Falta d´água e calor: a imprensa e a Lei de Ricupero

Até parece que começou a faltar água de um dia para outro e o racionamento ainda é uma possibilidade remota.

Quem vive em São Paulo sabe que já faz meses que o desabastecimento atinge quase todas as regiões da capital e do interior do Estado, e o racionamento está implantado na prática, sem aviso prévio, para não prejudicar a reeleição do governador Geraldo Alckmin.

Garantida a vitória do tucano, na semana seguinte, a imprensa paulista abriu as comportas e o assunto ganhou as manchetes e até editoriais foram publicados com cobranças ao governo do Estado, mas já era tarde demais.

Agora, o que se discute é o prazo para que aconteça o colapso no abastecimento, se não voltar a chover logo, e muito.

Antes que algum idiota sem modéstia invada este espaço e venha de dedo em riste me acusando de estar colocando na imprensa e no governo estadual a culpa pelo calor e pela estiagem histórica, esclareço que não se trata disso, mas é evidente que Alckmin e sua mídia aliada são cúmplices ao esconder da população por tanto tempo as dimensões da catástrofe hídrica que assola o Estado mais rico do país.

Esse comportamento de avestruz me fez lembrar o que aconteceu quando uma epidemia de meningite se alastrou pelo país nos anos 70, no auge do regime militar. Por determinação da censura federal, ordens foram disparadas de Brasília para proibir toda a mídia nacional de sequer tocar no assunto. Oficialmente, a epidemia não existiu, embora muita gente tenha morrido de meningite.

Agora, ninguém teve que dar ordens, a imprensa se autocensurou por conta própria. Preservado pelos jornalões paulistas, Alckmin pôde se dedicar tranquilamente à campanha reeleitoral e só reapareceu na última semana para tentar consertar as trapalhadas da presidente da Sabesp, Dilma Pena, que garantiu o abastecimento d´água somente até meados de novembro.

agua Falta d´água e calor: a imprensa e a Lei de Ricupero

Com seu jeitão Pinda de ser estadista, o governador agiu como um bombeiro ministrando curso de prevenção de incêndios numa casa que já está pegando fogo. Mandou a empresa distribuir panfletos e enviar torpedos à população, pedindo para economizar água e prometendo descontos a quem atender aos apelos. Em tucanês castiço, explicou que podem acontecer "manobras técnicas emergenciais" e "situações de eventuais desabastecimentos".

"Sabesp informa: devido às altas temperaturas e aumento do consumo, solicitamos que ECONOMIZEM ÁGUA  para mantermos o abastecimento de SP", diz o SMA enviado aos clientes da empresa. Assim podemos ficar todos mais tranquilos. Com o nível do volume do Sistema Cantareira baixando para o índice de 3,9% da sua capacidade, agora vamos usar o volume morto do volume morto para manter o abastecimento até 2015. Quer dizer, se tudo der certo, estamos ferrados.

Enquanto o Cantareira cai para seu índice mais baixo, as temperaturas não param de subir: nesta quinta-feira, São Paulo registrou 37,8°C, um recorde de calor desde o início das medições em 1943, quando eu ainda não tinha nascido.

Num papo folgazão antes de dar uma entrevista ao jornalista Carlos Monforte, nos estúdios da Globo em Brasília, sem saber que a conversa já estava sendo transmitida para todo o país, o sincero ex-ministro Rubens Ricupero deu a receita para estas situações: "No governo, é assim: o que é bom a gente mostra; o que é ruim a gente esconde". Isto vale para os governos e vale para a mídia, que se limita a responder a uma pergunta básica, como sabe qualquer repórter novato: "Isso é bom para nosso candidato ou beneficia os adversários?".

A conversa entre Ricupero e Monforte aconteceu em meio à campanha presidencial de 1994, durante o governo de Itamar Franco. Vinte anos depois, a Lei de Ricupero continua em vigor.

Agora que já sabemos o tamanho da encrenca, o eventual amigo ou amiga que me lê já pensou para onde ir se acontecer o pior?

Apesar de tudo, bom final de semana a todos.

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