rede ok Enfim, alguns dias de trégua no feriadão

Após três meses de muita tensão e intolerância no ar, com a campanha eleitoral correndo simultaneamente ao julgamento do mensalão, teremos, enfim, alguns dias de trégua para refletir com calma sobre o que aconteceu no País. Os leitores e os jornalistas agradecem.

Com o julgamento no STF suspenso enquanto o ministro Joaquim Barbosa, relator do mensalão, está em tratamento de saúde na Alemanha, e os prefeitos eleitos saindo de cena para um merecido descanso, nós também poderíamos aproveitar para pensar qual é mesmo o sentido das nossas vidas longe das manchetes.

Outubro termina com o furacão que atingiu a Costa Leste americana dominando o noticiário, como se a cada dia estivéssemos mais próximos do fim do mundo anunciado para dezembro.

Percebo pelas conversas com os amigos que existe um abismo cada vez maior entre aquilo que nós, jornalistas, achamos assuntos importantes para tratar nas nossas matérias, ou seja, a eterna disputa pelo poder, e os interesses da vida real dos nossos leitores, que falam do calor, do trânsito, do futebol, da novela, do novo regime de emagrecer, de quem está comendo quem e de onde pretendem passar o próximo feriadão.

Estes dois mundos raramente se cruzam nos diferentes ambientes, sejam eles familiares, no bar da esquina ou no supermercado. A impressão que tenho, e não é de agora, é que se criou um mundo à parte dos donos do poder e o dos cidadãos comuns, com os jornalistas no meio, tentando fazer a ponte entre eles, muitas vezes falando para ninguém.

O alto índice de abstenções e dos que foram às urnas mas não votaram em ninguém no último domingo, que chegou a 30% em São Paulo, pode sinalizar um distanciamento cada vez maior destes dois mundos. Partidos políticos e meios de comunicação já não representam nem retratam as mudanças do País real que se constrói longe dos gabinetes.

É por isso que crescem sem parar as redes sociais, em que todos são ao mesmo tempo geradores e receptores de informações customizadas, emitindo suas próprias opiniões e não aceitando mais o prato feito dos políticos e da imprensa tradicional, o que é muito bom.

De outro lado, tudo virou um imenso Fla-Flu, com as torcidas uniformizadas repetindo velhos refrões na defesa dos seus times e no ataque aos adversários. Nada disso, porém, nos ajuda a pagar as contas no fim do mês e a enxergar tempos mais serenos no horizonte, ao contrário.

Escrevendo praticamente todos os dias nos últimos 50 anos, e trabalhando ainda em três empregos, por vezes sinto falta do silêncio e da solidão que nos ajuda a encontrar novos caminhos menos congestionados e mais prazerosos, em que as palavras sejam um alento e não instrumento da desesperança.

Sempre é tempo. Vamos então aproveitar estes raros dias de trégua para refrescar a cabeça e, se possível, alimentar a alma de coisas novas e boas.

Na semana que vem, começa tudo de novo. Vida que segue.

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