garrincha O último jogo da vida torta de Mané Garrincha

Por culpa de Mino Carta, o grande criador de publicações da imprensa brasileira, que estava prestes a lançar o "Jornal da República", no começo de 1979, acabei sendo testemunha do último jogo de Mané Garrincha, um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro, que morreu aos 49 anos, em 1983. Trinta anos depois, a lenda sobrevive.

Numa reunião de pauta, Mino me encarregou de achar Garrincha, que vivia no ostracismo, dependendo da ajuda de amigos para sobreviver. Mino queria uma reportagem exclusiva para o número 1 do "Jornal da República" - e lá fui eu atrás do Mané.

Na matéria de capa, sob o título "A vida torta de Mané Garrincha", contei como o encontrei:

Sem muitas esperanças de falar com ele _ "O Mané não está dizendo coisa com coisa", me desanimaram no Rio _ fui encontrá-lo na colônia de férias do Ministério da Fazenda, em Paulo de Frontin, pequena cidade serrana.

Antes que lhe fizesse qualquer pergunta, a caminho do imenso salão de refeições da colônia, onde passamos sentados o restante da tarde, recolhendo fragmentos da sua vida, Garrincha foi logo dizendo: "Agora, não tenho mais nada, gente boa. Mas passei um susto danado. Foi aquela maldita pimenta... Eu estava pensando que era herói, comendo uma danada de uma pimenta... Não sou herói mais não..."

Para me provar que estava curado, contra todas as evidências, pois mal conseguia andar em linha reta, Garrincha garantiu que, já no domingo seguinte, iria voltar a campo com a equipe do Milionários FC, formada por antigos ídolos do futebol brasileiro, que ganhavam alguns trocados jogando contra times de várzea nos fins de semana.

Achei que ele estava delirando quando me desafiou a encontrá-lo no sábado, em frente ao hotel Danúbio, em São Paulo, onde os jogadores pegariam o ônibus para Presidente Prudente. Pois não é que na hora marcada ele apareceu mesmo, sacolinha de atleta na mão, cheio de alegria por reencontrar os amigos? "Não te falei que vinha, gente boa?".

Como Garrincha conseguiu sair da colônia, onde haviam montado um verdadeiro cordão sanitário para cuidar dele, até hoje não sei. Sei apenas que, mesmo tendo tomado alguns conhaques no caminho, no dia seguinte ele entrou em campo _ e também na capa do "Jornal da República", com uma foto de Solano José e um breve texto, ao lado da reportagem que eu havia deixado pronta antes de viajar.

PIRAPOZINHO, 26 - URGENTE _ Apareceu aqui hoje, nas barrancas do Paranapanema, um cidadão de nome Manuel Francisco dos Santos, dizendo-se Mané Garincha. A notícia de sua presença colocou em polvorosa esta pequena cidade de 30 mil habitantes. "Mas ele não está doente no Rio?", perguntavam as pessoas. Hospedou-se na pensão do Morais, junto com a equipe do Milionários FC. Ganhou buquês de flores, placa de prata e beijos de moças bonitas, no Estádio Municvipal.

O juiz apita, Garrincha com a bola. O lateral esquerdo Antonio Carlos, 25 anos, o "Bunda Baixa", vai em cima dele. Garrincha faz que vai, mas não vai, a torcida dá risada. Era ele mesmo, Mané Garrincha em pessoa, não havia mais dúvidas. Viajou 1100 quilômetros, oito horas e meia de ônibus, para jogar 45 minutos e ganhar 6 mil cruzeiros de cachê. Saiu de campo suado, sujo e feliz".

Não há registro de que Garrincha tenha voltado a entrar em campo alguma outra vez depois desta passagem por Pirapozinho.

(*) Informações tiradas do meu livro de memórias "Do Golpe ao Planalto - Uma vida de repórter", da Companhia das Letras.

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