Aos leitores que me criticaram, com toda razão, por ter errado nas análises sobre o vai não vai da criação da CPI do Cachoeira esta semana, poderia lembrar a velha frase de Magalhães Pinto: "Política é como nuvem. Você olha, está de um jeito. Olha de novo, já mudou".

Prefiro contar um episódio que aconteceu comigo logo depois que deixei o governo Lula, no final de 2004. Do lado de fora, entendi que estava enxergando melhor as coisas do que quando trabalhava no Palácio do Planalto.

Após um café da manhã na Granja do Torto, meti-me a fazer uma longa avaliação sobre os rumos do governo. Para minha surpresa, o então presidente não me contestou nenhuma vez, como costumava fazer, e me deixou falar até o fim, sem interromper.

"Terminou? Então só queria te dizer uma coisa. Não concordo com nada do que você falou, mas você me deu uma boa contribuição. É só fazer o contrário do que você pensa que eu acabo acertando..."

Foi mais ou menos isto o que aconteceu entre o fim de semana e a terça-feira-feira em que ampla maioria de parlamentares da base aliada e da oposição decidiu criar a CPI do Cachoeira. O que aconteceu?

Havia um clima de indefinição e incerteza, principalmente no PMDB, mas também em áreas do PT e do governo, até que, após uma série de reuniões no Hospital Sírio-Libanês, na segunda-feira, em que os ex-presidentes Lula e José Sarney receberam líderes dos dois partidos, decidiu-se que a CPI deveria ser criada. "Doa a quem doer", como resumiu o ex-presidente Lula. E choveram assinaturas de todos os lados, de um dia para outro.

Melhor assim. Se for às últimas consequências, investigando também as vinculações entre setores da imprensa e a organização criminosa de Carlinhos Cachoeira, a CPI fará um grande bem ao País, inclusive reforçando a imagem de intransigência com a corrupção cultivada pela presidente Dilma, que se manteve neutra no processo. Afinal, foi em seu governo, poderá sempre lembrar, que se criou uma CPI para levar a faxina ética aos três poderes, aos corruptores e até à imprensa.

Levado por sua intuição, Lula costuma acertar, mas também pode errar, como todos nós. Agora é ver o que acontece.

Arbítrio contra Dines

O meu mestre e amigo Alberto Dines, aos 80 anos e 60 de profissão, acaba de ser vítima de mais uma arbitrariedade dos donos da mídia.

Sem maiores explicações, os proprietários do Jornal do Comércio, de Recife, simplesmente romperam o contrato que ele mantinha com o veículo, que tinha sido renovado, com reajuste de salário, no começo do ano, para escrever um artigo semanal.

Devem não ter gostado de alguma coisa que ele escreveu, o que mostra até onde vai a liberdade de imprensa dos barões da imprensa. Se fazem isso até com o Dines, é fácil imaginar as arbitrariedades praticadas contra jornalistas que acontecem por este País afora.

Como disse o próprio demitido em texto publicado esta semana no Observatório da Imprensa:

"Enquanto fornecedor de um ‘produto’, este observador não teria o direito de espernear se um eventual comprador de seus artigos interrompesse o fornecimento. Mas a anulação do contrato que mantinha com o Jornal do Comércio do Recife para o fornecimento de um texto semanal, aos fins de semana, adquiriu tamanha semelhança com um ato censório que omiti-la seria um desserviço aos leitores crentes no compromisso democrático dos jornais brasileiros".

Em tempo: viajei hoje ao Rio de Janeiro para fazer uma série de entrevistas com os candidatos a prefeito. Por este motivo, atrasei a atualização do Balaio e a liberação dos comentários.

Até o momento em que escrevo, final da tarde de quarta-feira, não houve nenhuma manifestação da Associação Nacional dos Jornais e do Instituto Millenium, sempre tão valentes em sua defesa da liberdade de imprensa (deles), nem mesmo para prestar solidariedade a Alberto Dines.

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