greve sp Eduardo Enomoto O desafio de provar que você está vivo

Imagem: Eduardo Enomoto/R7

O aviso chegou discretamente numa mensagem eletrônica do banco, perdida entre centenas de outros e-mails absolutamente inúteis que todo dia invadem meu computador. Quase o deletei automaticamente junto com os outros...

E era muito importante, como vocês verão. "Prova de vida", alertava o título do comunicado, que me convocava a comparecer a qualquer agência do banco para demonstrar em cores e ao vivo que ainda não morri.

Nunca havia me submetido a tal prova, mas se não o fizesse em determinado prazo correria o risco de perder a minha milionária aposentadoria do INSS, depois de quase 50 anos de trabalho, que mal dá para pagar o plano de saúde da família.

Como precisava pegar dinheiro no caixa automático, juntei os documentos solicitados e aproveitei o embalo para ir à agência mais próxima, coisa que não fazia há séculos. Tenho ojeriza a banco, delegacia, repartições públicas em geral. Só costumo ir em último caso.

Tomei banho, me arrumei, olhei-me mais uma vez no espelho para ter certeza de que não decepcionaria os meus examinadores. E resolvi encarar bravamente o calor e a secura de sertão nordestino que assolam São Paulo nestes últimos dias.

Não tenho mais carro e não era o caso de pegar um táxi, fui a pé mesmo — ainda que  correndo o risco de ser atropelado na próxima esquina antes de chegar ao local do exame para comprovar minha existência.

Prestava atenção a cada passo e dava-me uns tapas na cabeça de vez em quando para me certificar de que era eu mesmo, e não apenas miragem de quem um dia já fui.

No caminho fui pensando qual seria o motivo do pedido feito pelo INSS por intermédio do banco onde depositam minha aposentadoria.

Aos 64 anos, será que estão pensando no pior e já fazem as contas de quanto vão economizar caso um dia eu venha a faltar? Devem pensar que, com o que pagam, ninguém consegue sobreviver por muito tempo.

Só me esqueci de um pequeno detalhe: os bancários tinham iniciado mais uma greve justamente nesta terça-feira, como me informavam faixas colocadas na entrada da agência.

Já que estava lá mesmo, resolvi arriscar e, para minha surpresa, a porta automática abriu. Lá dentro, apenas um segurança, duas recepcionistas e nenhum cliente.

As moças, muito solícitas, acharam graça quando lhes expliquei o motivo da minha rara visita. Olharam bem para mim, viram que não estava brincando e me apontaram a única caixa aberta no guichê: "O senhor pode fazer a prova ali com ela".

Mas o que exatamente eu deveria fazer? Será que a simpática funcionária me tiraria para dançar, mandaria fazer um quatro, pediria para assoprar um balão e provar que ainda estou respirando?

Ela me sorriu também, mostrando certa pena e, no ato, informou que o sistema estava fora do ar. Nada feito, portanto. Pois não é que ela resolveu dar uma conferida e o tal sistema funcionou?

Daí pra frente, foi moleza: bastava mostrar um documento com foto, digitar minha senha e, a partir daquele momento, eu estava oficialmente vivo, com direito a continuar recebendo os pagamentos do INSS.

Vocês podem achar que tudo isso é brincadeira, só mais uma forma de nos aporrinhar e tomar o nosso tempo, mas não é bem assim.

Em 2004, quando minha mãe morreu, munidos do atestado de óbito e de todos os documentos dela, que tinha conta conjunta com dona Mara, passamos meses pedindo ao INSS para suspender o pagamento indevido e solicitando uma forma de ressarcir o Tesouro Nacional.

Cheguei a pedir até a ajuda do então ministro da Previdência Social, Romero Jucá, mas ele mandou um assessor me dizer: "É mais fácil a mãe dele ressuscitar do que conseguirmos resolver este problema".

Minha mãe ainda não ressuscitou, mas consegui devolver o dinheiro mais alguns meses depois de ser finalmente suspenso o pagamento.

Sem a "prova de vida", fico pensando quantas famílias de aposentados já falecidos continuariam recebendo indevidamente por tempo indeterminado os pagamentos do INSS, aumentando o buraco do saco sem fundo da nossa falida Previdência Social.

Saí do banco orgulhoso pelo cumprimento do meu dever cívico e, claro, por ter sido aprovado, na certeza de que não é um fantasma quem está redigindo este texto.

Apesar de tudo, como costumo sempre dizer: vida que segue.

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