metro Uma  semana vendo o Rio virar outra cidade

As obras começam na entrada pela avenida Brasil e só terminam na saída da cidade nos acessos à Rio-Santos como se fossem uma só.

Aqui só se fala em Copa e Olimpíada, os dois grandes eventos programados para 2014 e 2016, para justificar a verdadeira revolução urbana pela qual está passando o Rio de Janeiro.

Um paulista como eu, que faz algum tempo não vinha aqui, fica perdido. Passei a última semana trabalhando no Rio e vendo a cada dia a antiga Cidade Maravilhosa virar outra cidade.

Nem meu colega Domingos Fraga, daqueles cariocas da gema, como se dizia, que está há 23 anos em São Paulo, conseguiu acreditar no que via quando saímos da zona sul em direção à Barra, o nome genérico dos muitos bairros que foram se espalhando ao longo da avenida das Américas e dali para a frente.

Mistura de Miami e Brasília, com suas avenidas largas, shoppings, palácios verticais suntuosos, varandas magníficas e condomínios pipocando a granel, convivendo com paisagens de subúrbio paraguaio, a Barra nada tem a ver com o velho Rio de Janeiro para onde fui pela primeira vez em 1967, também a trabalho, na cobertura da inauguração da segunda pista da Via Dutra para o "Estadão".

Fiquei tão encantado com a cidade, que não queria mais voltar para São Paulo. Cheguei a consultar o jornal sobre uma transferência para a sucursal carioca, mas até hoje não consegui realizar meu sonho de um dia morar no Rio.

Com as obras que se espalham por toda parte, qualquer que seja a alternativa escolhida para fazer a travessia, ficou ainda mais difícil ir de uma cidade a outra, apesar dos altos investimentos em transportes coletivos, túneis e viadutos.

Tornaram-se cidades completamente diferentes, até nos usos e costumes dos seus habitantes. No velho Rio, ainda dá para cuidar de boa parte das coisas da vida a pé, enquanto na Barra você precisa de carro até para ir à padaria ou comprar jornal.

No caminho, dá para ver os esqueletos dos Jogos Panamericanos, o Estádio de Natação Maria Lemke fechado pelo jeito para sempre e os prédios da vila dos atletas completamente abandonados e, logo adiante, enormes placas anunciando novas obras para as Olimpíadas de 2016.

Em ritmo alucinado, a paisagem vai mudando e, no meio de tudo, tropeça-se no enorme elefante branco de concreto da Cidade da Música de Cesar Maia. Rebatizada de Cidade das Artes, a obra foi provisoriamente inaugurada dias atrás ainda inacabada, perdida em meio a terminais de ônibus, viadutos e pistas de alta velocidade.

Segundo levantamento publicado neste domingo pelo jornal "O Globo", 18.090 unidades residenciais foram licenciadas pela Secretarisa Municipal de Urbanismo na Barra da Tijuca somente no ano passado _ mais do que o dobro das 8.862 licenças concedidas em 2011. Até o final de 2015, 14 novos hotéis deverão ser inaugurados, com 3720 novos aposentos.

O Instituto Pereira Passos mediu o tamanho deste crescimento em relação ao velho Rio. Enquanto a Barra deve ter um crescimento populacional de 21,4%, chegando a 990.288 habitantes, o Rio pelo qual me apaixonei quase meio século atrás crescerá apenas 3,73%. E o metrô ainda não chegou à Barra, que hoje já enfrenta sérios problemas ambientais pela falta de saneamento basico na maioria das áreas habitadas, provocando a poluição de praias e lagoas. É o preço do progresso....

Apesar de tudo, neste dia de São Sebastião, padroeiro da cidade, viva o Rio! O único lugar do mundo onde até mulher feia acaba parecendo bonita e as praias ficam lotadas de gente feliz em plena sexta-feira.

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