Ao mesmo tempo em que a presidente Dilma Rousseff ocupava rede nacional de TV, na noite de domingo, para pedir paciência e apoio da população ao seu governo, em boa parte das principais cidades brasileiras a resposta foi dada com panelaços, buzinaços, palavrões, gritos histéricos de "Fora Dilma e "Fora PT", rojões, luzes piscando nos apartamentos, deixando a impressão de uma revolta generalizada.

Como nosso País é muito grande e eu moro em São Paulo, na região dos Jardins, o principal reduto tucano, é preciso tomar muito cuidado para não generalizar o que aconteceu durante os 15 minutos do pronunciamento da presidente.

Por isso, logo cedo, perguntei à dona Edite, uma senhora baiana que trabalha com minha família faz mais de vinte anos, se houve algum protesto semelhante no bairro dela, o Jardim João 23, na periferia da zona oeste paulistana. Pelo seu relato, e eu não tenho nenhum motivo para duvidar, lá foi tudo igual.

Já no começo da madrugada desta segunda-feira, a direção do PT reagiu às manifestações de protesto, divulgando nota em que denuncia "uma orquestração com viés golpista que parte principalmente da burguesia e da classe média alta". Segundo o partido da presidente, o "panelaço fracassou em seu objetivo" e o protesto foi financiado pelos partidos de oposição.

De uma coisa podemos ter certeza: depois que inventaram as redes sociais, nada mais acontece por acaso, de forma espontânea. Durante todo o fim de semana, os diferentes movimentos que organizam as marchas do "Impeachment Já!", programadas em 200 cidades brasileiras para o próximo domingo, foram os mesmos que convocaram seus seguidores a participar do panelaço durante o discurso de Dilma na TV. O resto fica por conta do espírito de manada estimulado pelos pit bulls da imprensa.

panelaço Dilma pede paciência, ouve panelaço e PT acusa golpe

Bairros de São Paulo se manifestam fazendo "panelaço" enquanto Dilma se pronuncia na TV. Alguns edifícios também apagavam e acendiam as luzes em protesto / Reprodução/YouTube

Enganam-se, porém, os estrategistas do governo se acreditarem nesta versão conspiratória do PT de que tudo não passa de rugidos da elite branca, os tais "coxinhas tucanos", inconformados com a derrota nas eleições de outubro, e que o povão está satisfeito da vida. Não está.

A própria presidente Dilma reconheceu em sua fala que os brasileiros têm "o direito de se preocupar e se irritar". É o que sinto por toda parte, em todas as classes sociais: uma crescente e difusa irritação com o governo, a presidente e o PT. O tal do povão está perdendo a paciência já faz tempo, como registrei aqui mesmo em post publicado no dia 28 de agosto do ano passado _ bem antes das eleições presidenciais, portanto. Sob o título "Ódio contra o PT em São Paulo é assustador", conto o que ouvi de um motorista de táxi:

"Eu tenho tanto ódio contra o PT que, se tiver uma eleição entre o PT e o PCC, em São Paulo, eu voto no PCC".

De lá para cá, este sentimento só fez crescer, agora com a adesão de eleitores da própria presidente, que temem perder direitos e empregos por conta do pacote de ajuste fiscal lançado no começo do segundo mandato, como é fácil verificar pela desaprovação do governo nas pesquisas.

"Agora a coisa virou pessoal", constatou o leitor Fernando Peres, em mensagem enviada às 6h10 de hoje, ao comentar os protestos da noite de domingo. Posso estar enganado, claro, mas tenho a impressão de que uma grande parte da população, e não só de São Paulo, pelo que tenho lido nas redes sociais, já não quer mais nem ouvir o que a presidente tem a dizer pelo simples e bom motivo de ter perdido a confiança nela e em sua equipe de governo.

Conto com a ajuda dos demais leitores deste Balaio para termos uma ideia melhor da dimensão do que de fato aconteceu nos protestos contra a presença de Dilma na televisão, algo para mim inédito na história política brasileira.

Como foi no seu bairro, na sua cidade? O que você espera dos atos marcados para o próximo domingo? O que pode acontecer?

Tem hora em que é melhor o jornalista perguntar do que tentar explicar tudo e adivinhar o futuro.

É a vez de vocês buscarem as respostas. Escrevam, participem, me ajudem!

E vamos que vamos.

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