391623 10151052307506638 2072016408 n O emocionado adeus à amiga Hebe Camargo

Hebe passou a vida juntando amigos. Era amiga íntima de todo mundo, mesmo de quem só a conhecia pela televisão. Agora que a estrela da telinha virou uma estrela lá no céu, o melhor que a gente pode fazer é guardar na memória a alegria dos bons momentos que ela nos deixou.

Por isso, depois de tudo o que se falou e escreveu sobre a pioneira da TV no Brasil, logo após o anúncio da sua morte no sábado, nem pensava em falar dela nesta hora de adeus porque é difícil se conformar com a notícia de que ela realmente se foi, aos 83 anos.

O que me levou a mudar de ideia foram os depoimentos emocionados que vi na televisão na noite de domingo, unindo no mesmo sentimento famosos e anônimos, até porque Hebe Camargo sempre tratou da mesma forma carinhosa uns e outros, fazendo da vida uma festa, até nos momentos mais difíceis, que não foram poucos.

Pela cara das pessoas e na voz engasgada, na ausência de frases feitas que sempre são repetidas nestas horas e nas expressões realmente sentidas, dava para perceber que a morte da amiga de todo mundo mexeu com todo mundo.

Cada um de nós vai lembrar alguma história desta personagem única que alegrou o Brasil por mais de 60 anos.

Tenho muitas porque ela me contou toda a sua vida quando fui fazer uma reportagem especial de várias páginas, para a revista Época, então dirigida por Augusto Nunes, sobre os 50 anos da televisão brasileira, comemorados em 2000, em que ela era a personagem central.

"Pede ao Kotscho para escrever porque ele sabe mais da minha vida do que eu...", respondeu Hebe dias depois ao receber um pedido do seu amigo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que preparava um livro sobre o meio século da nossa televisão com depoimentos de quem fez esta história. Sem querer, Hebe tinha me promovido a seu biógrafo...

Ficamos amigos muito tempo antes, num episódio em que Hebe foi criticada por um padre por fazer assistencialismo, ao levar para bairros pobres da periferia caminhões com comida de uma promoção do seu programa de TV.

Nem me lembro de onde trabalhava nesta época em que ela era hostilizada nalguns meios porque tinha dado apoio a Paulo Maluf numa campanha, mas sei que escrevi uma reportagem em sua defesa. Já naquele tempo havia muita intolerância na política.

A partir daí, fui convidado várias vezes para ir ao seu programa, que era reprisado na época das férias de final de ano. Certa vez, estava num bar em Porangaba, quando um caipora olhou encafifado para mim, apontando para a imagem na TV: "Me diz uma coisa: o senhor tá lá ou tá aqui?...".

Dá para imaginar a gargalhada de Hebe quando lhe contei esta história. Foi a mesma que ela deu ao ser surpreendida por Silvio Santos em rara visita ao seu camarim, pouco antes do  programa dela entrar no ar ao vivo. O patrão queria saber: "Me diz uma coisa Hebe: o que você toma para estar sempre neste pique?".

Ao final do programa, em vez de ir para casa, Hebe seguiu direto para o Albert Einstein. Não era nada grave. "Agora vou para o hospital fazer uma lipinho (nome carinhoso que ela dava à lipoaspiração). Quer ir comigo lá, a gente vai conversando no caminho?...", convidou-me, ao deixar os estúdios da emissora, já depois da meia-noite. Entrou no hospital Albert Einstein e fez tamanha festa na portaria que parecia estar chegando a um baile.

Sempre no pique de quem está começando o dia, Hebe não tinha tempo para guardar rancor. Quando outra amiga minha, Luiza Erundina, era prefeita de São Paulo, as duas tiveram um desentendimento. Botei as duas para falar ao telefone e, em poucos minutos, fizeram as pazes.

O que nunca lhe faltava era tempo para cuidar dos amigos. Anos atrás, quando eu ainda morava numa casa no Butantã, fui atacado por um enxame de abelhas e tive um choque anafilático. Ao saber da notícia, enquanto eu ainda estava no hospital, Hebe foi uma das primeiras pessoas a ligar para minha mulher, muito preocupada.

Cada história que a gente lembra puxa outra, e esta era uma das coisas que ela mais gostava de fazer nas "pizzadas" na casa do Faustão, seu vizinho, no Morumbi, onde sempre encontrava Nair Bello e Lolita Rodrigues, amigas de toda a vida: contar histórias engraçadas, dessas de fazer o outro engasgar. Nem velórios escapavam.

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