Posts de março/2012

Alguns togados ainda se mostram surpresos e inconformados com o que está acontecendo. E reagem com ira a cada nova denúncia sobre as suas atividades pouco republicanas, agora tornadas públicas, ameaçando processar jornais e jornalistas.

Habituados a julgar os outros, certos da impunidade eterna de seres superiores, simplesmente não aceitam também ser investigados e julgados, a partir das iniciativas da ministra Eliana Calmon, que simplesmente colocou para funcionar a corregedoria do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e fazer o que sempre deveria ter feito.

Ao levantar o véu (ou as togas) da magistratura, Calmon mexeu num vespeiro. A cada dia surgem novas notícias de abusos, privilégios, benefícios pagos indevidamente, obrigando os próprios tribunais estaduais a tomar providências.

Esta semana, por exemplo, o Tribunal de Justiça de São Paulo mandou suspender o pagamento de verbas ilegais pagas a desembargadores a título de licença-prêmio.

Juízes indicados pela OAB na cota do quinto constitucional para compor as cortes estavam contando o tempo de exercício da advocacia para calcular o valor das licenças-prêmio a que os magistrados têm direito.

Só que tem um pequeno detalhe: na mesma decisão, o TJ-SP isentou os magistrados da obrigação de devolverem o dinheiro recebido ilegalmente durante anos_ o nosso dinheiro, é bom lembrar _ alegando que eles agiram de "boa-fé".

Como assim? Se por acaso a Receita Federal me pagar um valor de devolução de imposto de renda superior ao que teria direito, posso simplesmente embolsar a grana? Ou devo comunicar o erro e reembolsar o Tesouro Nacional?

Da mesma forma, o leitor acha justo que os homens da lei que recebem o teto salarial do funcionalismo público, algo em torno de R$ 26 mil por mês, tenham agora também direito a receber vale-refeição _ e ainda por cima com efeito retroativo?

Este vale, assim como o vale-transporte, foi criado para complementar a remuneração de trabalhadores de baixa renda, assim como o auxílio-moradia é pago para o funcionário público deslocado da sua cidade de origem.

No caso dos 300 e tantos desembargadores de São Paulo, que trabalham no Tribunal de Justiça de São Paulo e moram em São Paulo, que sentido faz o pagamento de auxílio-moradia?

Para que eles precisam de vales disso e daquilo com o salário que recebem? Chegam a ser humilhantes estes penduricalhos que aumentam a renda de quem já está no topo da pirâmide social.

A cada enxadada que dá a corregedora-geral Eliana Calmon, aparecem mais minhocas que estavam postas em sossego sob o solo dos tribunais, colocando em risco a imagem do nosso Judiciário, que deveria dar o exemplo do cumprimento da lei, teoricamente igual para todos, e do zelo com o dinheiro público.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Publicado em 28/03/12 às 22h21

Falar com o Lula faz bem para a alma

46 Comentários

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Foto: Ricardo Stuckert/Instituto Lula

Já passava das nove da noite quando o telefone tocou. Era o Sandro, filho do Lula: "Meu pai quer falar com você". Antes dele, entrou na linha a amiga Marisa para reclamar que eu não tinha ligado, e ficamos um tempão conversando, enquanto o ex-presidente falava em outra linha.

Claro que eu já sabia da bela notícia de que o tumor na laringe de Lula tinha desaparecido, mas eles queriam me contar. Somos amigos faz mais de trinta anos. "Por que você não ligou pra nós?", cobrou Marisa, que sempre cuidou de mim nas muitas viagens que fizemos juntos ao longo da vida.

Lula tinha acabado de aparecer nos telejornais falando como Marisa tinha sido importante na sua recuperação. Só ela não viu porque estava atendendo ao telefone que não parava de tocar.

Pois é, não  liguei para a casa deles porque imaginei que meio mundo estava fazendo isso e não queria incomodar. Ao ouvir a felicidade de Lula de própria voz, depois dos exames que fez nesta quarta-feira, fiquei emocionado como eles e me lembrei dos muitos momentos difíceis que passamos juntos nas campanhas eleitorais e no governo.

No fim, dá tudo certo, a gente costumava dizer um para o outro nestas horas duras, que não foram poucas, desde que Lula trocou a pacata vida de operário pela de líder político.

Deu certo mais uma vez. Aos muitos amigos comuns que me ligaram nos últimos dias e semanas para saber como estava o Lula, posso garantir, independentemente de boletins médicos, que o astral dele está muito bom e que não vê a hora de voltar à vida política.

Me perguntou o que achei e contou que ficou contente com o encontro que teve na véspera com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Eles são adversários políticos, mas nunca deixaram de ser amigos, ainda mais nestas horas.

Lula ainda precisa de alguns dias para recuperar a força e a voz que perdeu por causa do tratamento de radioterapia, mas agora falta pouco, e ele não vê a hora de entrar com tudo nas campanhas do PT, principalmente na de São Paulo, que virou seu grande desafio.

O amigo ex-presidente sempre viveu de desafios, de remar contra a maré, contrariar o senso comum, mirar o impossível. Falar com ele faz bem para o coração e a alma, ainda mais num dia em que mais uma vez Lula sai vencedor de uma dura batalha.

Fiquei na dúvida se deveria escrever aqui no Balaio sobre essa nossa conversa, mas não queria deixar de dividir com todos os leitores a alegria que sinto por ter falado agora há pouco com esta grande figura num dia tão importante na vida dele e, com certeza, na de todos nós, brasileiros, que acreditamos no Brasil.

Valeu, amigo Lula, bola pra frente, vida que segue.

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Publicado em 28/03/12 às 16h45

Haddad vai opor Marta a Serra-Kassab

15 Comentários

HADDAD 8 Haddad vai opor Marta a Serra Kassab

A estratégia central da campanha do candidato do PT à prefeitura de São Paulo, o ex-ministro da Educação Fernando Haddad, paulistano de 49 anos, já está definida.

Em entrevista exclusiva de 40 minutos que concedeu na terça-feira ao R7, Haddad deixou claro, em vários momentos, que vai contrapor as realizações da administração da ex-prefeita Marta Suplicy, da qual ele participou, aos resultados dos oito anos da dupla José Serra-Gilberto Kassab no comando da cidade.

"Eu lanço este desafio: comparem o que nós entregamos em quatro anos, com um terço do atual orçamento, ao que eles entregaram em oito anos", afirmou o candidato petista, dando uma pista sobre como pretende conduzir a sua campanha.

Aliviado com a fracassada aliança do PT com o PSD de Kassab, que na verdade ele nunca quis, Haddad agora está à vontade em seu discurso de oposição e mudança, com os números na ponta da língua para comparar os governos de Marta e Serra-Kassab.

"Estão faltando leitos nos hospitais, os corredores de ônibus pararam, os CEUs foram paralisados. Em quatro anos, entregamos 21 CEUs, e eles, no segundo mandato, não entregaram nenhum".

Na acanhada sede do PT municipal, no centro velho da cidade, onde está instalado provisoriamente, com poucos assessores, enquanto o partido não providencia um comitê eleitoral, Haddad até que está bem animado com o desafio de enfrentar o tucano José Serra em sua estreia nas urnas.

Mesmo sem ter fechado até agora nenhuma aliança importante, nem mesmo com os parceiros habituais do PT, sem definir até agora sequer quem serão os coordenadores da sua campanha, patinando em 3% nas pesquisas, o candidato não parece ter pressa para colocar a campanha nas ruas.

"Nada substitui o horário eleitoral que, aí sim, você tem condições de se apresentar. Cada vez mais, o eleitor deixa para decidir na última hora, sobretudo em eleições municipais. Nos últimos dias, o voto migra, se consolida. A Luiza Erundina largou com 1% de intenção de voto e foi eleita prefeita".

Em contraponto a Serra, Haddad quer desnacionalizar a campanha paulistana, procurando centrar o debate na discussão dos problemas e das soluções para a cidade. "Nosso principal adversário tem grande dificuldade de discutir a cidade porque toda a sua vida foi dedicada a discutir os temas nacionais. E toda a carreira deste candidato, José Serra, foi pensada para chegar à Presidência. Mesmo nas declarações mais recentes dele, o salvo é sempre o governo federal".

Por aí se pode ter uma ideia de como será dará mais um embate entre PT e PSDB, os partidos que têm monopolizado as eleições em São Paulo nas últimas duas décadas. Haddad agora quer jogar o prefeito Gilberto Kassab e seus altos índices de rejeição no colo de Serra.

"Não há clima de continuidade. Inclusive o próprio José Serra tem dificuldade em se apresentar como um candidato da continuidade de uma administração que ele, mal ou bem, forjou. A equipe é a mesma as diretrizes são as mesmas".

Enquanto aguarda a volta aos palanques políticos de seu principal cabo eleitoral, o ex-presidente Lula, Haddad garante que o partido está unido, e suas relações com a ex-prefeita Marta Suplicy são muito cordiais. "Marta já disse que, no momento oportuno, quando for o caso, ela estará ao meu lado, ao lado do presidente Lula, da presidente Dilma. Não vejo nenhuma dificuldade".

Veja abaixo a íntegra da entrevista e o vídeo do nosso encontro com o candidato Fernando Haddad.

[r7video http://noticias.r7.com/videos/exclusivo-ricardo-kotscho-entrevista-fernando-haddad/idmedia/4f7362463d14f74a2cf17cfe.html]

Leia a íntegra da entrevista aqui.

Esta entrevista com Fernando Haddad faz parte de uma série que farei com os candidatos à prefeitura de São Paulo. Os próximos serão Celso Russomanno, Gabriel Chalita e José Serra.

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Publicado em 27/03/12 às 13h20

O que o Demóstenes vai dizer agora?

48 Comentários

demostenes torres O que o Demóstenes vai dizer agora?

Demóstenes Torres/ABr

ATUALIZADO ÀS 15H55

Até o momento, o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) não subiu à tribuna nem deu qualquer explicação para responder às mais recentes denúncias sobre o seu envolvimento com o contraventor Carlinhos Cachoeira, mas já entregou ao presidente do DEM, José Agripino Maia, uma carta em que renuncia à liderança do partido.

"A fim de que eu possa acompanhar a evolução dos fatos nos últimos dias, comunico a Vossa Senhoria que estou deixando a liderança do partido", diz a mensagem do senador.

***

É grande a expectativa em Brasília sobre o que vai dizer agora à tarde o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), após a saraivada de denúncias contra ele que pipocaram na imprensa nos últimos dias sobre as suas ligações com o notório contraventor Carlinhos Cachoeira.

Apenas uma semana atrás, Demóstenes subiu à tribuna do Senado com pompa e circunstância para se mostrar ofendido, indignado, injuriado com as insinuações de que ele possa ter feito algo de errado além de manter uma desinteressada amizade com o bicheiro, que agora está hospedado num presídio de segurança máxima.

Condoídos com a situação do colega, 44 senadores pediram apartes _ todos eles para se solidarizar com Demóstenes e elogiar as suas qualidades de homem público. Ninguém lhe perguntou sobre o teor das quase 300 conversas telefônicas que manteve com Cachoeira e os ricos presentes de casamento que este lhe ofertou.

Depois disso, ficamos sabendo que Demóstenes pediu dinheiro ao amigo, encarregou-o de pagar as despesas de seu táxi-aéreo e até da suspeita de participação nos lucros do jogo do bicho _ logo ele, o senador que se apresentava como o último varão honesto da República, valente acusador de ministros, defensor implacável da moralidade pública.

A situação de Demóstenes Torres se agravou tanto na última semana que agora até o DEM está pensando em expulsá-lo do partido, caso o procurador-geral Roberto Gurgel se decida finalmente a pedir a abertura de inquérito sobre o envolvimento do senador com o "empresário de jogos" Carlinhos Cachoeira.

Acontece que Gurgel não parece mostrar a mínima pressa para cumprir sua tarefa, já que tem conhecimento das investigações da Polícia Federal desde 2009 e não se manifestou ainda depois que a operação Monte Carlo pegou a quadrilha acusada de explorar máquinas caça-níqueis, quando apareceu a ligação de Demóstenes com Cachoeira.

Pelas declarações dadas por senadores nesta segunda-feira em Brasília, parece que o impoluto senador goiano perdeu sua base de sustentação. Senadores, como Pedro Taques (PDT-MT), que antes o defendiam, pediram que ele faça um novo pronunciamento.

"O caso é grave. Esta Casa não terá moral para convidar, intimar qualquer cidadão a depor se nós não ouvirmos os esclarecimentos do senador", cobrou Taques. Vai falar o quê agora, se é que vai falar?

A sua defesa agora se limita ao novo líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM), e ao advogado criminalista Antonio Carlos de Alemida Castro, o Kakai.

Braga mostrou-se surpreso com a possibilidade de Demóstenes sofrer um processo no Conselho de Ética, que poderia levá-lo à cassação: "Eu não entendo até onde poderia se caracterizar a falta de decoro". Ainda não entendeu? Que santa ingenuidade... É no mínimo estranho que a única voz que saiu em defesa do senador acusado seja a do líder do governo.

Kakai limita sua defesa a afirmar que o senador só poderia ter suas conversas com Cachoeira gravadas pela Polícia Federal com autorização do Supremo Tribunal Federal. Claro, claríssimo. Não importa que a enteada de Gilmar Mendes trabalhe no gabinete de Demóstenes Torres. Afinal, são todos apenas amigos.

Quem estava sendo gravado pela PF, com autorização judicial, era o bicheiro _ Demóstenes só entrou na história por acaso porque, entre outros mimos, ganhou de presente de Cachoeira um telefone à prova de escutas policiais.

Quer dizer que, segundo o nobre advogado, sem autorização do STF Demóstenes é inocente e as gravações não servem como prova? Assim fica difícil acabar com a impunidade no País - uma das bandeiras eleitorais de Demóstenes, antes de passar de acusador a acusado.

 

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serra 201203251 Ao vencer prévias, Serra sofre sua maior derrota

José Serra vota nas prévias do PSDB neste domingo (25)/Foto: Thiago Teixeira/AE

Foi por muito pouco. No final da tarde deste domingo, ao ser anunciado o resultado oficial das prévias do PSDB para escolher seu candidato a prefeito de São Paulo, o ex-quase tudo José Serra ganhou a indicação do partido. Ganhou, mas, ao mesmo tempo, sofreu a maior derrota política da sua longa carreira de quase meio século.

Serra recebeu 52% dos votos dos militantes tucanos _ ou seja, quase metade do PSDB votou contra a sua candidatura a prefeito. A rejeição ao seu nome no próprio partido foi bem maior do que aquela apontada no eleitorado em geral: 30% de paulistanos não votariam em Serra segundo a última pesquisa divulgada pelo Datafolha.

Os surpreendentes 31% dos votos conquistados por José Anibal e outros 16% por Ricardo Tripoli mostraram que o PSDB entra rachado nesta disputa, apesar do apoio dado a Serra por todos os grandes caciques tucanos, a começar pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e pelo governador Geraldo Alckmin.

Todos foram vencedores e saíram derrotados das prévias do partido pelos militantes anônimos que contestaram a liderança dos velhos donos da sigla.

Dos 20,5 mil filiados aptos a votar, apenas 6,2 mil compareceram, o que mostra o desânimo nos arraiais do maior partido da oposição no plano federal e o mal estar provocado pela demora de Serra em se inscrever nas prévias, depois do prazo estabelecido pelo diretório municipal.

O ex-ministro, ex-prefeito, ex-governador e duas vezes candidato derrotado à presidência da República só aceitou entrar na disputa depois que o seu principal aliado, o prefeito Gilberto Kassab, do PSD, ameaçou fechar aliança com o PT de Lula.

Sem candidatos viáveis, ao ver ameaçada a hegemonia do PSDB em São Paulo, e a sua reeleição para governador em 2014, o governador Geraldo Alckmin acabou fazendo um apelo a Serra, seu detestável aliado, para ser pela quarta vez candidato a prefeito.

Agora, quem deve estar rindo à toa é o maior adversário de Serra dentro do PSDB, o senador mineiro Aécio Neves, que já teve seu nome lançado como candidato à presidência em 2014 por Fernando Henrique Cardoso.

Ao mesmo tempo, o susto que  o ex-governador levou para ganhar as prévias por placar tão apertado (ele esperava conquistar pelo menos 80% dos votos) reanimou as candidatura dos seus principais adversários, a começar por Fernando Haddad, do PT, que também enfrenta rejeição dentro do seu próprio partido, à espera da entrada de Lula na campanha.

As prévias do PSDB, que poderiam representar a grande alavanca para a campanha de José Serra, unindo o partido, acabaram tendo o efeito oposto, deixando em aberto qualquer previsão sobre a disputa paulistana.

Mais uma vez, embora entre na campanha como favorito, Serra corre o risco de perder para ele mesmo.

 

 

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kotscho1 ok Viagem ao Brasil que não fala em crise

Com Otacílio Francisco Claro, 72 anos, no paiol do Sítio Santa Clara/Foto: Manoel Marques

MONTEIRO LOBATO (SP) _ Pelo título desta matéria, o leitor já notou certamente que não viajei para Brasília. Passei o final de semana num outro País, no chamado Brasil real, para fazer uma reportagem sobre a arte e a cultura popular paulistas que será publicada na próxima edição da revista Brasileiros.

O trabalho me levou a conhecer a família de duas brasileiras que não se queixam da vida: a figureira Maria Benedita dos Santos, a dona Lili, de 93 anos, em São José dos Campos, e a quituteira Maria Aparecida de Batista Claro, de 61 anos, em Monteiro Lobato.

Durante dois dias, não ouvi falar em crise e me diverti ouvindo as histórias de duas mulheres que ganham a vida com a sua arte. Em nenhum momento, nas longas horas que passei nas casas delas, cheias de parentes e amigos, saborosos quitutes sobre a mesa, alguém comentou qualquer coisa sobre base aliada, Lei Geral da Copa, Código Florestal, queda nos investimentos, Demóstenes Torres, Carlinhos Cachoeira, Gilmar Mendes, Ivan Sartori, prévias do PSDB e outros assuntos e personagens da semana.

Dona Lili e Maria nasceram na roça e viveram a vida toda nos mesmos lugares, no Vale do Paraíba, cercadas por famílias grandes, fogões a lenha, panelas de ferro, hortas, pomares e galinhas no quintal. Viram chegar a energia elétrica e a televisão, os telefones celulares e a internet, mas nunca mudaram suas rotinas.

Cada uma no seu ofício, ajudaram a preservar a cultura caipira. Elas acosturamara-se a viver com muito pouco, mas nunca passaram fome e em suas casas não falta nada.

"Sempre que forem lavar o rosto vão se lembrar de mim...", diverte-se dona Lili, que nas horas vagas, quando não está fazendo suas figuras de barro, vendidas por 5 reais (as maiores chegam a custar 50 reais, dez vezes menos do que o preço cobrado nas lojas), agora também borda toalhas, presenteadas aos seis filhos, 11 netos e 11 bisnetos.

Ao lado do marido Otacílio Francisco Claro, 72 anos, que cuida da lavoura, e do irmão João Batista da Silva, o Zezinho, 63 anos, seu parceiro nas panelas em barracas de comida que montam em feiras, festas e rodeios, Maria prepara o tradicional almoço de sábado para a família reunida no velho sítio às margens da estrada entre São José dos Campos e Monteiro Lobato.

Feijão tropeiro e arroz carreteiro, preparados com as mesmas receitas dos bandeirantes, passadas de uma geração a outra, não podem faltar à mesa. Do fogão a lenha saem também torresmo, frango na panela de ferro, polenta, o cardápio da São Paulo de antigamente, que sobrevive nestas terras longe do noticiário catastrófico do Brasil de Brasília e das grandes cidades. Uma boa cachacinha, claro, não pode faltar, que ninguém é de ferro.

O queijo, a linguiça, as farinhas de milho e mandioca, e até o açucar são feitos lá mesmo no Sítio Santa Clara, no Bairro dos Ferreiras, onde as pessoas só discutem por causa de futebol ou do tempo que vai fazer amanhã. Otacílio pode passar horas ao lado do tacho de cobre apurando a garapa até virar açucar, como era no tempo dos escravos. Com a raspa do tacho, oferece às visitas de sobremesa a melhor rapadura do mundo. E fica feliz com os elogios. Não precisa de mais nada na vida.

Para quem anda desanimado da vida com tudo que lê, ouve ou assiste, recomendo fazer de vez em quando esta viagem para a gente não perder o contato com a realidade de um país de gente feliz que não aparece na mídia. Faz bem à alma, aos olhos e ao paladar.

kotscho2 ok Viagem ao Brasil que não fala em crise

Foto: Manoel Marques

Em tempo: para não dizer quer não falei de problemas, a nota triste da viagem foi o pernoite na pequena Monteiro Lobato, cidade de apenas 3.800 habitantes, que homenageia um dos maiores escritores brasileiros, nascido naquela região. Me lembrou muito uma das suas primeiras obras, Cidades Mortas, publicada em 1919, retratando o cotidiano das populações pobres do Vale do Paraiba, que viveram a derrocada da produção de café.

Monteiro Lobato virou apenas um caminho de passagem em direção a Campos do Jordão, São Francisco Xavier e o sul de Minas, a estrada SP-50 com suas carretas pesadas e barulhentas passando pelo centro da cidade, que fecha suas portas às oito da noite, quando os cachorros vadios ocupam a praça principal. Fosse vivo, Monteiro Lobato poderia escrever outro belo livro sobre as Cidades Mortas em Monteiro Lobato. Isso é triste, mas a vida continua.

 

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Publicado em 22/03/12 às 11h02

Governo Dilma enfrenta vida dura

124 Comentários

dilma sarney Governo Dilma enfrenta vida dura

Caros leitores,

viajo daqui a pouco, nove da manhã de sexta-feira, para fazer uma reportagem sobre arte e cultutra popular no Vale do Paraíba para a revista Brasileiros. Volto no sábado à tarde e libero os comentários.

Bom final de semana a todos.

Abraços,

Ricardo Kotscho

***

"Nossa vida será dura daqui por diante...", comentou comigo no domingo um importante colaborador de Dilma que trabalha no Palácio do Planalto.

O amigo nem poderia imaginar o tamanho da encrenca. Ao bater de frente com a base aliada, na passagem do verão para o outono, o governo comprou a maior crise política desde a posse da presidente há 15 meses.

Já não dá mais para esconder que Dilma perdeu o controle da situação no Congresso Nacional e agora sofre uma derrota atrás da outra.

A turma de Sarney, Renan e companhia bela resolveu comprar a briga e pagar para ver, depois que o novo líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM) anunciou ter "chegado o momento de novas práticas políticas".

O dia 21 de março de 2012 certamente não será esquecido tão cedo pelos habitantes do Palácio do Planalto. Como se não tivesse a menor ideia da bomba relógio armada no Congresso, o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, começou a quarta-feira anunciando tempo bom.

Falando sobre a crise entre Executivo e Legislativo, Carvalho garantiu que "isso está superado". Avaliou que "está tudo ótimo, está tudo bem". E tranquilizou o País: "as coisas estão numa dinâmica muito normal".

Logo em seguida, o Congresso Nacional começou a desabar sobre a cabeça do governo. Sem ninguém prever, a bancada ruralista impôs a primeira derrota ao governo na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara ao transferir da União para o Congresso a responsabilidade da demarcação de terras indígenas.

Durante o dia, várias comissões da Câmara desafiaram o governo ao convocar a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, e convidar para dar explicações o ministro Guido Mantega, da Fazenda, e o presidente da Comissão de Ética Pública, Sepúlveda Pertence.

Mas o pior ainda estava por acontecer. À tarde, enquanto ministros e líderes governistas batiam cabeça, o PMDB comandou a rebelião que levou o governo a adiar mais uma vez a votação da Geral da Copa.

Está criado o impasse: o governo decidiu não votar mais nada enquanto a Lei da Cervejinha não for aprovada e a bancada ruralista, que conta com 230 dos 513 deputados, também não vota enquanto não conseguir aprovar o Código Florestal de acordo com os interesses da brigada da motoserra.

Quem vai ganhar esta queda de braço? Ao optar por conquistar apoio na sociedade, mesmo correndo o risco de perder aliados no Congresso, parece cada mais mais evidente nesta estratégia a influência do marqueteiro João Santana, hoje o principal conselheiro da presidente Dilma, enquanto Lula não é liberdado pelos médicos para voltar à política.

Até aqui, tem dado certo: após bater nos 56% de popularidade em dezembro, um recorde na série histórica da pesquisa Ibope/CNI, a presidente já tem informações de que em abril este índice deve subir, na esteira da sua decisão de acabar com o toma-lá-dá-cá nas relações do governo com a base aliada.

Em ano eleitoral, é tudo o que Dilma precisa. Até porque, fora a Lei Geral da Copa, um compromisso internacional assumido pelo governo brasileiro, não há nenhuma votação muito importante pendente no Congresso que possa afetar a vida dos brasileiros.

Se na área política o governo vive agora seu pior momento, alimentando o noticiário negativo na imprensa, a verdade é que a maioria dos brasileiros continua ao lado da presidente e apoia sua disposição para mudar o nosso viciado sistema político.

Para avaliar se estou certo nesta minha análise, nada melhor do que ouvir opinião dos leitores do Balaio. Você está do lado de quem nesta guerra: da presidente Dilma ou da turma do Sarney?

Mandem suas respostas e depois faço um balanço dos votos apurados.

E seja o que Deus quiser.

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floresta cerveja ok O que tem a ver a cerveja com a floresta?

A votação da Lei Geral da Copa, mais conhecida como a Lei da Cervejinha, que se arrasta há meses no Congresso Nacional, foi mais uma vez adiada porque a bancada ruralista agora quer colocar em pauta antes o novo Código Florestal.

Com todo respeito, o que tem a ver a liberação da venda de cerveja nos estádios durante a Copa do Brasil com a preservação das nossas florestas? Seria trágico se não fosse cômico o que está acontecendo em Brasília, a capital das lambanças federais.

O burlesco episódio serve apenas para mostrar a fragilidade da rebelada base aliada do governo, que parece ter entrado em colapso após a troca dos líderes governistas na semana passada.

Como comentou minha colega Christina Lemos no Jornal da Record News, tem bezerro estranhando vaca _ e poste mijando em cachorro, acrescento.

Estava tudo certo para que a Lei Geral da Copa fosse votada na terça-feira, transferindo para os Estados a questão da cervejinha, quando surgiram em cena os valentes ruralistas ameaçando derrotar o governo se não fosse discutido antes o Código Florestal.

Com medo de perder as duas pelejas, o governo resolveu não votar mais nada e hoje começa tudo de novo. De quebra, o governo abriu nova frente de conflito, agora com os governadores, ao transferir a responsabilidade da liberação para eles, pois 7 dos 12 Estados que sediarão a Copa têm leis próprias proibindo a venda de bebidas alcoólicas em estádios.

Podemos imaginar a confusão que vai dar quando o pessoal da Fifa for a cada um destes Estados para negociar com governadores e deputados estaduais. Já pensaram como será divertido ver o Blatter e as excelências provinciais discutindo detalhes da lei?

Se no Congresso Nacional, onde habita a nossa elite política, já tivemos este, digamos, "choque de interesses", ao levar o problema para as províncias teremos um borogodó sem fim envolvendo políticos, cervejeiros e cartolas da Fifa, todo mundo querendo tirar uma casquinha.

O petista gaúcho Tarso Genro já avisou que não vai mudar a lei estadual que proibe a venda de cerveja nos estádios e o tucano paulista Geraldo Alckmin não quer nem ouvir falar do assunto, devolvendo a bola para o governo federral. O cearense Cid Gomes, do PSB, no melhor estilo do seu irmão Ciro, já saiu atirando, chamando de "covarde" e "postura de avestruz" a decisão do governo federal.

O que não dá para entender é como se pode perder tanto tempo discutindo uma questão menor que não faz o menor sentido. Afinal, quem quer encher o caneco bebe antes e depois do jogo. O que se venderia de cerveja nos estádios é insignificante, um troco diante do oceânico consumo fora deles, diante da televisão, nas casas e nos botecos.

Trata-se, na verdade, de apenas mais uma queda de braço entre o governo Dilma e sua base (des)aliada. A turma da motosserra aproveitou a onda para ver se arruma alguma brecha legal para continuar desmatando sem medo de ser feliz.

E assim a vida segue, nos surpreendendo a cada dia. É para rir ou para chorar?

 

 

 

 

 

 

 

 

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Más notícias para José Serra, bem no dia em que o pré-candidato tucano completa 70 anos de idade.

Ex-ministro, ex-prefeito, ex-governador, duas vezes candidato a presidente, tudo indicava que  a disputa das prévias do PSDB marcadas para o próximo domingo seriam para Serra um agradável passeio, quase uma consagração..

Os números da enquete publicada nesta segunda-feira pela Folha, que ouviu 172 dos 348 dirigentes dos diretórios zonais do partido, no entanto, mostram que 36% deles não apóiam a candidatura Serra a prefeito, um índice preocupante para quem já foi tudo que foi.

Este índice é maior do que o registrado no eleitorado em geral pelo último Datafolha, em que Serra aparece com 30% de rejeição.

Querem Serra como candidato menos de dois terços dos dirigentes do PSDB (64%); 24% apóiam o secretário estadual José Anibal e 11% o deputado federal Ricardo Tripoli.

Na semana passada, Serra tinha pedido a seus seguidores que lhe garantissem uma votação de no mínimo 80% nas prévias.

O jornal deixa claro que "embora não represente a opinião de todos os filiados, o resultado da sondagem reflete a inclinação de dirigentes com papel importante na mobilização dos tucanos nas prévias".

Além disso, um em cada quatro dirigentes tucanos (24%) não acredita que ele concluirá o mandato, repetindo o que fez em 2006, quando abandonou o cargo antes de completar o seu segundo ano na prefeitura, para disputar as eleições para governador.

Para completar, 44% dos caciques municipais tucanos não confiam na aliança do PSDB com o prefeito Gilberto Kassab, que até o mês passado estava em negociações com o PT.

A surpreendente enquete não mereceu registro na primeira página do jornal.

 

 

 

 

 

 

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Lucas Se Leão deixar, Lucas pode ser campeão

Gazeta Press

Leão é um brincalhão.

"Fiz autoescola esta semana e aprendi a dirigir a Ferrari", disparou o técnico, após a soberba atuação de Lucas que levou o São Paulo à vitória de 3 a 2 contra o Santos, domingo, no Morumbi.

Em sua primeira declaração na coletiva após o jogo, ele estava mais preocupado em responder a Wagner Ribeiro, o empresário do atacante tricolor, que durante a semana havia criticado o técnico ao dizer que Lucas era uma Ferrari mal dirigida.

Depois de passar as últimas semanas criticando o ídolo da torcida, Leão deu um jeito de atribuir a ele mesmo o mérito pela decisiva participação de Lucas no melhor jogo do campeonato paulista até agora.

Se dependesse dele, na verdade, o São Paulo teria perdido mais um clássico. Quando o lateral Rodrigo Caio foi expulso logo no começo do segundo tempo, o técnico deu ordens para o time todo recuar e deixar só Luis Fabiano na frente, chamando o Santos para o ataque.

Depois, tirou o artilheiro Luis Fabiano e colocou em seu lugar o zagueiro Edson Silva para segurar o resultado de 2 a 1. Como era de se esperar, o Santos foi todo para o ataque, empatou e quase virou o jogo.

Por ironia do destino, foi Lucas quem salvou Leão no finalzinho do jogo ao marcar o gol da vitória num contra-ataque fulminante.

Em vez de procurar acertar a defesa, que continua batendo cabeça, o técnico resolveu comprar uma briga besta com o principal jogador do time e seu empresário. Leão sempre foi assim. Como gosta de aparecer, procura uma polêmica fora de campo quando as coisas não vão bem lá dentro.

Estava ele posto em sossego, muito tempo sem arrumar emprego, já praticamente aposentado, quando foi ressuscitado por Juvenal Juvêncio, o provecto presidente do São Paulo, para quem Leão deve parecer um garoto.

Se Leão deixar, e Juvêncio não atrapalhar, Lucas provou no domingo que pode ganhar seu primeiro título como profissional no São Paulo este ano.

Com Corinthians e Santos mais preocupados com a Libertadores, a disputa pelo título paulista deverá ficar mesmo entre o São Paulo e o Palmeiras de Felipão, que finalmente acertou o time e assumiu a liderança do campeonato neste fim de semana.

Pelo menos, a torcida são-paulina viu em campo, depois de muitos anos, um time com vontade de ganhar e que não faz a gente passar vergonha. Azar do Santos, que ficou longe da ponta da tabela.

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