O almoço no Carlino, o restaurante mais antigo da cidade, aberto em 1881, estava marcado para a uma da tarde, mas resolvi sair de casa mais cedo pois faz muito tempo que não ia ao velho centro, queria matar as saudades. Minha tristeza com o que vi, porém, começou assim que desci do táxi, na rua Xavier de Toledo, em frente à Biblioteca Municipal Mário de Andrade.

Trabalhei por longos anos nesta região da cidade, quando o "Estadão" ficava na rua Major Quedinho, esquina com a Consolação, onde hoje funciona um grande hotel. A primeira visão da 7 de abril, que era uma das ruas mais chiques da cidade, onde ficavam os Diários Associados e o Masp (Museu de Arte de São Paulo), foi assustadora.

Alguns prédios abandonados, outros ocupados parcialmente por lanchonetes e pelo comércio popular, todos eles pichados de alto a baixo, pessoas humildes e outras de terno, todas de cabeça baixa olhando para o chão onde pisam com muito cuidado: as armadilhas estão por toda parte.

Não sei quem é responsável pela conservação das calçadas, se os proprietários dos imóveis ou a prefeitura, mas o fato é que ninguém cuida delas em parte alguma. Os cidadãos e o poder público parece que desistiram de zelar pelas ruas, tal a sujeira espalhada por todos os cantos, como se a cidade não tivesse dono e cada um pudesse fazer o que quiser porque ninguém vai reclamar.

É inútil e injusto querer culpar o atual prefeito ou os que vieram antes dele por este cenário desolador para quem nasceu aqui. Mesmo que a prefeitura espalhasse mais milhares de lixeiras pelas ruas e fizesse um baita  mutirão para promover uma faxina geral, pintar os prédios pichados e consertar as calçadas, em pouco tempo voltaria tudo ao que era antes por um motivo muito simples: parece que os que aqui moram e trabalham não têm amor pela maior cidade do País, como se fosse apenas um lugar de passagem, um entreposto comercial como foi nas suas origens.

Já faz parte da rotina o paulistano falar mal da cidade e dizer que isto aqui não tem mais jeito. A cacofonia dos vendedores anunciando produtos nas portas das lojas, o som alto e as buzinas que tentam desentupir o trânsito no berro formam o fundo musical nas ruas que circundam a idosa biblioteca.

ricardo Uma viagem no tempo pelo velho centro da cidade

Viaduto do Chá (SP) de ontem e hoje

Dos tempos antigos, restaram apenas os engraxates e seus cadeirões confortáveis na praça Dom José Gaspar, cuidando sem pressa dos nossos sapatos, também eles se queixando do barulho e da falta de freguesia, porque hoje a maioria dos transeuntes anda de chinelos ou de tênis. Foi-se o tempo em que os paulistanos colocavam suas melhores roupas para passear no centro com a família nos finais de semana.

A paisagem humana parece ter-se degradado junto com as construções, com a honrosa exceção da avenida São Luiz, que mantém seus prédios imponentes a nos lembrar de um tempo em que os paulistanos tinham orgulho da sua origem e da cidade que construíram.

Com a turma da cracolândia agora espalhada pela praça da República e arredores, trapos humanos dormindo nas calçadas envoltos em folhas de jornal, todo mundo caminha ressabiado, olhando para os lados e para o chão, rezando para que os carros respeitem as faixas de pedestres.

Chego finalmente ao histórico Carlino, agora escondido numa travessa da avenida Ipiranga, a Epitácio Pessoa, reduto de travestis e prostitutas que obrigaram o primeiro restaurante italiano da cidade a não abrir mais à noite.

Fundado pelo italiano Carlo Cecchini, que veio da Toscana, o Carlino começou no largo do Paissandu, depois foi para a charmosa avenida Vieira de Carvalho, onde eu costumava ir quando trabalhava no Estadão e, mais tarde, na Folha. No começo, era um ponto de encontro de cantores líricos que se apresentavam no Teatro Municipal, que com o tempo ganharam a companhia de artistas do rádio e da televisão, políticos, jornalistas, advogados.

Desde 1978, quem cuida do restaurante é a família de Antônio Carlos Marino, que procurou manter o cardápio original à base de massas, cabritos e molhos copiosos, mas abriu espaço também para pratos mais leves, à base de frutos do mar, introduzidos por seus filhos Bruno e Bianca, que se formaram em gastronomia na mesma região da Toscana de onde veio o fundador do Carlino.

Agradeço ao amigo Sinval Leão, bravo batalhador que edita a revista Imprensa, o convite para voltar ao Carlino, e fazer esta viagem no tempo pelo velho centro da cidade. Se os caros leitores acharam este texto algo nostálgico, têm toda razão: sinto muita saudade de uma São Paulo que não existe mais, onde as pessoas ainda se cumprimentavam e diziam "por favor" e "obrigado".

Esses tempos não voltam mais, por mais bilhões de reais do Banco Mundial que se anunciem todos os anos para investir em projetos de "revitalização do centro". Pois que não se trata só de uma questão de dinheiro, mas de alma.

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