O drama de ficar sem trabalho por trás dos números

São poucas as coisas que efetivamente sabemos sobre os efeitos que produz um ajuste fiscal. A primeira é que eles sempre afetam o nível do PIB e distribuem os custos de forma desigual entre os trabalhadores, os empresários do setor real e os intermediários financeiros (Antonio Delfim Netto, na Folha).

Ainda bem que nunca passei por isso, graças a Deus. Nos meus 51 anos de carreira como jornalista, nunca fui demitido nem fiquei um dia sem trabalho. Sou um caso cada vez mais raro, eu sei.

Os números negativos divulgados pelo IBGE nesta terça-feira sobre aumento de desemprego e queda na renda dos trabalhadores no primeiro trimestre escondem dramas pessoais e familiares dolorosos que vão muito além das dificuldades financeiras momentâneas. Este é o lado mais desumano e injusto dos efeitos causados pela crise econômica.

Ficar sem trabalho mexe com a autoestima, altera a rotina das famílias, leva-as a refazer ou cancelar planos, a adaptar-se rapidamente a uma nova e cruel realidade que não tem prazo para acabar.

É uma bola de neve que começa nas casas e vai atingindo o comércio da vizinhança, os prestadores de serviços, os fornecedores das indústrias, as lotéricas, o vendedor de milho cozido, até chegar à próxima projeção do PIB.

Não tem outro jeito: quem fica sem salário no fim do mês precisa rapidamente decidir quais despesas podem ser cortadas e buscar outras fontes alternativas de renda, pois este é o único caminho possível nesta hora.

Enfrentar os custos desiguais de um ajuste fiscal, como ensina o professor Delfim, torna-se um desafio para 1,5 milhão de brasileiros sem trabalho, que poderiam lotar 20 Maracanãs, um número que vem crescendo de um mês para outro este ano.

Cabe ao governo federal, claro, utilizar todos os instrumentos para cortar as próprias despesas, melhorar as receitas e redirecionar os investimentos, contemplando setores capazes de gerar empregos a curto prazo e em larga escala.

Por exemplo: destinar mais financiamentos do BNDES a pequenas e médias empresas, e não só para grandes grupos econômicos. No macro e no micro, é preciso mudar prioridades _ nos governos, nas empresas e nas famílias, ter a coragem de abrir mão de alguns confortos e certezas, mudar os hábitos dos tempos de fartura.

Embora ainda não tenha acontecido comigo, a experiência de muitos amigos e parentes que já passaram por isso nos mostra que ficar sem trabalho e renda de um dia para outro passa por dois momentos distintos.

O primeiro, após o choque, mobiliza a solidariedade da família e dos amigos para ajudar quem ficou nesta situação, mas isso sempre tem um limite para quem vive só do seu trabalho e não tem outras rendas, como é o caso da maioria dos brasileiros assalariados.

Caso esta situação se prolongue _ e nada indica no atual cenário da economia brasileira melhora a curto prazo _ a questão deixa de ser só financeira e abala a autoconfiança do cidadão desempregado, que pode se achar culpado pelas dificuldades que enfrenta e fica com vergonha de pedir ajuda.

Este é o momento mais difícil. O desempregado precisa estar aberto a mudar de cargo ou função, aceitar ganhar menos e trabalhar mais, o que nunca é fácil para ninguém. A melhor forma de entender o que está acontecendo por trás dos números da economia é se colocar no lugar do outro, mas só a compaixão não resolve.

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A fome tem nome

Em maio de 1984, no final do governo de José Sarney, quando vivíamos dificuldades análogas às atuais, os editores da Folha me pediram para fazer uma reportagem sobre desemprego que não se limitasse a teses e estatísticas mas mostrasse o dia-a-dia de uma família em que o marido e a mulher estavam desempregados. Reproduzo abaixo um trecho da matéria publicada no meu livro A Prática da Reportagem (Editora Ática, 1985):

A família Lima mora na favela Cinco de Julho, em São Mateus, a meia hora de carro do centro de São Paulo. É aqui, nesta casa de dois cômodos, escura mesmo de dia, sem água há meses por falta de pagamento, sem gás para o fogão por falta de dinheiro, que terminam todas as histórias de recessão, desindexação, carta de intenções com o FMI, reaquecimento da economia, balanço de pagamentos, recorde de exportações, inflação, nível de emprego, e tudo o mais que a família Lima pode não entender direito, mas sofre na carne.

Há quatro meses, a família Lima passa fome, literalmente. A mulher, Ana Maria Rocha de Lima, 34 anos, está desempregada desde outubro do ano passado. Em dezembro, chegaria a vez do seu marido, José Luis Souza Lima, 38 anos, paulista de Cravinhos, laminador de fibras de vidro.

"Se trabalhando já estava difícil, imagina agora", diz Ana Maria.

Como é ter fome, o que você sente quando quer comer e não tem nada em casa?, pergunto à filha deles. Envergonhada como o pai, Claudilene, de 8 anos, fala baixinho:

"Eu fico quieta. Quando dá fome, eu sinto tontura...".

A mãe ouve e começa a chorar, o pai vira o rosto e fica olhando para o vazio. "Pior é a Claudinéia... Quando chega uma certa hora e ela vê que ninguém vai para o fogão, não vê panela, senta ali naquela cadeira e chora, e chora. Tem vez que vou pedir ajuda pros vizinhos. Sempre tem aquele que tem um pouco mais e reparte. Um dia ou outro já dá pra fazer isso, mas todo dia não dá, porque eu sei que todo mundo tá com a vida dura também".

Qual seria o grande sonho dessa família, o que eles fariam com o dinheiro, se amanhã, por uma bondade do destino e dos tutores da Nação, José Luis e Ana Maria arrumassem um emprego? A pequena Claudilene responde antes dos pais:

"A gente comprava bastante comida, né mãe?..."

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