felipao Só com o tempo poderemos entender esta humilhação

Até hoje, 64 anos depois, ainda tem gente tentando explicar a tragédia da nossa derrota por 2 a 1 para o Uruguai, jogando em casa, no Maracanã, quando bastava um empate para o Brasil se sagrar campeão mundial pela primeira vez. Reportagens, livros e documentários sem fim foram produzidos desde 1950 e ainda não houve uma resposta capaz de matar o assunto.

O que aconteceu?, perguntamo-nos todos agora uns aos outros, ainda perplexos com o chocolate de 7 a 1 que, agora, pentacampeões mundiais, tomamos dos  antigos fregueses alemães, na tarde desta terça-feira, 8 de setembro de 2014, no Mineirão.

Uma catástrofe deste porte nunca será explicada por uma única razão. Como nos grandes acidentes ferroviários ou aéreos, sempre há um conjunto de fatores imponderáveis e imprevistos, que formam uma cadeia de falhas ou erros capazes de explicar o desastre final, depois de aberta a caixa preta, apontando causas e responsáveis.

É tamanha a perplexidade de todos nós que não sei nem por onde começar a escrever este texto, depois de ter visto todas as entrevistas e comentários na televisão até tarde da noite e lido desde cedo, na manhã desta Quarta-feira de Cinzas do nosso futebol, quilômetros de artigos de colegas publicados no papel e nos portais sobre o que aconteceu no Mineirão.

Desta vez, não há controvérsias. Com diferentes argumentos, todos falaram e escreveram mais ou menos as mesmas coisas para tentar explicar o inexplicável. A única conclusão a que cheguei, que não ajuda muito, eu sei, é de que só com o tempo, muito tempo _ dias, semanas, meses, talvez anos _ poderemos entender esta acachapante humilhação sofrida na Copa de 2014, pela segunda vez disputada no nosso país, em meio a uma grande festa popular.

Mas é preciso separar bem duas coisas: a primorosa organização do evento, que superou todas as expectativas e foi mundialmente reconhecida, e o indigente futebol mostrado pela seleção brasileira nos gramados por onde desfilou.

Aconteceu exatamente o contrário do que muita gente previa: ganhamos de goleada fora do campo, com tudo funcionando a contento, e perdemos de forma desonrosa o sonhado hexacampeonato, jogando muito mal dentro do campo, desde a estreia contra a Croácia, no Itaquerão, há quatro semanas.

Como todo mundo, também desconfiava do oba-oba criado em torno desta "Família Scolari", que estrelou muitos comerciais na televisão, não saiu mais das capas de jornais e revistas, fez marquetagem a granel, foi tratada com muitos mimos no castelo da CBF, na fria Teresópolis, mas pouco treinou, enquanto os alemães se esfalfavam todos os dias sob o sol do meio dia na concentração tropical que eles mesmos construíram do litoral baiano, sem folgas nem badalações.

O time de Felipão que entrou em campo para enfrentar a máquina alemã não treinou coletivamente nenhuma vez porque Felipão queria fazer mistério e enganar o técnico deles, Joachim Löw, como teve a coragem de dizer em entrevista após o jogo.

Os alemães não apresentaram um semideus como Neymar, mudavam o time de um jogo para outro, conforme o adversário, mas nos mostraram como se joga futebol para ganhar e não para brilhar e faturar. O resto foi consequência. Em favor de Felipão, há que se lembrar apenas que esta geração de jogadores, a mais pobre de talento dos últimos tempos, embora com salários milionários, não era esta maravilha. Nenhum grande craque em boa forma, capaz de definir partidas sozinho, ficou de fora da convocação.

Com este time e o esquema (tínhamos algum sistema?) tático montado por Felipão para "surpreender" os alemães, nem Neymar, nem mesmo Pelé seriam capazes de evitar a vergonha que passamos. Do jeito que estávamos jogando, sem meio de campo, na base do vamos que vamos e seja o que Deus quiser, uma hora isso teria que acontecer, estava escrito há tempos. Caímos na real com essa derrota acachapante e isso até pode ser bom no futuro. Só não precisava ser por 7 a 1...

Pior do que errar na escalação e no esquema, foi Felipão insistir no erro, não tendo humildade para mudar jogadores e a forma de jogar, logo aos 15 minutos de jogo, quando a Alemanha ganhava só por 1 a 0 e já estava dando um baile no Mineirão, com o Brasil não vendo a cor da bola, exatamente como aconteceu naquela final do Mundial de Clubes, em Tóquio, quando o Santos, com Neymar e tudo, só ficou assistindo o Barcelona jogar, e levou de 4 a 0 no primeiro tempo.

O Brasil já estava tomando de 5 a 0 e o perplexo Felipão ficava só olhando o desastre acontecer, sem tomar nenhuma providência, como aquele tristemente famoso comandante italiano, o tal do Schettino, lembram-se? Ao ver o navio afundar, em vez de tentar salvar o maior número possível de passageiros, ele tratou de cair fora e salvar a própria pele. Felipão não chegou a tanto, até porque não tinha como fugir do Mineirão no intervalo do jogo, mas também não fez nada ao menos para salvar a própria biografia.

De que adianta ele agora reconhecer que foi o único responsável, mas não se arrepende das escolhas que fez? Sem Neymar, o arrogante e vaidoso técnico, que estava com o prazo de validade vencido faz muito tempo, desde que levou o Palmeiras à segunda divisão, queria ser o novo herói do Brasil.

Resolveu dar uma de Santos Dumont, escalando três atacantes, com Bernard em lugar do ídolo fora de combate, em vez de reforçar o meio de campo, como era óbvio, até para leigos como eu. Se o Brasil ganhasse, ele sonhava ser louvado como gênio da raça. De3u tudo errado, mas ele continua achando que estava certo. Faltou-lhe, acima de tudo, humildade, para reconhecer o erro a tempo e corrigi-lo ao ver bovinamente a vaca indo para o brejo.

Vários colegas agora propõe começar tudo de novo, com uma completa reformulação do nosso futebol, importação de técnicos, etc e tal. De que jeito, se o futebol continua nas mãos de gente como José Maria Marin, o presidente da CBF, que também sumiu de cena quando o barco afundava, e agora vai passar o cargo para seu cupincha Marco Polo del Nero, eternizando a dinastia Ricardo Teixeira-João Havfelange? Tem alguma chance de dar certo?

Termino aqui repetindo o que falei no comentário do Jornal da Record News, ao lado de Heródoto Barbeiro e Alvaro José: assistimos ontem ao final de uma época de hegemonia do Brasil no futebol mundial e ao surgimento da supremacia de uma nova escola inspirada no Barcelona, que levou a Espanha ao título, em 2010, e agora no Bayern, de Munique, a base desta fantástica seleção alemã de 2014.

Não por acaso, dois times dirigidos pelo mesmo Gardiola, o técnico espanhol que criou um novo jeito de jogar bola, unindo arte, técnica, tática, velocidade, profissionalismo e romantismo, tudo ao mesmo tempo, para dar espetáculo e vencer, sem medo de perder, como os nossos "professores". Por falar nisso, semana que vem recomeça o Brasileirão... Vamos sentir muitas saudades desta fantástica Copa do Mundo de 2014, apesar do que aconteceu no já chamado Mineirazo.

Vida que segue.

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