São Paulo anda de tal jeito que é preciso mesmo escrever as palavras entre aspas para não enganar o leitor.

Ou alguém pode imaginar que o prefeito Gilberto Kadssab estava sendo absolutamente verdadeiro, agindo por conta própria, sem combinar tudo antes com seu parceiro José Serra, ao "oferecer" o apoio do seu partido a Lula, até indicando o vice para compor a chapa do PT?

Era o mote de que Serra precisava para desistir de desistir da candidatura e ser candidato de novo. A decisão de Serra de partir para o sacrifício para evitar uma aliança do PSD com o PT, até animou os editoriais dos jornalões e de alguns jornaizinhos, mas não foi suficiente para entusiasmar o partido.

Na verdade, não enstusiasmou nem o próprio candidato, a julgar pela nota de Lauro Jardim publicada na revista Veja desta semana, sob o título "Clima de enterro":

Duas semanas atrás, José Serra analisava com um interlocutor a possibilidade de candidatar-se à prefeitura de São Paulo. Comparou a eleição a um enterro: "É enterro, sim. A diferença é que, se eu ganhar, será um enterro com honras militares; se eu perder, será um enterro de indigente".

Belíssima opção, como se vê. Ao dar uma olhada nos jornais da semana passada, vi que as cartas já estavam marcadas. "Serra decide concorrer à Prefeitura de São Paulo", foi a mancherte da Folha de sábado, informando que o ex-governador aceitava disputar as prévias.

Para quem ainda tinha alguma dúvida sobre as motivações de Kassab ao barganhar apoio para o PT e o PSDB ao mesmo tempo, o vice-governador Guilherme Afif, um dos mentores da criação do PSD, deixou bem claro nesta segunda-feira:

"O PT sempre foi considerado uma terceira alternativa para o PSD. Eram as alternativas que não tínhamos. A primeira era a candidatura de José Serra. A segunda condição era a candidatura própria desde que tivéssemos tempo de televisão".

Desta vez, ao que tudo indica, o feitiço se voltou contra o feiticeiro, e o mágico Lula, capaz de dar nó em pingo d'água na sua política de alianças, desta vez levou uma rasteira da dupla Serra-Kassab.

A não ser que aconteçam novas reviravoltas na novela, teremos este ano na eleição paulistana uma repetição da disputa entre Lula e Serra na campanha presidencial de 2002.

Com a diferença de que, agora, Serra é o candidato de Serra e o candidato de Lula chama-se  Fernando Haddad, que ainda não foi testado em eleições.

É verdade, também, que, em 2010, a candidata de Lula era Dilma Rousseff, sem experiência eleitoral anterior. E o tucano José Serra perdeu pela segunda vez uma disputa presidencial para o PT.

Façam suas apostas, caros leitores. O jogo está aberto. Quem se habilita?

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