Está feia a coisa. Dentro da margem de erro de 50 pontos para mais ou para menos, nossos astrólogos políticos e analistas econômicos de plantão são unânimes em prever que 2015 será um ano tenebroso, muito pior do que 2014. "Mas dá para piorar?", podem contestar os otimistas. "Sempre dá", responderão os urubólogos.

Uma coisa é certa: a duas semanas do final do primeiro governo Dilma e do início do segundo, o clima no país nesta passagem de ano está mais para fim de feira do que para posse festiva. Governo novo sempre significa uma renovação de esperanças, mas nunca vi tamanho baixo astral como agora.

Para completar, Brasília não tem a menor condição de receber visitas no dia 1º de janeiro, data marcada para a reposse de Dilma. De lá, informa meu velho amigo Valdo Cruz, um jornalista sério: "A capital do país está um caos. O mato toma conta do centro da cidade, e o lixo se cumula em algumas ruas. Servidores em greve fecham avenidas e causam enormes engarrafamentos. Falta medicamento em hospitais, e alunos perdem aulas em dia de provas (...) Ruas esburacadas, obras paradas, greve de ônibus tornando a vida de quem depende de transporte público um inferno".

Se, ao contrário das expectativas, vierem muitos mandatários ilustres do exterior neste feriadão universal, será um vexame. E aqui dentro, diante deste cenário desolador, quem vai se abalar a sair de casa e gastar uma nota preta para ir a Brasília só para ver Dilma passando a faixa para ela mesma?

A verdade é que, recolhida a um silêncio obsequioso e preocupante frente à brutal crise que derrete a Petrobras, a presidente Dilma Rousseff também não ajuda nada a melhorar este clima. A montagem do seu novo ministério é um verdadeiro anticlímax, com os nomes sendo anunciados a conta-gotas, repetindo os mesmos erros nos métodos de fatiamento do poder entre aliados cada vez mais famintos, sem levar em conta a qualificação dos nomeados e os interesses maiores do país, com a solitária exceção da equipe econômica.

No restante, vamos ter mais do mesmo, com o PMDB dando as cartas e controlando o jogo no comando do Congresso. Pelo jeito, não mudarão nem as moscas farejando os cofres públicos. Depois, não adianta reclamar, nem se queixar da imprensa. A presidente está plantando para o futuro os mesmos pepinos podres que vem colhendo agora, sem mudar a horta de lugar.

Só quem tem bons motivos para ficar muito satisfeitos e cheios de esperanças num futuro melhor são os de sempre: as excelências federais, estaduais e municipais, de todas as latitudes e poderes, que já garantiram um belo aumento salarial nos seus contracheques em 2015. Está para ser aprovado no Congresso Nacional um reajuste de 34,4% em relação a fevereiro de 2010, o que vai nos custar mais R$ 3,8 bilhões por ano para ter as autoridades mais bem pagas do mundo.

Como o salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal, que recebem o teto do funcionalismo público, deve ir para R$ 35,9 mil, e os nobres parlamentares querem ganhar a mesma coisa, o efeito cascata vai beneficiar 16 mil desembargadores e juízes, igualmente promotores e procuradores, além do exército de 60 mil vereadores e mais de 1.000 deputados estaduais, entre outros. Entram na roda também os salários da presidente Dilma Rousseff, do vice Michel Temer e dos seus 39 ministros.

Temos nós algum motivo para comemorar? A única "notícia boa" desta segunda-feira em São Paulo, só para se ter uma ideia da inhaca, é que a Sabesp foi autorizada a retirar mais água do volume morto dos reservatórios do Alto Tietê, o que dará uma sobrevida de dois meses ao abastecimento da região leste da área metropolitana. Como diria o Milton Leite, que beleza!

Vida que segue.

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