tancredoneves 1024x1024 Lembranças de Tancredo Neves, 30 anos depois

O problema de ser testemunha da história e ficar velho na profissão é que tudo faz muito tempo. Por isso, neste 21 de abril em que registramos os 30 anos da morte de Tancredo Neves, mais uma vez recorro ao meu livro de memórias Do Golpe ao Planalto _ Uma vida de repórter (Companhia das Letras, 2006), em que o presidente eleito que não chegou a tomar posse é um dos personagens mais citados.

É impossível alguém contar a história deste último meio século do nosso país sem falar do grande articulador político que foi o mineiro Tancredo Neves e do papel fundamental que teve na transição da ditadura para a democracia nos anos 1980.

Tive a oportunidade de acompanhar toda a campanha das "Diretas Já", viajando o país inteiro como repórter da Folha, e depois seguir Tancredo em suas andanças pelo país na disputa que travou com Paulo Maluf no Colégio Eleitoral, na última eleição indireta para presidente da República.

Dois momentos foram marcantes para mim nesta cobertura e os relembro abaixo, transcrevendo trechos do livro. O primeiro foi já no final da sua campanha, em 1984, em Belém do Pará, quando o encontrei sozinho assistindo à televisão no saguão do hotel, já tarde da noite, depois de participar de uma cansativa procissão da tradicional festa religiosa do Círio de Nazaré. A sua resistência física ao longo destas viagens pelo Brasil me deixava cada dia mais impressionado. Perguntei-lhe:

_ Dr. Tancredo, eu, que sou um pouco mais jovem, estou no bagaço. Como é que o senhor aguenta este pique?

Sem tirar o olho da televisão, ele deu a receita:

_ Eu sou movido a vitamina "P", meu filho.

Era "P" de política e poder, explicou-me o velho político mineiro.

A vitamina deve ter acabado antes da hora. Eleito no Colégio Eleitoral em janeiro de 1985, a posse de Tancredo estava marcada para o dia 15 de março, mas na véspera ele seria internado às pressas no Hospital de Base de Brasília.

Após longa agonia no Instituto do Coração em São Paulo, foi sepultado em São João del Rey, onde nasceu. Eu estava lá. A matéria, que o jornal abriu na primeira página, sob o título "Tancredo enterrado à noite, após o adeus da sua cidade",  começava assim:

O toque de silêncio. Uma salva de 21 tiros de canhão. Apenas 200 pessoas no cemitério. A cidade recolhida, calada. Foi o ato final destes quarenta dias que abalaram o Brasil. Tancredo de Almeida Neves, o primeiro presidente civil depois de 21 anos de regime militar, que morreu antes de tomar posse, foi enterrado às 22h54 de ontem, na sepultura número 84 do pequeno cemitério da Venerável Ordem Terceira de São Francisco de Assis, em São João del Rey, Minas Gerais.

O sepultamento estava inicialmente marcado para as 17 horas, mas foi adiado por determinação de dona Risoleta Neves para que todos os são-joanenses, que desde cedo formavam longas filas diante da igreja de São Francisco de Assis, pudessem ver o corpo do presidente. O esquife foi levado por irmãos da Ordem Terceira até a entrada do cemitério e entregue à família. Na frente, trazendo o caixão até a sepultura, vinham o presidente José Sarney e o filho Tancredo Augusto, enquanto a banda do Regimento Tiradentes tocava a marcha fúnebre de Chopin.

Os sinos da igreja de São Francisco de Assis, onde o corpo estava sendo velado desde as 11h30, dobraram mais forte.

Os poucos meses que separaram a grande festa cívica das "Diretas Já", da eleição, agonia e morte de Tancredo me fizeram pensar na época como o nosso grande país pode ter um destino ao mesmo tempo belo e trágico.

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