kotscho Bons tempos, esses, caro Chico Buarque

No camarim com o artista

Do lado de fora da casa de espetáculos HSBC Brasil, em São Paulo, o clima era de festa na noite de Sexta-feira Santa. Estava todo mundo feliz por ter conseguido um ingresso. Lá dentro, assim que Chico Buarque começou a cantar, fez-se silêncio, e as 2.700 pessoas que lotavam a sala ficaram com o olhar fixo no palco como se estivessem assistindo a um concerto de música clássica.

Depois de um mês de casa cheia, em março, O Velho Francisco, título da primeira música que cantou no show, teve que marcar mais seis espetáculos extras, tamanha a procura por ingressos.

Não era para menos. Fazia tempo que Chico Buarque não se apresentava em São Paulo com músicas novas, junto com alguns clássicos do seu farto repertório.

Sobre o palco, além dele, apenas sete músicos, que pareciam formar uma orquestra: Bia Paes Leme (teclados e vocais), Chico Batera (percussão), João Rebouças (piano), Jorge Helder (contrabaixo acústico), Marcelo Bernardes (flauta e sopros) e Wilson das Neves (bateria), que cantou junto com ele Tereza da Praia.

Mais do que um show de música popular, parecia estar assistindo a uma celebração envolvendo palco e plateia _ um público formado por gentes de todas as idades e latitudes, que cantou junto com o ídolo alguns dos seus sucessos mais antigos.

Bobagem querer comparar novas e velhas músicas, se ele está melhor ou pior no seu novo show: Chico virou uma unanimidade nacional que não tem altos e baixos. Qualquer coisa que ele cante é bom, faz bem ao espírito.

Os tempos e as circunstâncias mudaram muito desde aquela noite em que ele não conseguia sair do palco após  um show no auditório da Fundação Getúlio Vargas, no começo da época brava dos anos 70 do século passado. "O que mais vocês querem de mim? Não é aqui cantando que vocês vão mudar as coisas...", foram mais ou menos estas as palavras de Chico depois de vários "bis".

Desta vez, ele também teve que retornar três vezes ao palco para dar "bis", e a plateia continuou gritando seu nome depois que ele desapareceu de vez no fundo do palco e não voltou mais.

Já de roupa trocada, passeando pelo camarim, cumprimentando um ou outro amigo, Chico circulava tranquilo e satisfeito, como se o seu time, o Polytheama, houvesse vencido mais um jogo de campeonato.

Os tempos são outros, mas parece o mesmo Chico, chamado pelos colegas de Carioca, que conheci jogando bola no Colégio Santa Cruz, dos padres canadenses, em 1959. Lembramos daquele tempo distante, enquanto lá fora a festa continuava, agora em busca do carro ou de um táxi.

Se eu for embora amanhã, vou lembrar boas lembranças desses tempos. Bons tempos, esses, tempos de Chico Buarque de Holanda.

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Neste sábado e domingo, ele ainda apresenta os últimos dois shows extras marcados para São Paulo no HSBC, às 22 horas.

Depois, a trupe de Chico vai montar a lona em Salvador e no Recife. Quem puder ir não perca esta chance de ver que um dos maiores artistas brasileiros continua em grande forma, de namorada e músicas novas, só tocando a bola no meio de campo, sem pressa.

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