jose Passe Livre, IPTU, Black Blocs e PCC: é a geleia geral

Ministro da Justiça José Eduardo Cardozo: até que enfim...

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, costumava dizer meu colega Juarez Soares, filósofo popular e comentarista esportivo, para separar os assuntos em pauta.

Os fatos dos últimos dias, porém, como mostram as manchetes desta quarta-feira, desmentem a máxima do velho amigo e nos mostram como uma coisa tem a ver com outra coisa, somando-se a mais outras coisas e, assim, vamos chegando à grande geleia geral, que mistura tudo num rolo só, deixando no ar um sentimento de descontrole e mal estar difícil de ser mensurado e explicado.

O que tem a ver o Movimento Passe Livre, com o aumento do IPTU, os atos de banditismo dos Black Blocs e o crime organizado do famigerado bando do PCC (Primeiro Comando da Capital), que, ao que tudo indica, voltou a botar a cabeça de fora?

Vou começar do começo para ver se consigo me fazer entender.

Em plenas férias de janeiro, com a posse do prefeito eleito Fernando Haddad e a massa curtindo férias na praia, estava previsto o aumento das passagens de ônibus, um ritual já marcado todos os anos no calendário, que costuma passar batido como as chuvas de verão.

A presidente Dilma Rousseff, às voltas com o controle da inflação que voltava a subir e a preocupar o governo federal naquela altura do campeonato, pediu a Haddad e aos outros prefeitos de capitais que adiassem o aumento para uma data mais conveniente.

O aumento de 20 centavos nas passagens, calculado abaixo dos índices de inflação, veio no começo de junho, sem aviso prévio nem maiores explicações à população. Junto com ele começaram os protestos do Movimento Passe Livre, de quem eu nunca havia ouvido falar, mas logo ganharia as ruas e generoso espaço na grande imprensa.

A princípio limitado a algumas centenas de estudantes que protestaram na avenida Paulista, o movimento cresceu e se espalhou por todo o país, a partir do momento em que a Polícia Militar de São Paulo resolveu partir para a porradaria generalizada, após os primeiros atos de vandalismo em São Paulo.

O aumento das passagens logo seria cancelado, por sugestão da própria presidente Dilma, mas a massa não saiu mais das ruas e foi multiplicando seus protestos e reivindicações pelo país afora, pedindo a melhoria dos serviços públicos em geral, a punição dos corruptos e a felicidade geral gratuita. Os índices de aprovação e popularidade da presidente Dilma e de governantes em geral despencaram.

Ninguém conseguia explicar direito o que movia as multidões sem líderes nem bandeiras unificadas, mas assim como surgiram do nada elas voltaram para suas casas no começo das férias de julho, deixando, porém, um rastro de atos de violência comandados por grupos de mascarados, os chamados "black blocs", que apareciam ao final das manifestações para quebrar tudo, a cada dia mais ousados, desafiando os policiais.

Os protestos, agora cada vez menores, promovidos em geral por categorias profissionais em luta por melhores salários, serviam como pretexto para os vândalos barbarizarem dia sim e outro também, fechando as principais vias de grandes capitais, depredando, botando fogo e enfrentando a polícia com coquetéis molotov, bombas, pedras, barras de ferro e outras armas improvisadas. Na sexta-feira, espancaram e quase lincharam um coronel da PM no centro de São Paulo. Virou rotina.

Por lei, eu sei, cabe às polícias estaduais zelarem pela ordem pública, mas logo ficou claro que elas estavam perdendo a batalha, despreparadas para enfrentar esta nova criminalidade, que evoluiu para o banditismo puro e simples, com saques e roubos a lojas.

No começo de outubro, já se tratava de um problema nacional. No último dia 8, escrevi aqui mesmo no Balaio um texto em que perguntava: "Que espera o governo federal para agir contra a onda de vandalismo?". Fui criticado por muitos leitores, para quem o governo federal não tinha nada a ver com isso e os governadores que se virassem para garantir a segurança dos seus cidadãos.

Voltei ao assunto ontem, cobrando novamente uma posição do governo central, e desta vez a resposta foi imediata: "Governo federal propõe ação conjunta com SP e Rio para controlar protestos", informa manchete da página A18 do Estadão de hoje.

Diz o jornal: "Um dia após os atos de vandalismo na Fernão Dias, o Ministério da Justiça propôs uma frente de contenção conjunta da violência e discutirá com autoridades de Segurança de São Paulo e Rio procedimentos para investigar protestos, podendo até federalizar parte das ações".

Quatro meses e um dia depois, a ficha, enfim, caiu. "Vamos discutir uma estratégia comum para enfrentar o vandalismo. A troca de informações e de dados pressupõe uma ação comum", anunciou o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que se reunirá amanhã com os secretários de Segurança do Rio e de São Paulo.

No mesmo momento em que Cardozo anunciava a entrada do governo federal na história, eu comentava com o Heródoto Barbeiro no Jornal da Record News:

"Quem está por trás destes black blocs? A quem interessa criar este clima de violência e insegurança no país? A bandidagem está mais organizada do que a polícia. E quem tem força para organizar estes atos e decretar toque de recolher, como aconteceu hoje na zona norte de São Paulo? Só pode ser o PCC, que comanda os presídios paulistas e o crime organizado".

Até aquele momento, ninguém havia levantado esta hipótese. Era mera conclusão minha, por eliminação: se a violência não interessava nem aos partidos do governo nem aos da oposição, se não há nenhum golpe militar em marcha, quem mais poderia ser?

Manchete de hoje da Folha responde: "Facção criminosa é suspeita de atuar em protesto em SP _ Polícia investiga ação de crime organizado no ato que fechou a Fernão Dias".

Ainda na mesma noite de terça, dois outros fatos interligados fecharam o círculo: a Câmara Municipal de São Paulo aprovou aumentos do IPTU (Imposto Territorial Urbano) entre 20% e 35%, exatamente para não ter que aumentar as passagens de ônibus e continuar subsidiando as empresas, ao mesmo tempo em que o presidente do Senado, Renan Calheiros, para fazer uma média com a moçada, prometia votar ainda este ano seu projeto para conceder passe livre aos estudantes de todo o país.

Como a gente sabe que não existe almoço grátis, alguém vai ter que pagar estas contas, enquanto as autoridades de segurança pública federais e estaduais, agora unidas, tentam descobrir quem são esses tais black blocs e qual sua ligação com o PCC. Segundo os cálculos do próprio Renan, o passe livre vai custar ao orçamento da União a bagatela de R$ 7 bilhões por ano, que obviamente vão sair do dinheiro dos nossos impostos para os bolsos dos donos das companhias de ônibus.

Para completar, o ministro da Secretaria Geral da Presidência, meu velho amigo Gilberto Carvalho, defendeu um "diálogo" com os bandidos mascarados para "compreender este fenômeno". Segundo ele, a "simples criminalização imediata dos black blocs não vai resolver". Como assim? Banditismo agora é fenômeno, não é mais crime? Vai dialogar com quem, com quais argumentos, se o governo nem sabe com quem está lidando? Vai dizer o que? "Por favor, meninos, não façam mais isso, que é muito feio...".

Depois do passe livre, vamos esperar que venha também o táxi livre, a passagem aérea com tarifa zero, a cesta básica grátis, o show do Roberto Carlos com entrada franca e, por que não?, perucas na faixa para todos os carecas. Caso contrário, nunca se sabe, novos protestos podem acontecer...

E o caro leitor o que pensa de tudo isso? Tem jeito?

***

Em tempo: hoje, dia 30 de outubro, o Bolsa Família comemora 10 anos que mudaram a cara do Brasil e a vida de 50 milhões de brasileiros. Sobre este assunto, escrevi uma longa reportagem, com fotos de Manoel Marques, na revista "Brasileiros" de outubro, que está nas bancas, sob o título "Como vive o povo do Bolsa Família".

http://r7.com/_v8l