A televisão brasileira viveu um momento nobre na noite desta segunda-feira com a entrevista do jornalista e escritor Laurentino Gomes, no programa Roda Viva, da TV Cultura.

Foi uma verdadeira aula magna de história do Brasil na TV, em que o autor de 1808 e 1822, que acaba de lançar 1889 (Como um Imperador Cansado, um Marechal Vaidoso e um Professor Injustiçado Contribuíram para o Fim da Monarquia e a Proclamação da República no Brasil), terceiro e último livro da trilogia, contou com muita simplicidade e bom humor a nossa pitoresca trajetória, que deu no que deu, para o bem ou para o mal, desde a vinda da família real para o Brasil.

Pesquisador sério e incansável, dono de um texto primoroso, bom de se ler, este repórter do meu tempo tornou-se, meio por acaso, como quase tudo que aconteceu nos principais momentos da vida brasileira, um historiador popular que vende livros feito pão quente.

Na narrativa fluente de Laurentino, que fala tão bem quanto escreve, parece que tudo aconteceu ontem, os fatos e os personagens se encadeando naturalmente, sem nenhum pedantismo do autor. Sou fã inveterado dos dois primeiros livros dele, que sempre recomendo em minhas palestras, e ainda não comprei o terceiro porque estou lendo o segundo volume de Getúlio, do também jornalista Lira Neto, e só consigo ler um de cada vez, mas pelo que ouvi ontem dá para recomendar 1889 de olhos fechados.

Colaboraram para esta bela aula no Roda Viva, os cinco entrevistadores - Norma Couri, Ubiratan Brasil, Oscar Pilagallo Filho, Cassiano Elek Machado e Manoel da Costa Pinto - sob a moderação sóbria do apresentador Augusto Nunes. Os cinco deixaram o entrevistado completar as frases e falar à vontade, só fazendo perguntas pertinentes, que ajudaram o autor a falar de diferentes momentos da nossa história, em que o povo levou muito tempo para entrar, mesmo depois da Independência e da República.

Pois foram tantos os temas relevantes e surpreendentes tratados ao longo dos 90 minutos do programa, que vou destacar apenas um deles: é quando Laurentino localiza a inauguração verdadeira da República na Campanha das Diretas Já, de 1984, 115 anos após a Proclamação, no momento em que a sociedade brasileira sai às ruas no maior movimento cívico da nossa história, para pegar o destino do País nas próprias mãos.

Para quem não pôde assistir ao vivo, vale a pena garimpar o programa no Youtube ou no site da TV Cultura _ ver, gravar e guardar no melhor lugar da sua biblioteca.

Torcida derrota diretoria e Muricy está de volta

Já tinha deixado este título acima pronto ontem à noite para escrever hoje, mas fui obrigado a mudar de assunto depois de me encantar com a qualidade da entrevista de Laurentino Gomes, que não poderia deixar de registrar aqui na abertura da coluna desta terça-feira.

Faz tempo, como sabem os leitores mais antigos do Balaio, venho pedindo a volta de Muricy Ramalho ao São Paulo, que nunca mais conseguiu montar um time competitivo desde a saída dele, cinco anos atrás, graças à teimosia e incompetência da sua diretoria, a começar pelo eterno presidente Juvenal Juvêncio e seus fiéis escudeiros Adalberto Baptista e Carlos Augusto Barros, o Leco, dois trapalhões que se acham gênios.

O meu bom colega Cosme Rímoli já disse tudo sobre o assunto em sua coluna aqui no R7, mas não poderia deixar de falar da minha alegria ao ver que a verdadeira torcida são-paulina - não aquela organizada que come nas mãos da diretoria - venceu esta parada.

Pena que para isso foi preciso o São Paulo terminar o primeiro turno na zona do rebaixamento, vexame após vexame, correndo o sério risco de, pela primeira vez na vida, cair para a Segundona do Brasileirão, de onde o Palmeiras já está quase saindo.

Para entender este amor recíproco entre Muricy e a torcida, vou lembrar uma história que ele mesmo me contou num jantar na casa do Faustão, após a conquista do tricampeonato brasileiro consecutivo, em 2008.

A decisão contra o Goiás foi disputada em Brasília e, na volta a São Paulo, havia um ônibus esperando o time dentro da pista do aeroporto para levar os jogadores rapidamente à festa organizada pela diretoria. Ao ver aquilo, e milhares de torcedores esperando o tricampeão no saguão do aeroporto, gritando e empunhando suas bandeiras, o técnico não se conformou, para desespero dos diretores que estavam no avião, apressando a tropa.

"De jeito nenhum. Nós não vamos entrar neste ônibus. Primeiro, vai todo mundo cumprimentar a torcida que está aí nos esperando. Nós só fomos campeões por causa dessa torcida que acreditou no time. Depois, cada um pode fazer o que quiser."

Poucos meses depois, Adalberto e Leco se vingaram de Muricy, convencendo Juvenal a mandar o técnico embora. Quando a torcida pediu Muricy de volta, antes da vinda de Paulo Autuori, apenas dois meses atrás, a diretoria, que não o queria, alegou que o técnico custava muito caro (ganhava R$ 700 mil por mês no Santos). Pois agora, já que só o contrataram no desespero, se fosse o Muricy eu pediria logo R$ 1 milhão por mês para eles largarem a mão de ser bestas.

Só de uma coisa eu tenho certeza: com Muricy no comando, diretor nenhum vai dar palpite no time. A partir de agora, só quem manda é ele. Podemos até cair para a Segundona, mas vamos cair de pé, lutando, não nos arrastando em campo, sem alma e sem vergonha na cara, como aconteceu até agora.

Seja bem-vindo de volta ao Morumbi, grande Muricy Ramalho, tricolor acima de tudo!

E boa sorte pra todos nós... A diretoria passa, o São Paulo fica.

http://r7.com/dHTM