Eduardo Campos Foto Hélio Campos Mello1 Eduardo decidiu ser candidato ainda em 2012

Foto: Hélio Campos Mello

Perdeu a política brasileira, já tão pobre. A morte de  Eduardo Henrique Accioly Campos, aos 49 anos, é uma tragédia não apenas para a família, os amigos e os seus eleitores, mas também para o país. Meu sempre cordial amigo Eduardo era a melhor expressão das nossas novas lideranças políticas, tão raras neste Brasil do século 21. Descobri isso quando fiz com ele duas longas entrevistas, em 2010 e 2012, as primeiras de repercussão nacional, quando ainda era um líder regional.

"Um político do futuro" foi o título da capa da revista Brasileiros, em outubro de 2010, com uma bela foto de Leo Caldas. Nesta primeira entrevista, conversei com ele durante horas, em seu gabinete no Palácio do Campo das Princesas, dias antes da eleição geral de 2010, em que já despontava como o novo campeão de votos. Combinamos que a entrevista só seria publicada se as urnas confirmassem as pesquisas.

Não deu outra: "Campeão de votos entre os candidatos a governador (82,84% dos votos válidos em Pernambuco), Eduardo Campos reafirma a mais simbólica de todas as mensagens emitidas pelas urnas de 3 de outubro: a política brasileira está mudando de geração. E está mudando para valer", escrevi na abertura da matéria.

Voltaria ao Recife em 2012, em meio à cobertura da campanha municipal daquele ano, para um almoço com seu eterno assessor de imprensa, o Evaldo Costa, uma das heranças que recebeu do avô, Miguel Arraes, que também morreu num dia 13 de agosto.

Mal pisamos no saguão do aeroporto dos Guararapes, o fotógrafo Hélio Campos Mello e eu, a brava equipe da Brasileiros, tocou meu celular. "O governador está convidando vocês para almoçar com ele", avisou a gentil secretária Rosa, que nos explicou como chegar ao Centro de Convenções, onde Eduardo Campos estava despachando, enquanto o Palácio do Campo das Princesas passava por uma reforma. O almoço só terminaria às cinco da tarde.

Saí dali com a certeza de que o então governador de Pernambuco seria candidato a presidente da República já em 2014. "Lula X Eduardo Campos _ a guerra dos padrinhos no Recife", foi o título da matéria, que mostrava o início e as causas do afastamento de ambos, em 2012, nesta mesma época do ano.

Meu objetivo era apenas fazer uma reportagem sobre a disputa eleitoral entre PT e PSB, mas a conversa tomou um rumo diferente, com um verdadeiro desabafo de Eduardo, que nem esperava pelas perguntas para falar da mágoa que estava sentindo do velho amigo e aliado. O governador sabia que eu também era um velho amigo de Lula, pois trabalhamos juntos _ ele, como ministro da Ciência e Tecnologia, e eu, como Secretário de Imprensa, nos dois primeiros anos do governo do PT. Talvez por isso mesmo tenha sido tão franco e direto, como se poderá ver em alguns trechos da matéria que reproduzo abaixo:

O clima esquentou de vez no começo de agosto, quando o presidente nacional do PT, Rui Falcão, deputado estadual em São Paulo, deu uma entrevista ao Jornal do Commercio, de Pernambuco, em que fala do caráter nacional da disputa: "É uma questão de honra para nós ganhar a eleição no Recife". Se ainda não era, passou a ser uma questão de honra também para Eduardo Campos, que não consegue falar com seu amigo Lula desde o começo de julho, quando tiveram um rápido encontro em São Paulo, depois de definidas as duas candidaturas. De olho em 2014, o que ambos os partidos negam, o fato é que a disputa eleitoral no Recife acabou jogando em campos opostos o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o herdeiro político de Miguel Arraes, três vezes governador de Pernambuco, fiel aliado do PT desde a primeira eleição presidencial, em 1989.  

(...) De bom humor e animado como sempre, o governador pernambucano mostrou apetite para repetir o prato e falar de política durante o longo almoço com cardápio trivial: peixe ao molho de maracujá, bife a rolê, arroz enfeitado e panqueca de ricota com espinafre. Para acompanhar, sucos de frutas da terra e refrigerantes. Só depois do cafezinho, conforme o combinado, peguei caderno e caneta e fui direto ao assunto desta reportagem: como ele está analisando o cenário da disputa de 2012, principalmente nas capitais onde se enfrentam PT e PSB, tendo como pano de fundo a sucessão presidencial em 2014. "A eleição é apenas municipal, sempre foi assim, mas eu sei que todo mundo quer fazer agora alguma ligação que remeta a 2014".

Como bom nordestino, Eduardo não se recusou a fazer esta ligação, contando com detalhes como se chegou à ruptura, por telefone, quando ele ligou para o ex-presidente:

"Estou falando do gabinete onde o doutor Arraes recebeu os milicos, não sou homem de ser enquadrado por ninguém. Posso ser convencido, mas enquadrado, não". Foi neste ponto , depois de vários desencontros, que se deu a ruptura entre os dois velhos amigos, um magoado com o outro. E começaram os ataques mútuos de líderes dos dois partidos pela imprensa, que só pioraram as coisas, a ponto de Eduardo não conseguir mais falar com o ex-presidente. "As informações chegam filtradas a Lula, que fica isolado lá no instituto dele, falando com assessores e dirigentes do PT, como Rui Falcão, e só quer saber da eleição em São Paulo. Eu esperei até o último dia para conseguir um entendimento com o PT daqui, ficamos de conversar, mas tive que escolher um candidato no meu partido porque já estávamos correndo o risco de perder a eleição para a direita, com a cidade sangrando e o PT brigando. Acharam que eu estava blefando".

Agora que todos sabemos que Eduardo não era de blefar, vamos lembrar outro episódio.

Atendendo ao conselho de Dilma, o governador ligou para Lula, mas lhe disseram que o ex-presidente estava num sítio descansando e só poderia entrar em contato depois do dia 20 de julho. "Estamos no dia 24 de agosto e até hoje ele não ligou..."

Até hoje, por mais que seja provocado por jornalistas, Eduardo jamais falou mal de Lula, embora tenha feito muitos ataques ao governo de Dilma Rousseff durante a campanha presidencial. Como os dois não se falavam pessoalmente, o diálogo era feito por intermediários, o que só gerava mais futricas. Um deles relatou a Eduardo uma frase que teria ouvido de Lula:

"Eu queria fazer o Eduardo presidente pela minha mão, na hora certa, mas agora ele resolveu chegar lá sozinho".

Não chegou nem nunca chegará, mas nós todos ainda vamos sentir muita falta de políticos como Eduardo Campos, um cara que era capaz de falar e fazer o que seu coração mandava, sem querer levar vantagem em tudo.

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Estava terminando de escrever este texto, com muita dificuldade, porque não consigo falar da morte de ninguém, depois da morte de meu pai, quando me ligou o Roberto Kalil, nosso médico e amigo comum, que me fez lembrar do que aconteceu com Ulysses Guimarães, outro político fora de série que morreu num acidente aéreo e desapareceu no mar de Angra dos Reis, não muito longe de Santos, onde caiu o jatinho que levava Eduardo Campos do Rio para o Guarujá. Chovia muito na região naquela hora, pouco antes das 10 da manhã.

Durante a Campanha das Diretas, em 1984, quase morri num avião ao lado de Ulysses _ e por culpa da teimosia do velho. Voávamos de Macapá, no Amapá, para Belém do Pará, atravessando um temporal amazônico. "Avião comigo não cai, jornalista, larga mão de besteira seu c...", desafiava-me ele, ao ver o medroso repórter rezando sem parar.

O piloto havia avisado logo cedo que não havia nenhuma condição de levantarmos voo, mas Ulysses tanto insistiu que partimos por volta das 11 da manhã. Logo depois da decolagem, com o avião jogando para cima, para baixo e para os lados, o "Senhor Diretas" começou a passar muito mal.

Com a experiência de um veterano piloto de muitos temporais, trocou de roupa no avião mesmo, se recompôs, e desceu em Belém todo pimpão, dando entrevistas, como se nada tivesse acontecido. Daquela vez sobrevivemos, mas havia outro temporal no caminho de Ulysses, e ele teimou em mandar o piloto do helicóptero levantar voo de Angra dos Reis para ir a São Paulo, quando não podia. Ainda bem que daquela vez eu não estava junto... O resto tudo agora é história.

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Quem quiser saber mais sobre a vida, o pensamento e o estilo de Eduardo Campos pode acessar o arquivo: www.revistabrasileiros.com.br

Vida que segue, agora sem o Eduardo Campos.

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