dilma g A solidão é o maior problema do governo Dilma

Pelo que posso notar daqui de longe e conversando com amigos que trabalham no Palácio do Planalto, o maior problema do governo Dilma, fora todos os outros, é a solidão. Desde que tomou posse, faz dois anos e meio, a presidente segue rigorosamente o ritual do cargo, cumpre a agenda sem se sujeitar a imprevistos ou a arriscadas iniciativas, cercada por pouca gente, subordinados que a tratam como a chefe poderosa, com uma reverência que vai além das normas hierárquicas.

De outro lado, a presidente convive desde o início com uma imensa base aliada que se alimenta da desconfiança mútua e lhe causa mais problemas do que a própria oposição. Ao manter uma solene distância dos setores da sociedade civil que habita o Brasil real, com quem Dilma poderia abrir seu coração, além do ex-presidente Lula e de raros ministros, como o velho amigo Fernando Pimentel e o novo amigo Aloizio Mercadante, os poucos que se arriscam a falar em nome do governo e até a divergir dela?

O desabafo da presidente ao final de um evento na quarta-feira, no Palácio do Planalto, no lançamento do programa Minha Casa Melhor, é sintomático de alguém que não se conforma com as críticas, que atribui a pessimistas comparados ao "Velho do Restelo", personagem de "Os Lusíadas", de Luís Camões: se tudo vai tão bem no Brasil, na sua própria avaliação, com a inflação e as contas públicas sob controle, porque essa gente só fala de coisas negativas sobre a condução da economia?

Pois não se trata de ser otimista ou pessimista, mas ver os fatos como os fatos são e não brigar com eles. Da minha parte, sempre procuro ser otimista tentando descobrir notícias boas para comentar aqui e não estragar o humor dos leitores, mas no mesmo dia em que a presidente criticou a "leviandade política" dos críticos, o dólar voltou a subir e a Bolsa a cair, dois indicadores econômicos a sugerir que as coisas não vão tão bem como ela gostaria.

Atribuir as dificuldades pelas quais está passando a condução da economia apenas à crise externa, à má vontade da grande imprensa, que é real mas não é de agora, e à propaganda  negativa da oposição baseada na alta da inflação, não resolve o problema. De uns tempos para cá, os ventos mudaram e sente-se no ar um clima difuso de mal estar e falta de confiança nos rumos do país, que atinge principalmente os investidores, personagens vitais para a retomada do crescimento.

Certamente não é por outro motivo que os principais candidatos da oposição, o senador tucano Aécio Neves e o governador Eduardo Campos, do PSB, velho aliado do governo petista, priorizam contatos com os maiores agentes econômicos e financeiros em suas pré-campanhas.

Dilma continua dando prioridade absoluta às classes mais pobres, onde se encontra a grande maioria do eleitorado, mas não se deve esquecer que, se os grandes empresários e as classes médias tradicionais não têm muitos votos (nas últimas eleições em São Paulo, elegeram apenas um vereador, Andrea Matarazzo, que, aliás, vai ser o chefe da campanha de Aécio Neves no Estado) são eles que podem dar ou não as condições econômicas para se manter os atuais níveis de renda e de emprego, principais trunfos do governo na campanha pela reeleição.

Sabe-se que é deles e dos setores financeiros inconformados com o corte nos juros e nas tarifas de energia, entre outras, que partem as maiores pressões pela substituição de Guido Mantega no Ministério da Fazenda, mas outro fato real é que Dilma o mantém no posto não só por birra ou pela simpatia que tem pelo ministro, mas também porque não é fácil a esta altura encontrar um substituto.

Vamos ser francos: quem temos no mercado para oferecer a Dilma que possa exercer o papel de Henrique Meirelles, o ex-presidente do Banco Central, pau da barraca da política econômica dos governos Lula, ainda outro dia lembrado pelo ex-presidente? Na verdade, quem acumula esta função hoje é a própria presidente Dilma, obrigada pelas circunstâncias e também pelo seu estilo centralizador, a ser ela própria a formuladora tanto da política econômica como da articulação política no Congresso, exatamente pela solidão que vive no governo.

Dilma precisa urgentemente sair do círculo de ferro em que está e se encontrar mais com representantes de diferentes setores da sociedade, viajando pelo país não só para inaugurar e anunciar obras e, sem a solenidade que paira nos encontros palacianos, ouvi-los sobre a realidade em que vivem e discutir propostas para o futuro para resgatar a credibilidade nos rumos e objetivos do seu governo.

Enquanto tudo ia muito bem e as pesquisas de popularidade e intenção de votos da presidente batiam recordes sobre recordes, o marqueteiro João Santana foi ocupando o vazio deixado pelos ministros da articulação política e ganhando cada vez mais os ouvidos da presidente nas principais decisões do governo. Foram importantes os pacotes de bondades anunciados para as classes C. D e E, bem explorados em comerciais e redes nacionais de televisão, mas a fórmula parece já não ser suficiente, como mostraram as pesquisas mais recentes do Datafolha e do Ibope, com seus índices em queda.

Para discutir o que fazer, após o evento no salão nobre do Palácio do Planalto na quarta-feira, Dilma chamou a seu gabinete os mesmos ministros de sempre e, claro, o onipresente marqueteiro João Santana para discutir se deve fazer mais um pronunciamento em rede de televisão sobre o programa que acabara de anunciar. Como informa Vera Magalhães, no Painel da "Folha" desta quinta-feira, Dilma foi aconselhada nesta reunião a cancelar uma viagem que faria hoje ao Rio e ir para o Paraná "tomar uma injeção de Lula" num encontro do PT.

Seria bom, por exemplo, que ela aproveitasse esta viagem para encontrar também outras pessoas e deixa-las à vontade para falar como estão vendo o Brasil neste momento e o que poderia ser corrigido nos rumos do governo. Se me permitem a ousadia, gostaria de dar um conselho á minha amiga Dilma: conversar mais, com mais gente, ouvir mais e se aborrecer menos com as críticas.

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