Depois que os manifestantes das "Jornadas de Junho" se retiraram gradativamente das ruas e foram cuidar da vida, restaram os "protestos" isolados com pouca gente _ na verdade, atos do mais puro vandalismo, organizados por dois grupos que se apresentam como Anonymous e Black Blocs.

Além de infernizar a vida de quem precisa se locomover entre a casa e o trabalho nas nossas grandes cidades, fechando quase todos os dias suas principais ruas e avenidas, atacar fachadas de bancos e de concessionárias de automóveis, o que mais move estes grupos? Onde querem chegar? Derrubar o governo, fechar o Congresso Nacional e acabar com o capitalismo?

Ao ver as imagens destes guerrilheiros urbanos arrebentando o que encontram pela frente a marretadas e pontapés, me lembrei de um velho amigo jornalista, Matinas Molina, jejuno na matéria, que assistia à inauguração de uma cancha de bochas em Curitiba, muitos anos atrás, sem conseguir descobrir o que estava em jogo. "Eu só queria entender qual é a finalidade...".

Como não há líderes nem porta-vozes capazes de explicar os objetivos dos mascarados, a polícia tateia no escuro para enfrentar as depredações que viraram rotina, sem que se tenha notícia de algum plano dos órgãos de segurança para acabar com esta baderna, tirar de circulação ou punir os seus responsáveis. É como se fosse algo que já fizesse parte da paisagem. Não é. Ou, ao menos, não deveria ser assim.

Entre os assuntos listados para os protestos estão a prisão dos mensaleiros (algo que só depende do Judiciário), o fim do voto obrigatório e a saída de Renan Calheiros da presidência do Senado (temas restritos ao Legislativo) _ ou seja, nada que dependa do governo federal para ser resolvido e, certamente, não o será, na base do grito ou do quebra-quebra.

"O Estado não tem demonstrado competência para fazer cumprir a lei, seja por leniência, fechando os olhos para o vandalismo, seja por receio de que a força policial puxe para baixo a imagem já negativa de seus governantes, ou ainda por falta de qualificação do aparelho policial para lidar com uma nova ordem social. O fato é que o descontrole fica patente, ensejando, a cada nova manifestação, atos cada vez mais virulentos. Imagine-se o efeito bola de neve se a criminalidade crescente não receber um basta", advertiu o professor da USP Gaudêncio Torquato, em seu artigo "A preamar dos mascarados", publicado domingo último no Estadão.

Leio no noticiário desta segunda-feira que  os valentes Anonymous, que não mostram a cara nem dão o nome, preparam desde junho "o maior protesto da história do Brasil" para o próximo sábado, em que pretendem "comemorar" o 7 de Setembro com atos de protesto programados em 140 cidades, a começar por Brasília, onde a presidente Dilma Rousseff assistirá à tradicional parada cívico-militar.

A página do grupo de ativismo hacker já havia distribuído até o último final de semana 4,8 milhões de convites, recebendo a confirmação de 362 mil seguidores, segundo a Folha. Embora a presidente Dilma tenha recomendado um reforço na segurança, com a revista de bolsas e mochilas, o clima no Palácio do Planalto não é de muita preocupação. "Não vai ser essa coisa toda que estão falando, não é essa a nossa avaliação", disse-me agora de manhã um interlocutor da presidente.

Dilma viaja hoje à noite para a Rússia, onde participará da reunião do G-20, em que todas as atenções estão voltadas para a Síria. Na bagagem, ela leva também as últimos denúncias sobre o esquema de espionagem que teria sido montado no Palácio do Planalto pelo governo Obama, um assunto que provavelmente será levantado se houver um encontro reservado entre os dois.

Apesar da aparente tranquilidade, a presidente sabe que deixa para trás um potencial perigo de recrudescimento das manifestações violentas de rua, em que o 7 de setembro pode ser um divisor de águas. A não cassação do mandato do deputado presidiário Natan Donadon e o resultado do julgamento dos embargos dos réus condenados no caso do mensalão, previsto para sair ainda esta semana, podem fornecer combustível para quem só joga no quanto pior, melhor. Com a oposição e a mídia aliada sem candidato competitivo até agora, todo cuidado é pouco.

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