O grande sonho da vida de um velho amigo meu era sair do aluguel e morar em casa própria. Já depois de ter passado dos 60, e trabalhando em três empregos, conseguiu comprar o apartamento no prédio que ele e sua mulher cobiçavam há tempos, no lugar em que pretendiam passar o resto de seus dias.

O apartamento estava detonado, mas o casal se dedicou de corpo e alma para reformá-lo do jeito que os dois queriam, escolhendo os materiais e caprichando em cada detalhe. Seis meses depois, mudaram-se para o lar doce lar.

Não demorou muito tempo, começou também uma "reforma da fachada" planejada há tempos pelo condomínio. "Vai valorizar muito o imóvel", garantiram-lhe os integrantes da "comissão de obras" montada especialmente para este fim.

Faz quase três anos, e a obra ainda não terminou. "O estádio do Corinthians vai ficar pronto antes", ironizam os vizinhos dele, como se as vítimas não fossem elas próprias, entregues indefesas ao barulho, à poeria e a toda sujeira da interminável obra.

Como não acreditei no que ele me contava sobre a sua odisséia a cada vez que o encontrava, convidou-me a passar um dia em seu apartamento. Além da reforma da fachada, havia também uma obra no andar de cima.

Saí de lá quase surdo, com um zumbido no ouvido, sem parar de tossir. Espalhado pelo prédio, havia todo um arsenal de  britadeiras, maquitas, furadeiras, marretas, serras elétricas de todo tipo, um cenário de pós-guerra no Oriente Médio.

Só então entendi porque o amigo andava tão deprimido, cansado, reclamando que não suportava mais aquilo. Era, de fato, desumano, principalmente para alguém como ele, que agora passava a maior parte do tempo trabalhando em casa.

Não conseguia mais dormir direito, mal se alimentava e estava cada vez mais difícil escrever os textos  do seu ofício, que antes fluíam com a maior facilidade. Já tinha passado por vários médicos, psiquiatras e

http://r7.com/oYoj