Bem que a presidente Dilma Rousseff mostrava preocupação com os desdobramentos da criação da CPI do Cachoeira que foi montada pela base governista quando estava em viagem aos Estados Unidos, na semana passada.

Em nenhum momento ela incentivou esta iniciativa do PT, sobre a qual sequer foi consultada, mas agora seus assessores próximos calculam que não tem mais volta, a CPI será instalada esta semana _ e a presidente não tem muito o que fazer.

Se alguém perguntar a Dilma "o que o governo ganha com isso?", ela certamente responderá "nada" _ na melhor das hipóteses, eu acrescentaria. "A oposição tem mais a perder do que a gente", conformam-se os estrategistas do Palácio do Planalto.

Será mesmo? Tenho minhas dúvidas porque todo o noticiário deste fim de semana se empenhou em mudar o foco inicial da CPI sobre as relações entre o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) com o contraventor Carlinhos Cachoeira para os negócios da construtora Delta, a principal empreiteira do PAC.

Relatórios da Polícia Federal começaram a vazar nos últimos dias revelando que a Delta Construções S/A, que recebeu R$ 884,4 milhões do governo federal no ano passado, transferiu R$ 39 milhões para duas empresas de fachada de Carlinhos Cachoeira entre 2010 e 1011.

A inversão do foco ocorreu depois que a defesa de Demóstenes recebeu a íntegra do processo sobre a operação Monte Carlo encaminhada pelo Ministério Público ao STF e não é preciso ser nenhum grande sábio para identificar a origem dos vazamentos seletivos sobre a Delta _ até porque o senador goiano sempre teve muito boas relações com a imprensa.

Na conversa de quase três horas que tiveram na última sexta-feira em São Paulo, antes desta guinada nas denúncias, a presidente Dilma e o ex-presidente Lula, o principal articulador da CPI do Cachoeira, acertaram os ponteiros sobre como pretendem agir daqui para a frente.

Pelas diferentes posições que hoje ocupam, e até por temperamento, Lula deverá continuar no ataque, enquanto Dilma fecha a defesa para evitar novas crises com a sua base aliada no Congresso e desgastes desnecessários para o governo num momento em que a economia começa a ratear.

Mas perde seu tempo, mais uma vez, quem tentar jogar um contra o outro, aproveitando-se das diferentes visões que eles têm sobre as possíveis consequências políticas da CPI do Cachoeira. Os dois jogam juntos contra um adversário comum.

Até agora, porém, o único efeito concreto de toda a movimentação em torno da CPI foi devolver o caso do mensalão às manchetes, antes mesmo que seja marcado o início do julgamento, no sentido inverso do que pretendia o presidente do PT, Rui Falcão.

Em vídeo gravado para o partido, na semana passada, Falcão convocou a militância para usar a CPI contra o que chamou de "farsa do mensalão". Com isso, deflagrou uma contraofensiva em toda a grande mídia, jogando mais pressão sobre os ministros do STF que vão julgar o caso.

A instalação da CPI mista está marcada para esta terça-feira, mas o momento é de incertezas. Com o presidente do Senado, José Sarney, ainda internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, recuperando-se de uma angioplastia, o líder do PT, Walter Pinheiro, já admite rediscutir a CPI.

"Se mandarem os documentos do STF, e avaliarmos que o que a CPI vai apurar é o que está apurado, aí podemos rediscutir a CPI. Mas confesso que é difícil segurar agora. Podem dizer que é golpe", admite Pinheiro.

De fato, se os documentos já estão nas mãos dos advogados que defendem Demóstenes e Cachoeira, podemos perguntar por que ainda não foram encaminhados à Comissão de Ética do Senado que abriu processo contra o senador.

O fato é que, mesmo controlando todos os postos-chave das investigações, com a sua imensa maioria parlamentar, o governo e o PT correm agora o risco de ver a CPI do Cachoeira transformada em CPI da Delta, pelo menos na imprensa _ o principal alvo do partido desde que surgiram as primeiras denúncias sobre o envolvimento do senador moralista com o bicheiro.

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