Em tempo (atualização às15H14): a rodovia de acesso ao Guarujá e ao porto de Santos (ver abaixo) foi liberada no começo da tarde pela Polícia Militar, segundo a Agência Estado.

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Com os líderes do Movimento Passe Livre, os 27 governadores e os 26 prefeitos de capitais em Brasília aguardando reuniões com a presidente Dilma Rousseff nesta segunda-feira, os protestos ganharam vida própria e continuam pipocando por todo o país, com os fatos se sucedendo cada vez em maior velocidade, o que já me levou três vezes a recomeçar este texto, sem ter a menor ideia de como estarão as coisas quando for publicado.

Logo cedo, em Luiziânia, bem perto de Brasília, duas mulheres morreram atropeladas durante uma manifestação na BR-251, rodovia que liga a cidade ao Distrito Federal. O motorista de um Fiat Uno atropelou as mulheres e fugiu sem socorrer as vítimas. Não se sabe ainda o motivo do protesto, que reuniu cerca de 400 pessoas, nem quem o organizou. O carro do atropelador foi incendiado e o trânsito na estrada ficou congestionado.

 Governo chega tarde: protestos ganham vida própria

No mesmo horário, 7h30 da manhã, cerca de 100 manifestantes fecharam a rodovia Cônego Domênico Rangoni, que dá acesso ao porto de Santos. Em consequência, o tráfego ficou congestionado também nas rodovias Anchieta e Padre Manoel da Nóbrega, no litoral sul de São Paulo. Antes do meio dia, outras rodovias foram fechadas em Minas Gerais e no Maranhão.

A impressão que se tem é que as autoridades de todos os níveis começaram a discutir medidas de prevenção de incêndio numa casa que está pegando fogo há mais de duas semanas. Ficaram tanto tempo ilhadas em seus gabinetes, afastadas da interlocução com o movimento social e o empresariado, que agora não sabem nem por onde começar a conversa e que medidas tomar primeiro.

Os líderes do MPL, que deram início aos protestos em São Paulo, deixaram o comando do movimento e depois voltaram atrás, anunciaram que vão insistir com a bandeira do passe livre no encontro com Dilma, mas os prefeitos das capitais já anunciaram que não têm mais recursos para investimentos que possam melhorar os serviços públicos.

Cada governador tem um pedido a fazer à presidente, mas o governo federal também já avisou que não tem mais como atender às demandas dos Estados. O governador de Minas, Antônio Anastasia, aliado de Aécio Neves, vai pedir a Dilma para "acelerar a retomada dos investimentos", a começar pelo metrô de Belo Horizonte. "De minha parte, vou apresentar a ela a situação de dificuldades em que se encontram os Estados", disse Anastasia, que se mostrou disposto a colaborar com a presidente.

Na verdade, tanto a União, como os Estados e Municípios, todos sofrem os efeitos da crise econômica, que se agravou este ano com o aumento da inflação e o baixo crescimento da economia, ou seja, falta dinheiro para atender a todas as demandas feitas nas manifestações, a que a presidente Dilma prometeu atender em seu pronunciamento de sexta-feira. Mas de onde virão os recursos? Quem tem a saída mágica?

As reuniões de hoje no Palácio do Planalto correm o risco de se transformar numa grande terapia de grupo, uma choradeira geral em que todo mundo se queixa e ninguém tem a solução, ou melhor, dinheiro para sair desta encruzilhada federal do povo nas ruas exigindo seus direitos em protestos cada vez maiores e mais violentos na semana passada.

RADIAL Governo chega tarde: protestos ganham vida própria

De alto a baixo, o fato é que todos os governos demoraram demais para perceber a mudança dos ventos e do humor das populações urbanas, sufocadas pela deterioração dos serviços públicos, que transformaram a vida nas cidades numa permanente gincana pela sobrevivência. Temo que tenham acordado tarde demais, como constata o senador petista Lindbergh Farias, pré-candidato a governador do Rio, numa corajosa autocrítica, em entrevista a Fernando Rodrigues, publicada hoje na "Folha".

"Partido virou coisa de eleição (...), deixou de ser instrumento de mobilização das ruas (...) Houve um afastamento principalmente desse contato com a juventude. (...). Um descolamento de todos os governos de uma realidade e da vida das pessoas (...) Tem que sentir mais a realidade. Por exemplo, obras da Copa lá no Rio de Janeiro. Metrô de Ipanema para a Barra? Qual é o legado? O que o povo acha? Estão fazendo obras para os turistas".

Ao final da entrevista, Lindbergh, ex-presidente da UNE, que liderou os caras-pintadas no movimento "Fora Collor", em 1992, faz uma advertência:

"Quem chegar a reboque nessas manifestações não vai ser bem recebido. O movimento surgiu sem apoio dos partidos e das entidades. Acho que os partidos e entidades têm que ter cautela. Quem chegar agora, querendo surfar na onda, será repreendido pelo movimento. Eles estão fortes".

Só hoje, por exemplo duas entidades que sempre tiveram papel importante como mediadores nos grandes movimentos populares, resolveram entrar na história: a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançaram uma campanha de coleta de assinaturas para pressionar o Congresso a votar pelo menos parte das reivindicações feitas durante os protestos das últimas semanas. Até os presidentes da Câmara e do Senado já haviam anunciado, na semana passada, que pretendem fazer isso com urgência.

Enquanto não saem os resultados das reuniões no Palácio do Planalto, novos atos de protesto já foram marcados em diferentes pontos do país para esta semana. Em São Paulo, o MPL marcou para amanhã manifestações na periferia da zona sul contra a violência policial e pedindo melhorias na educação e na saúde. Duas siglas que surgiram nos últimos dias, o Pátria Minha e a Organização contra a Corrupção (OCC), vão à avenida Paulista na quarta-feira contra a PEC 37 e a impunidade.

As agendas e as pautas dos protestos ficaram tão amplas que fica difícil conseguir acompanhar todos os protestos. De uma hora para outra, pode mudar tudo de novo. Pelo jeito, a única coisa certa é que tão cedo este povo, que saiu do facebook para as ruas, não voltará para suas casas.

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