bicicleta São tantas notícias... E a bike fica ali só me olhando...

Todo dia de manhã é a mesma cena. Ela olha pra mim, eu olho pra ela, e nada acontece. Ligo o computador, depois de já ter lido os jornais. Daqui a pouco vou cuidar dela, penso sempre, mas raramente cumpro a promessa que fiz a mim mesmo quando descobri que estava ficando muito sedentário e, portanto, gordo. Fiquei com medo de andar nas calçadas depois da queda que sofri na rua onde moro no começo do ano passado e já me fez passar por duas cirurgias no braço.

Ganhei o aparelho de presente de aniversário em março e o instalei num lugar de honra do escritório, bem na entrada, para não me esquecer de pedalar todos dias. De lá para cá, porém, a bike ergométrica tem sido mais um enfeite, embora ainda não a tenha transformado em cabideiro de roupas, como fez meu irmão, que já ganhou três e não as pedala nunca.

Ela é bem simples, pequena e bonita, do jeito da mulher que eu gosto. Não me pede nem cobra nada, fica na dela, só esperando um pouco da minha atenção, na eterna concorrência com as notícias que não param de acontecer.

Hoje, por exemplo, fiquei dividido entre os acontecidos da vida real, geralmente relegados a segundo plano, e as intermináveis novelas da disputa política _ dois mundos cada vez mais distantes um do outro. Qual escolher?

Olho para a bicicleta de vez em quando, mas ela não pode me ajudar. Por deformação de ofício, na maioria das vezes me decido por temas políticos, que acabam se impondo nas manchetes, como se tudo nas nossas vidas dependesse apenas das excelências de Brasília. Não conheço outro país no mundo que dedique tanto tempo e espaço ao noticiário político, tornando o cidadão personagem secundário da grande aventura humana.

Vai ver que é por isso que só agora ficamos sabendo do drama da saúde pública no Ceará, onde 429 pacientes estão neste momento sendo atendidos no chão dos corredores dos hospitais de Fortaleza. "Estamos trabalhando numa guerra. Profissionais levam, às vezes, medicamentos de casa", contou à repórter Patrícia Britto a presidente do sindicato dos médicos cearenses, Mayra Pinheiro.

Enquanto isso, nós, jornalistas e políticos, estamos há semanas discutindo a indicação do advogado Luiz Fachin para uma vaga no Supremo Tribunal Federal, que está sendo submetido a uma beligerante sabatina no Senado na manhã desta terça-feira, com final ainda imprevisível. São duas guerras bem diferentes, a do STF e a dos hospitais de Fortaleza, como se estivessem sendo travadas em países distantes sem relações diplomáticas. Um não sabe o que está acontecendo no outro.

E ela lá parada, só olhando, à espera de que eu largue deste computador e cuide do corpo, já que a cabeça e a alma não estão se entendendo. Faço um sinal de já vou, e aqui coloco um ponto final.

Vida que segue.

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