papa pl Jovens católicos gostam de Francisco, mas não da igreja

Aproximar a sua figura simples e simpática, preocupada com os mais pobres, da instituição igreja Católica, com seus luxos e dogmas ultrapassados, é o grande desafio do carismático papa Francisco que chega na tarde desta segunda-feira ao Brasil para comandar a Jornada Mundial da Juventude.

Duas pesquisas publicadas pela Folha nos últimos dias mostram o tamanho deste desafio. Os papados de João Paulo 2º e de Bento 16, que imprimiram uma forte guinada conservadora à igreja, fizeram grande parte do rebanho católico migrar para outras religiões, como mostra pesquisa Datafolha publicada no final de semana. A igreja Católica, que chegou a representar três quartos da população brasileira em 1994, caiu para o nível mais baixo da sua história. Em apenas 20 anos, este contingente de católicos brasileiros com mais de 16 anos baixou para 57%, enquanto os pentecostais já atingem 19%.

Esta queda é explicada por outra pesquisa publicada hoje pelo jornal mostrando o abismo existente entre o que a Igreja prega e o que seus fiéis pensam. Números da pesquisa do Ibope encomendada pelo grupo Católicas pelo Direito de Decidir, revelam que, em questões como o uso da pílula no dia seguinte (aprovada por 82% dos jovens católicos), a criminalização do aborto (condenada por 62% dos jovens entre 16 e 29 anos) e o apoio de 56% ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, há um extenso cardápio de temas para Francisco enfrentar se quiser recuperar os fiéis desgarrados, especialmente a parcela da juventude que clama por mudanças.

"Há uma defasagem enorme entre o que pensam e praticam os fiéis e as normas da instituição, especialmente no que se refere à moral sexual", explica a socióloga Maria José Rosado, coordenadora do grupo que encomendou a pesquisa ao Ibope. Exemplos: 90% pedem a punição dos religiosos pedófilos, 72% aprovam o fim do celibato e 62%, a ordenação de mulheres _ três temas-tabus sobre os quais até outro dia a igreja não queria nem ouvir falar.

Maria José Rosado conclui: "A multidão de jovens que participará da Jornada Mundial da Juventude sinaliza que vai atrás de um líder carismático, como o papa Francisco, mas não segue a mensagem da igreja".

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Mais otimista, o dominicano Frei Betto acredita que Francisco poderá, sim, promover as mudanças clamadas pela maioria dos fiéis que ainda permanecem na igreja. "Os católicos poderão concluir se Francisco será um papa avançado como João 23, moderado como Paulo 6º ou conservador como João Paulo 2º e Bento 16". Betto confia na primeira hipótese, assim como outros religiosos progressistas, a exemplo do franciscano Leonardo Boff, que lideraram a Teologia da Libertação no Brasil e foram progressivamente sendo esvaziados e punidos pelo Vaticano.

Ao final de um artigo sobre a visita do papa, Frei Betto chega a fazer uma previsão: "Frente a uma manifestação, não haverei de estranhar se o papa Francisco, homem nada afeito a protocolos, romper o cerco policial para cumprimentar os jovens. Afinal, eles são a razão da sua viagem. E neles reside o futuro da igreja católica, hoje abalada por escândalos sexuais e financeiros; pela insistência numa moral sexual anacrônica, como a proibição do uso de preservativo; e pela evasão de sacerdotes e fiéis em busca de uma espiritualidade mais amorosa e de uma religião menos clerical e autocrática".

De hoje até o próximo domingo, no encerramento da Jornada Mundial da Juventude, quando o líder católico fará o último dos seus dez discursos, poderemos ter uma ideia dos caminhos que o papa Francisco e a sua contestada igreja poderão trilhar nos próximos anos.

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