2012 12 05 familia assistindo tv Quem aguenta ainda ver o horário eleitoral?

Como fiz nos primeiros dias, voltei nesta quinta-feira à sessão de verdadeira tortura mental que é assistir aos programas dos candidatos na televisão. Amanhã, dia 19, completa um mês que está no ar a versão 2014 desta jabuticaba da democracia brasileira, que nos persegue faz anos, sem que ninguém pense em tomar uma providência para mudar este formato.

São dois blocos diários de 50 minutos, às 13 e às 20h30, de segunda a sábado, num total de 200 minutos por dia e mais de 20 horas por semana, somando a enxurrada de comerciais avulsos dos partidos distribuídos pelos intervalos, em que milhares de candidatos de todo o país pedem o nosso voto.

Provei no post anterior, com números, que foi uma enorme perda de tempo e de dinheiro, já que os três presidenciáveis competitivos continuam exatamente no mesmo lugar e mantendo praticamente os mesmos índices no Ibope daqueles que tinham antes de ir ao ar a propaganda política chamada de gratuita, mas que nos custa uma fortuna. Já na semana de estreia, as emissoras abertas somadas tinham perdido 20% do público e 10 pontos (cada ponto corresponde a 60 mil domicílios em São Paulo).

Otimista inveterado, pensei que algo pudesse ter mudado, de preferência para melhor, nas últimas quatro semanas, mas continua tudo igual, como se nada tivesse acontecido neste meio tempo. É aquele negócio: não vale a pena ver porque você já sabe o que vai ver. E é tudo muito chato.

A única surpresa, para mim, veio logo no começo do bloco da hora do almoço, com o discurso de Marina Silva, do PSB, no melhor estilo de Lula, lembrando, do alto de um palanque, dos tempos em que sua família passava fome num seringal do Acre, para prometer que jamais acabará com o programa Bolsa Família.

Voz embargada, Marina parou a fala, fez força para não chorar, e terminou sob aplausos, dizendo: "Não é um discurso, é uma vida". Nada de "nova política" ou propostas da "terceira via": como acontece desde a redemocratização do país e da primeira eleição para presidente da República, em 1989, apelar para a emoção é uma das receitas mais antigas da propaganda política. Com cinco vezes menos tempo de TV do que Dilma e a metade de Aécio, a candidata do PSB só pode mesmo fazer breves aparições.

Dilma e Aécio, cada um a seu modo, repetiram o mesmo formato dos programas anteriores, inspirado na fórmula consagrada por Duda Mendonça, e imitada por seus seguidores, na base do "fez, faz e fará", misturando números e siglas em computação eletrônica com testemunhais de eleitores beneficiados por seus governos.

O candidato tucano voltou a propor o "vamos conversar" aos pacientes telespectadores que ainda tinham seus aparelhos ligados, desta vez se dirigindo a mães e filhos. Prometeu levar para todo o Brasil seu programa "Mães de Minas", que, segundo Aécio, reduziu em 32% a mortalidade infantil no Estado que governou por dois mandatos. Números, números, números, gráficos, depoimentos, o de sempre.

Só no final, o ex-governador dirigiu farpas à sua concorrente Marina Silva, sem lhe citar o nome, para lembrar que a política às vezes é dura e cruel, e um presidente precisa saber comandar e não ser comandado. Não poderiam faltar, é claro, referências ao último Ibope, que mostrou um crescimento de quatro pontos do candidato, e apoios ao seu nome dados por artistas e celebridades em geral, mostrando que ele é o único capaz de tirar o PT do governo.

Previsível e imutável, o programa de Dilma alternou falas da candidata num jardim com imagens das maravilhas brasileiras, onde tudo funciona que é uma beleza, e siglas de programas do governo que, segundo ela, melhoraram a vida dos micro e pequenos empresários, "os empreendedores que fazem a força do Brasil".

Os 12 minutos deste latifúndio de tempo do programa do PT arrastam-se sem nenhuma emoção, sem em nenhum momento surpreender o telespectador, ou contar alguma novidade. O povo só aparece para contar histórias de sucesso graças a iniciativas do governo como o "Simples", um programa destinado a reduzir e desburocratizar o pagamento de impostos.

Fora isso, é o mesmo insuportável desfile de candidatos nanicos, cacarecos, revolucionários e alguns pistoleiros de aluguel anunciando o apocalipse. Na prática, desde o início, só três dos 11 candidatos a presidente disputam a eleição para valer. O resto é figuração.

Confesso que desliguei a televisão e fui almoçar em paz quando começou o circo de horrores que vem em seguida, com os candidatos a vagas nos legislativos. Quem ainda aguenta ver isso? Até quando vão abusar da nossa paciência?

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