RIO DE JANEIRO _ Como avisei ontem, pensei em tirar uma folga no final de semana, mas como está chovendo neste domingo carioca aproveito para contar coisas boas, que a vida não é feita só da cachoeira de denúncias assolando nosso país.

Entre os mais de cem espetáculos oferecidos pela sempre efervescente cena cultural do Rio, dei sorte de conseguir cadeiras extras no concerto em que Bibi Ferreira conta e canta os grandes momentos dos seus 70 anos de palco.

Não poderia ter escolhido melhor. Foram 80 minutos de puro encantamento ao ouvir esta grande dama do nosso teatro cantando em cinco línguas _ inglês, francês, italiano e espanhol, além é claro, do nosso português _ com um vozeirão firme, pronúncia e dicção perfeitas, aos 91 anos. 

Com um cenário que se limita ao microfone no centro do palco e cercada por uma orquestra de 27 músicos da melhor qualidade, sob a regência de Flavio Mendes, Bibi desfilou seus sucessos nos primeiros grandes musicais brasileiros, até chegar à "Gota D´Água", de Chico Buarque e Paulo Pontes, originalmente encenada no mesmo palco.

"A coisa mais bonita que eu fiz na minha vida foi feita neste teatro, que foi a Gota D´Água... foi uma coisa belíssima", escreveu ela na apresentação do espetáculo.

Sob a direção do seu velho parceiro João Falcão, Bibi passeou pelos mais diferentes gêneros musiciais e empolgou a platéia ao casar letras de sambistas históricos com a música de óperas famosas.

"No século 17, quando eu tinha 13 ou 14 anos...", brincou ela ao iniciar esta viagem pela música, já dando de barato que a idade nela é apenas um detalhe. Apesar da corisa que a incomodava, Bibi não perdeu o bom humor, capaz de fazer mossa com ela mesma, sem dar nenhuma solenidade a um momento mágico do teatro brasileiro. Bibi é dessas pessoas que trabalham se divertindo.

A emoção tomou conta da platéia, formada em sua maioria por senhoras de Copacabana, onde fica o antigo Teatro Tereza Rachel, o Terezão, agora Teatro Net Rio, quando foi exibido um vídeo  contando a batalha dos irmãos Frederico e Juliana Reder para reconstruir esta já lendária casa de espetáculos que estava abandonada.

Depois de ver e ouvir Bibi Ferreira em plena forma, com todo mundo saindo feliz do teatro, a gente até esquece dos problemas e só pensa em encontrar um bom lugar para comer e terminar a noite.

Bastou olhar para a calçada do outro lado da rua e encontrar por acaso a Adega Pérola, um dos melhores e mais antigos botecos do Rio, que eu queria muito conhecer. Como todos os outros, neste Rio de Janeiro que parece sempre em festa, estava apinhado de gente, esparamando-se pela vizinhança.

Com a ajuda de um solícito garçon, logo conseguimos uma mesa. O mais difícil foi escolher algo no caudaloso cardápio depois de ver a vitrine de acepipes ao longo de todo o balcão. Acreditem: neste boteco, até o giló é bom! Chope impecável, serviço nota dez, pessoas de bem com a vida e uma pescadinha frita na farinha de rosca que é de não esquecer.

Na mesma noite, tivemos tudo o que o Brasil tem de melhor. Que poderíamos querer mais? O Rio vale uma visita nem que seja só para ver a Bibi e petiscar na Adega Pérola.

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