marina Beto é o vice de Marina: que diferença faz?

Daqui a pouco, na tarde desta quarta-feira, o PSB vai oficializar a sua nova chapa presidencial, com Marina Silva e Beto Albuquerque. Sem outra alternativa viável para apresentar como candidato a presidente em lugar do ex-governador pernambucano Eduardo Campos, morto em acidente aéreo há uma semana, o partido só tinha mesmo que adotar a solução natural para a cabeça de chapa, uma vez que Marina era sua vice.

Também não houve muitas discussões para se chegar ao nome do deputado gaúcho Beto Albuquerque, líder do partido na Câmara, um vice de consenso encontrado pelo PSB, que agrada tanto a Marina como à família Campos. Chegou-se a cogitar para o cargo a indicação da viúva Renata, mãe dos cinco filhos de Eduardo, mas a ideia logo foi abandonada por razões familiares e políticas.

Com um filho de seis meses que requer seus cuidados, Renata, considerada por Roberto Amaral, presidente do PSB, "a candidata dos sonhos", não teria condições de se dedicar à campanha, enquanto Marina precisava de alguém que lhe abrisse as portas entre os poderosos empresários do agronegócio, exatamente o setor onde Albuquerque atua e recolhe os recursos para as suas campanhas. Os ruralistas, como se sabe, torcem o nariz diante do nome da ex-ministra de Meio Ambiente do governo Lula, uma adversária histórica dos donos das terras.

Pensando bem, que diferença faz o nome do vice na campanha? Quantos brasileiros sabem dizer hoje quem é o vice de Dilma, ou o companheiro de chapa do tucano Aécio Neves? Se em lugar de Beto, tivessem indicado Juca, Joãozinho ou Genésio, quantos votos a mais ou a menos eles trariam para Marina? Se fosse Renata a escolhida, aí sim, poderia influenciar o eleitorado, com o ingrediente emocional da tragédia aérea que comoveu o país, e era isso que os adversários mais temiam.

"Ninguém vota em vice", costumava dizer José Alencar, vice de Lula nos dois mandatos _ ele próprio, ironicamente, uma exceção à regra. O ex-metalúrgico reunia bons motivos ao batalhar muito para ter o grande empresário mineiro numa chapa unindo capital e trabalho, uma forma de espantar os temores dos donos do dinheiro. Deu certo.

Na historia brasileira do último meio século, porém, candidatos a vice não foram decisivos em campanhas, mas tiveram papel de destaque após as eleições, ao assumirem, por diferentes motivos, o cargo dos titulares. Basta lembrar, por exemplo, de João Goulart, que ocupou a cadeira no Palácio do Planalto quando Jânio pirou e se mandou de Brasília; de José Sarney, que ficou no lugar de Tancredo Neves, o presidente que nunca foi, abatido por um câncer na véspera da posse, e de Itamar Franco, o substituto do impichado Fernando Collor.

A própria Marina Silva foi escolhida como vice por ser considerada uma grande carreadora de votos para Eduardo Campos, mas não foi isso que se viu. Ao morrer, Eduardo tinha apenas 8% das intenções de voto. Dias depois, na primeira pesquisa pós-tragédia, Marina já aparecia com 21%.

Ex-secretário estadual nos governos gaúchos dos petistas Olívio Dutra e Tarso Genro, que deixou em 2012, para se dedicar à campanha de Eduardo, Beto Albuquerque tem 51 anos. No governo Lula, lutou pela aprovação da medida provisória dos transgênicos, que Marina combatia.

Socialista histórico, nunca teve outro partido fora do PSB. No próximo final de semana, ele já estará ao lado de Marina numa caminhada no Recife, o primeiro ato de campanha da nova chapa. Para o PSB, a partir de hoje, começa tudo de novo, a um mês e meio das eleições presidenciais.

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