Quem melhor resumiu os acontecimentos da noite de quinta-feira (13), que mais uma vez transformaram o centro de São Paulo numa praça de guerra, foi o prefeito Fernando Haddad:

"Na terça, eu penso que a imagem da violência que ficou foi a da violência dos manifestantes. Infelizmente, hoje, não resta dúvida que a imagem que ficou foi a da violência policial".

cavalaria Ação da PM foi de vingança contra a população

É exatamente o que eu penso que aconteceu, depois de acompanhar por horas ao vivo na televisão esta última manifestação contra o aumento de 20 centavos (de R$ 3 para R$ 3,20) nas passagens dos ônibus da cidade: a PM já chegou chegando, com todo aparato bélico a que tem direito, batendo e atirando para todo lado, disposta a se vingar dos atos de vandalismo e agressões a alguns policiais praticados durante a manifestação da última terça-feira.

O grande problema é que a violência policial não se limitou a conter o protesto dos estudantes, mas atingiu indiscriminadamente a população paulistana que passava elas ruas a caminho de casa ou do trabalho ou tomando sua cervejinha num bar. Na fúria policial deliberadamente desencadeada para mostrar quem manda na cidade, sobrou para todo mundo.

Quando a Tropa de Choque armada até os dentes se perfilou no começo da rua da Consolação, por volta das 7 da noite,  para impedir que os manifestantes seguissem em direção à avenida Paulista, foi a senha para que o caos se instalasse na cidade, atingindo quem estava em carros e ônibus, e espalhando a baderna pelas ruas vizinhas. Estava na cara de ódio dos policiais que eles tinham carta branca para retomar o controle de segurança da cidade a qualquer preço.

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Se no primeiro texto do Balaio sobre os confrontos perguntei quem estava por trás de todos aqueles atos de vandalismo dos que protestavam contra o aumento dos ônibus, agora cabe perguntar quem deu a ordem para que a Polícia Militar agisse com tamanha violência contra qualquer pessoa não fardada que encontrasse pela frente.

O governador Geraldo Alckmin, que tinha acabado de voltar de Paris e passou o dia na Baixada Santista, limitou-se a postar mensagens nas redes sociais repetindo que a PM "não vai tolerar depredação, violência e obstrução das vias públicas" (e ainda encontrou tempo para cumprimentar a população de Guaratinguetá pelos 383 anos da cidade).

Nada disso, porém, havia ainda acontecido quando a Tropa de Choque entrou em ação, com bombas de gás lacrimogêneo, cassetetes e balas de borracha. O secretário da Segurança, Fernando Grella Vieira, que não foi visto na manifestação, comentou placidamente que  a polícia agiu para "garantir a ordem", quando todos vimos que foi a própria polícia que deu início à desordem que avançou noite adentro.

A primeira função da polícia é garantir a segurança dos cidadãos; a segunda, proteger o patrimônio público e privado e, a terceira, combater crimes como atos de vandalismo, utilizando a força necessária. Desta vez, a PM fez o contrário disso: provocou a insegurança geral e deixou no caminho um rastro de violência com 105 feridos, entre eles, dezenas de jornalistas, sete deles da Folha. Como sabiam que estavam agindo fora da lei, não queriam que ninguém registrasse o que eles estavam fazendo, e repórteres e profissionais de imagem acabaram sendo os principais alvos.

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Depois do estrago, o secretário Grella prometeu "apurar o ocorrido. Isso é  inadmissível. Se ficar comprovado, vai haver responsabilização". Nem é preciso abrir rigorosos inquéritos que nunca dão em nada: basta pegar as imagens não confiscadas produzidas pelos próprios profissionais agredidos e tudo o que foi para o ar nas emissoras de televisão na noite de quinta-feira.

A próxima manifestação já está marcada para segunda-feira, às 17h, em frente à estação Faria Lima do Metrô. Há tempo mais do que suficiente para que as autoridades de segurança do Estado, desta vez, planejem seu trabalho com mais inteligência e menos armas e truculência, para evitar novas vítimas e prejuízos para a cidade, tirando de circulação os policiais que participaram deste grande ato de vingança contra a população indefesa.

Se o Movimento Passe Livre, que organiza as manifestações, já admitiu na terça-feira que perdeu o controle sobre os revoltosos, o mesmo não pode acontecer ao governo em relação aos seus policiais. Ou vai acontecer, como o Elio Gaspari escreveu hoje, mais "um conflito dos canibais com os antropófagos".

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